Realizador de América (2010) e Mosquito (2020), João Nuno Pinto apresenta agora 18 Buracos para o Paraíso, filme com um duplo enquadramento ecológico. Trata-se do primeiro título português a receber o certificado internacional de Green Film (para projetos que reduzem o impacto ambiental através das “práticas sustentáveis” da sua produção); a ecologia é também convocada através do retrato de uma família, numa herdade alentejana, a viver uma situação de extremo perigo: um fogo ameaça destruir a propriedade, agudizando as tensões familiares. O filme é ainda lançado com audiodescrição (para pessoas cegas ou com baixa visão) e legendas descritivas (para pessoas surdas ou com deficiência auditiva). Em termos cinematográficos, deparamos com um puzzle de personagens marcadas pelos afetos que as aproximam ou afastam, mas também tratadas como símbolos do respetivo lugar na grelha das classes sociais. Tudo isso marcado e, num certo sentido, assombrado pelo facto de a família se confrontar com a possibilidade, talvez mesmo a necessidade, de vender a sua propriedade para a construção de um empreendimento turístico cuja marca promocional poderá ser um campo de golfe (com 18 buracos). Daí a concentração dramática num trio de figuras femininas: as duas irmãs, Francisca (Margarida Marinho) e Catarina (Beatriz Batarda), e Susana (Rita Cabaço), empregada da casa, tal como a mãe, apostada em defender os seus direitos face ao misto de paternalismo e indiferença dos patrões. São personagens muito cedo codificadas, ainda que a ameaça do fogo garanta algum “suspense” — com um elaborado visual, graças à sofisticada direção fotográfica de Kamil Plocki. O mais curioso resulta do facto de o filme se organizar como um triângulo desenhado a partir dos pontos de vista das três mulheres, por vezes levando-nos a reconhecer uma mesma situação que já víramos encenada a partir de uma diferente personagem — vem à memória Joseph L. Mankiewicz (Eva, A Condessa Descalça, etc.), mestre absoluto de tais arranjos narrativos. A concepção dramática das personagens de Francisca e Catarina parece francamente menos trabalhada do que o retrato de Susana, de algum modo garantindo ao último terço do filme uma vibração emocional que falta nos capítulos anteriores. E se é verdade que o cinema “social” português tem óbvias dificuldades para lidar com a complexidade estrutural do nosso presente, 18 Buracos para o Paraíso fica, pelo menos, como um filme que arrisca nesse domínio. .O cinema não desiste do sagrado.Ivo M. Ferreira: “Nós, portugueses, lidamos muito mal com os nossos traumas”