#23 “História do Zé-Sem-Esperança” (José Jorge Letria), José Jorge Letria, 1970
Vítor Higgs

#23 “História do Zé-Sem-Esperança” (José Jorge Letria), José Jorge Letria, 1970

A canção portátil e itinerante dos Zés deste país
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A canção de abertura do primeiro trabalho discográfico de José Jorge Letria é dedicada a uma figura imaginada que pretendia simbolizar o povo português em confronto com o estado social do País. O EP foi gravado no Estúdio 1111 em Alapraia (São João do Estoril), cujos produtores foram José Cid e António Moniz Pereira, aliás, eles eram uma espécie de “olheiros” da RCA-Victor, a editora americana representada em Portugal pela Telectra. Terá sido a partir da divulgação deste EP, em programas radiofónicos como o “Página Um”, que José Jorge Letria foi convidado a participar no programa “Zip-Zip”. Os quatro temas do disco são da sua autoria. Estava dado o arranque musical deste cantautor, consubstanciado no seu posicionamento antirregime e na procura de sonoridades mais elaboradas do que as tradicionais baladas. As suas canções eram apresentadas, sobretudo, em convívios universitários e em coletividades e cooperativas de trabalhadores nos subúrbios de Lisboa. Havia uma camaradagem espontânea entre os diferentes cantores. Letria era um dos mais inquietos e presentes. Eles estavam onde era preciso, sempre que era preciso. O próprio escreveu, mais tarde, que foi a importância do contexto em que estas canções surgiram que as tornou fonte de inspiração para a criação de um movimento de resistência cultural. Era o protesto, era o ideário de esquerda e comunista, onde o próprio se integrava. Esta e outras canções de Letria foram exemplares de um fenómeno que se foi disseminando. Falavam do povo sem esperança, mas abriam uma luz para quem a quisesse seguir.

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