A chico-espertice beirã de Bruno Aleixo

Pedro Santo e João Moreira, criadores do fenómeno Bruno Aleixo foram chamados pelo produtor Luís Urbano para uma versão para cinema. O Filme do Bruno Aleixo chega aos cinemas e a dupla de argumentistas conta ao DN tudo sobre este cão/ewok com chico-espertice beirã.

Tem 63 anos e é uma espécie de cão de Coimbra que é mais um Ewok da Guerra das Estrelas. Tem espírito do contra, amigos surreais como um grunho do Bussaco, um monstro do lago e um busto de voz grave. Bruno Aleixo é o boneco algo animado da esperteza saloia. Depois da televisão, da rádio e da fama no Brasil, chegou o filme. Um filme que parece feito para ser presente para os fãs de Aleixo - quem não o conhece pode estranhar.

Pedro Santo e João Moreira, os criadores deste ovni do humor nacional, foram os escolhidos para serem eles os próprios os realizadores. Uma aposta de risco de Luís Urbano, o produtor de obras como Technoboss, de João Nicolau; Frankie, de Ira Sachs ou Tabu, de Miguel Gomes. E no risco pode estar o ganho: o humor áspero e satírico de Aleixo está intacto e talvez só dois "não cineastas" poderiam compreender tão perto este "bicho".

Foram eles próprios que se lembraram de uma intriga que mostra Bruno Aleixo em longa conversa de café à espera que surjam ideias para ele fazer um filme. Segundo Aleixo, há um produtor em Portugal que quer um filme com ele... Homem do Bussaco, Aleixo, o Renato Alexandre e o Busto lembram-se das mais disparatadas ideias: de um filme de super-heróis onde Aleixo é o Papa até à possibilidade de uma narrativa de terror onde Fernando Alvim, o famoso apresentador de televisão, pode ser degolado num café na Anadia. Vale tudo e vale sobretudo imaginar que estes bonecos podem escolher Rogério Samora, Adriano Luz ou Gonçalo Waddington para os representar nas histórias possíveis que imaginam. A dada altura, o efeito é tão rebuscado e insano que permite uma latitude de sofisticação...


"Claro que ainda nos divertimos com a criação das piadas para o Aleixo, sobretudo no filme", começa por dizer João Moreira, que é também a voz do protagonista resmungão. "O processo de edição e montagem foi uma pândega. Ver as ideias concretizadas teve muita graça, sobretudo depois dum processo de produção ao qual não estamos tão habituados", conclui. Por seu turno, Pedro Santo, outra das vozes destes bonecos, lembra que o começo de tudo foi em 2007/2008 quando Fernando Alvim os desafiou para os Incorrigíveis, secção de humor no Sapo: "Aí tivemos a ideia do boneco. O Alvim acabou por achar algo fora e nem usou a experiência de animação que fizemos. Mais tarde, aquilo acabou por se espalhar na Net. O Pedro Ramos, o radialista, que na altura estava na SIC Radical, enviou-nos depois um email se tínhamos alguma ideia para aquilo e aí surgiu uma ideia de talkshow com o Bruno Aleixo, ao mesmo tempo que começámos a fazer uns vídeos para o Sapo. Depois, nunca parou". Não parou e na rádio, Aleixo e a sua família, comentam tudo e mais alguma coisa, ainda para mais numa rádio do Estado, a Antena 3.

Por ambos serem de Leiria e de Coimbra, também garantem que conseguem incorporar algum "exotismo rural" que em Lisboa não se encontra e essa ideia de conversa de café à portuguesa está bem explícita em todos os gagues de Aleixo - a versão para o cinema leva isso à letra.

Mas quem é mesmo este Bruno Aleixo? A resposta vem com seriedade por parte de Santo: "é uma mistura minha e do Moreira, mas também é muito mais: uma mistura das nossas avós e de pessoas que nós vimos ao longo da nossa vida, enfim, uma misturada!". Convém ainda explicar o seu visual peludo: "Achámos piada ele ser um ewok, como se fosse normal existirem ewoks em Coimbra. Mas quando foi para a SIC Radical houve que mudar algo, pois ali ninguém se queria meter com os direitos do George Lucas! Não deixa de ser para nós um ewok, mas mudámos alguns aspetos na cara, embora o nariz seja o mesmo, bem como os olhos. Na verdade, ficou mais cão e já nem nos importamos que algumas pessoas o chamem cão-ewok... Mas ele é como se fosse um ser humano, nunca faz referências ao facto de ser o ewok! O Aleixo e os amigos, mesmo não tendo aspeto humano, são bem parecidos com certas figuras de uma certa ruralidade. E não é assim tanta a caricatura, há pessoas nos cafés mesmo assim: a querem sempre sair por cima e que entram em picardias. Ao contrário de muitos sketches de humor em Portugal, não estamos a gozar com o saloio. O aspeto deles é nonense, as personalidades não", esclarecem e acreditam que essas pessoas têm piada.

De facto, O Filme do Bruno Aleixo tem sempre mais piada quando assume esse arquétipo do português chico-esperto. Será uma comédia à portuguesa? Pedro Santo diz que não mas abre uma ressalva: "o Herman, logo no início, dizia que o Aleixo era o humor mais português desde o Vasco Santana...O que nós fazemos é um humor de personagem com um pouco de sátira".

No Brasil, o fenómeno Aleixo é francamente maior do que em Portugal, sobretudo na Net. Não é por acaso que esta sexta-feira, o filme também estreie em muitas cidades do país irmão. Ajuda a que vídeos do programa da SIC Radical tenham ficado virais pelo YouTube e que comediantes dos Porta dos Fundos tenham vindo a público manifestar a sua devoção pelo boneco.

"Quando fizemos o Aleixo na Escola, tínhamos uma visão de Portugal da terrinha, ainda muito salazarenta e isso chamou também a atenção dos brasileiros, tendo a coisa tornado-se num pequeno culto, em especial no eixo Rio e São Paulo. Um pequeno culto no Brasil já é gigante comparado à nossa escala...", salientam. Mais espantoso é dois dos maiores festivais de cinema brasileiros, o Festival do Rio e a Mostra de São Paulo, terem incluído o filme nas suas seleções oficiais, tendo mesmo surgindo críticas favoráveis.

Em Portugal, ao longo dos anos, o culto cresceu. Moreira e Santo chegaram a dar espetáculos e entrevistas. Cada vez mais, sente-se que a legião de fãs é real e acérrima. Na Antena 3 e nas redes sociais, encontraram forma de dar voz a Aleixo na interação, mesmo quando por vezes uma pergunta possa ser respondida com o insulto "ó burro!"... "A parte boa é lidarmos como se o Bruno Aleixo existisse mesmo, uma vez que a maioria da interação é feita através de Facebook, Twitter e, mais recentemente, rádio (quando respondemos às perguntas dos fãs). E é sempre, sempre de acordo com o seu feitio dele que respondemos". O tal mau-feitio que é a sua grande arma de desarme.

No fim, quando fica no ar a pergunta se vão conseguir resistir ao preconceito do cinéfilo mais radical, é Moreira quem acaba com a especulação: "não vamos conseguir sobreviver".

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