Vista aérea da aldeia de Baishe, na província de Xianxim (Shaanxi).
Vista aérea da aldeia de Baishe, na província de Xianxim (Shaanxi).DR/Macao Daily News

A aldeia invisível: um lar sob a linha do horizonte

No sul de Portugal, existe uma técnica tradicional de construção em terra conhecida como taipa: a terra local é colocada em moldes de madeira e compactada em camadas sucessivas, dando origem a paredes espessas que ajudam a proteger do clima quente e seco da região. A técnica continua a ser utilizada. No Planalto de Loess, na China, há uma aldeia onde os habitantes dispensam a construção de paredes, escavando as suas casas diretamente no solo.
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É a aldeia de Baishe e fica a cerca de uma hora de carro a norte de Xi’an, na província de Xianxim (Shaanxi). Vista da superfície, parece nem existir: não há telhados nem paredes à vista, apenas grandes depressões quadradas escavadas no terreno. Contudo, aproximando-nos da borda e olhando para baixo, descobrimos casas no fundo dos fossos e o fumo das cozinhas a subir lentamente no ar.

Descendo por uma escadaria de pedra, chegamos a um pátio ao ar livre, rodeado por paredes de terra nas quais foram escavadas várias habitações. No centro, cresce uma nogueira da qual somente a copa é visível acima do solo.

Um verso popular da região descreve na perfeição esta paisagem: «Vê-se a árvore, mas não a aldeia; entra-se na aldeia, mas não se vê a casa; ouvem-se vozes, mas não se veem pessoas.» Quem anda à superfície muitas vezes não se apercebe.

O senhor Zuo, de 80 anos, leva um banco comprido para o pátio e senta-se à sombra da nogueira. Vive ali há várias décadas e conta que as habitações subterrâneas foram construídas pelo seu bisavô. A propriedade está na família há quatro gerações e tem mais de 120 anos, mas continua habitada.

Nas casas tradicionais chinesas com pátio interior, os edifícios dispõem-se em torno de um espaço central ao ar livre. Em Baishe, os habitantes levaram este conceito para debaixo da terra, dando origem a uma forma tradicional de habitação conhecida como di keng yao: um pátio escavado no solo, rodeado de casas subterrâneas.

Porque escolheram os habitantes de Baishe construir as suas casas debaixo da terra? Durante muito tempo, esta foi a forma mais económica de construir uma habitação. Tal como a casa do senhor Zuo, estas construções aproveitam a própria terra amarela da região, dispensando a compra de materiais adicionais à exceção dos necessários para as portas e janelas.

O Planalto de Loess foi fundamental para o desenvolvimento histórico da civilização chinesa. A terra amarela que o caracteriza é resistente ao desmoronamento, pelo que pode ser escavada na vertical e servir de parede. Além disso, as montanhas Qinling barram parte da humidade proveniente do sul, pelo que a precipitação é escassa e o solo se mantém relativamente seco. Estas condições naturais favoreceram a construção e a conservação das habitações subterrâneas, permitindo que muitas tenham chegado aos nossos dias.

Contudo, à medida que as condições de vida foram melhorando, os habitantes dispostos a viver nestas casas foram-se tornando cada vez menos. Das várias centenas de habitações subterrâneas que existem na aldeia, apenas 25 continuam permanentemente habitadas.

Os filhos do senhor Zuo já o aconselharam a mudar-se para um apartamento moderno na vila, mas ele recusou. Na tradição chinesa, a casa herdada dos antepassados não é apenas um abrigo: representa os laços familiares e um legado que importa preservar. Há também razões práticas para ficar. As espessas paredes de terra destas habitações protegem tanto do frio intenso como do calor, mantendo o interior confortável ao longo de todo o ano.

Nos últimos anos, porém, a forma como estas casas são encaradas tem vindo a mudar. A antiga habitação do senhor Zuo recebe cada vez mais equipas de filmagem, que a escolhem como cenário.

Zuo não espera que a aldeia se transforme num destino turístico. Deseja apenas que a casa herdada dos seus antepassados não fique ao abandono enquanto estiver em sua posse e que seja devidamente preservada, para que as gerações futuras possam conhecer o modo de vida de quem ali viveu antes.

Na aldeia existe também a hospedaria rural Tongjia Xiaoyuan, cujo proprietário tem quase 70 anos. Há 14 anos, decidiu recuperar as habitações em gruta da família e abriu o primeiro alojamento de turismo rural da aldeia.

Ali, a farinha é moída pelo próprio, os legumes vêm diretamente da horta e as refeições são preparadas na hora. Uma das especialidades da casa é o shizi mo, um pão tradicional confecionado sobre pedras muito quentes, cujo sabor deixa uma impressão duradoura em quem o prova.

Na época alta, é necessário reservar o alojamento com vários dias de antecedência, havendo visitantes estrangeiros que viajam propositadamente até Baishe para viver, em primeira mão, a experiência de passar uma noite numa habitação em gruta.

Habitação subterrânea tradicional (di keng yao) na aldeia de Baishe, atualmente convertida em alojamento local.
Habitação subterrânea tradicional (di keng yao) na aldeia de Baishe, atualmente convertida em alojamento local.DR/Macao Daily News

Nos momentos de lazer, os habitantes reúnem-se nestas casas para cantar Qinqiang, uma forma de teatro musical tradicional da província de Xianxim, marcada por um canto vigoroso e expressivo. Os visitantes também se juntam para assistir às atuações.

Todos os anos, estudantes de arquitetura da Finlândia, de Singapura e de outros países deslocam-se à aldeia para estudar estas construções e desenhá-las. Escavadas diretamente na terra, sem recurso a tijolos ou telhas, estas habitações ancestrais são hoje reconhecidas como um exemplo de arquitetura ecológica, que tira partido dos recursos naturais e das características do terreno.

No pátio do senhor Zuo, as paredes de terra foram recentemente renovadas com uma camada de cal, que ajuda a protegê-las da humidade e transforma o amarelo-escuro da terra num branco luminoso. O resto da casa conserva, porém, o seu aspeto original. Com um sorriso, Zuo garante que, depois de mais uma demão de cal, a casa poderá continuar habitável durante várias décadas.

No centro do arco de entrada, destaca-se pela superfície limpa e brilhante uma placa com a inscrição «Habitação centenária em gruta». De vez em quando, os pássaros pousam no rebordo de tijolo por cima da placa.

Em apenas uma geração, estas casas, inicialmente construídas para poupar dinheiro, passaram de lugares de onde muitos queriam partir a destinos que atraem visitantes de toda a parte. A terra amarela permanece a mesma; o que mudou foi o olhar do mundo sobre ela.

Esta aldeia, outrora invisível, começa finalmente a ser vista e compreendida.

Uma iniciativa "MACAO DAILY NEWS"

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