Yanbei volta a expôr em Lisboa para apoiar crianças da Ucrânia

Pintor chinês que escolheu Portugal para viver há quase uma década, e que consigo trouxe a família, participa na exposição JUSTLX e vai doar valor das vendas às vítimas da guerra. Ideia de ser solidário surgiu após ver na TV refugiado ucraniano de 11 anos sozinho.

Yanbei estava em casa colado ao televisor a seguir as notícias da guerra na Ucrânia, como tantas vezes tem feito desde o início da invasão russa, a 24 de fevereiro. Era 11 de março. Naquele dia, conta o pintor chinês que vive em Portugal, surgiram umas imagens que o sobressaltaram mais ainda: "Vi um rapaz ucraniano de 11 anos a atravessar a fronteira depois de ter viajado sozinho mil quilómetros, fugindo da invasão russa. Senti-me muito triste pelos danos que a guerra causa nas crianças, até porque tenho um filho da idade daquele menino. Então, o meu filho perguntou-me: "Papá, o que podemos fazer para ajudá-lo?" Foi aí que nasceu esta ideia de doar o valor da venda dos meus quadros na JUSTLX às crianças da Ucrânia".

A conversa com o artista é no seu ateliê em Oeiras, não longe de onde vive desde que a família, em 2014, se instalou em Portugal. Um pouco por todo o lado, encostadas ou penduradas nas paredes, estão já as pinturas que vão ser expostas na feira de arte contemporânea que se realiza entre dias 19 e 22 no Centro de Congressos de Lisboa, na zona de Alcântara.

A vontade de ajudar aqueles que sofrem usando a sua pintura é algo já habitual em Yanbei, na realidade chamado Guohui Zhang, pois o nome artístico resulta da junção das palavras em mandarim para ganso, que é Yan, e norte, que é Bei. Ainda quando vivia na China, contribuiu para ajudar as vítimas do grande terremoto de 2008 na província de Sichuan. E em Portugal, também já respondeu, em tempos, a um apelo da comunidade chinesa para apoio aos afetados pelos incêndios. Desta vez, as verbas saídas da JUSTLX serão canalizadas para uma associação de apoio às crianças ucranianas recomendada pela embaixada da Ucrânia em Lisboa, explica o artista, com ajuda na tradução da conversa do assistente Hao Rong, estudante chinês.

Fiz uma reportagem em 2018 com Yanbei quando este expôs no Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa. Já na época, a pintura do artista, nascido em 1963, causou impacto. Entretanto, foram mais duas as exposições, uma delas no Porto. Nem sequer durante a pandemia Yanbei deixou de pintar, o novo modo de vida escolhido por este antigo professor de artes, que foi jornalista e dono de agências de publicidade na China, mas que se cansou da poluição em Pequim e acabou por vir para Portugal (entretanto imitado por outro artista chinês, o famoso Ai Weiwei, que admira). Inicialmente a ideia da família Zhang até era emigrar para Canadá.

Passaram-se já nove anos desde a primeira visita ao país, oito desde a instalação definitiva, quatro desde a grande exposição em Lisboa (simbolicamente intitulada Recomeçar) e Yanbei cada vez mais vê Portugal "como país para o futuro", lembrando, orgulhoso, que os dois filhos falam português com total à-vontade e já têm a nacionalidade.

Estas pinturas que agora irá expor Yanbei, com o tal intuito de ajudar a minorar os efeitos da guerra na Ucrânia, enquadram-se na temática "marcas da humanidade no mundo" e um olhar atento perceberá impressões digitais em várias.

leonidio.ferreira@dn.pt

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