Gemma Arterton: uma dona de casa desesperada

"Um Bilhete Para Longe Daqui", de Dominic Savage, estreia-se nesta quinta-feira e é o título que assinala o pico da maturidade dramática da atriz britânica. Um olhar intenso sobre o colapso emocional de uma mãe e esposa doméstica.

Não é a primeira vez que Gemma Arterton interpreta uma mulher infeliz no casamento. Ainda há não muito tempo, em Gemma Bovery (2014), de Anne Fontaine, víamo-la corresponder, com um brilho muito próprio, a uma recriação contemporânea da protagonista do clássico Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Não sendo exatamente esse o modelo feminino que se recupera no novo Um Bilhete Para Longe Daqui, do realizador e argumentista inglês Dominic Savage, há no entanto um sentimento de liberdade projetada aqui na compra de um livro (em torno das famosas tapeçarias francesas A Dama e o Unicórnio) que nos faz pensar como este é um gesto só por si "bovariano", em perfeita analogia com o desejo por uma nova janela para a vida...

A premissa do drama é muito simples: Tara (Arterton) leva uma rotina absolutamente insípida, entre os apetites sexuais do marido (Dominic Cooper) logo pela manhã, o tratar da casa durante a tarde e o ir levar e buscar os filhos à escola. Aos nossos olhos, a sua infelicidade torna-se gritante na expressão socialmente disciplinada do rosto, mas em casa, no meio da dinâmica difícil das birras incessantes de uma das suas duas crianças e da impertinente sexualidade conjugal, as lágrimas caem-lhe de modo furtivo, como se apenas a câmara de Savage se desse conta da sua dor. E até certo momento, é isso que acontece.

Descrito desta forma, Um Bilhete Para Longe Daqui poderia ser tão-somente um retrato ligeiro e inofensivo da crise de uma dona de casa - e é verdade que nos primeiros minutos Savage não nos convence por inteiro de que quer ir mais fundo na captação do desajuste sentimental, nomeadamente pelo uso um tanto decorativo da banda sonora. Contudo, a acumulação de silêncios, o peso da linguagem corporal de Arterton e uma certa obsessão da câmara com tudo isso, desvia o filme para uma abordagem sensorial mais exigente. O semblante da atriz britânica, talvez como nunca o tenhamos visto, revela-se então um território de psicologia complexa, onde se vislumbra a angústia silenciada, lágrimas irrequietas, falta de ar e um desespero controlado até ao momento em que o sistema nervoso descamba numa feia manifestação perante os filhos, e depois numa decisão bem mais drástica: a tal fuga de que nos fala o título do filme, e que tem origem na sede de liberdade despertada pelo livro com imagens das tapeçarias A Dama e o Unicórnio (estão no Museu de Cluny, em Paris, e há uma cena reservada para o encontro de Tara com essa "metáfora" artística).

Estamos assim perante uma pequena obra que se ergue em função da robustez dramática da protagonista (que é também produtora executiva), resultante de um longo trabalho de improvisação desenvolvido entre o realizador e a atriz. A ideia era levar ao limite os contornos das emoções. E desengane-se quem espera um drama urbano politicamente correto. Antes, o que Savage tem para oferecer é o retrato incómodo de uma mulher que não sente amor pelos filhos, que não suporta os afetos desajeitados do marido, mas que apesar disso (sobretudo a falta de amor maternal) é um ser humano a precisar de ser contemplado como tal. Ora Arterton confere-lhe essa genuinidade penosa, esse conflito interior que deixa o espectador pouco confortável.

Para mais, o risco narrativo de Um Bilhete Para Longe Daqui está também no modo como se inverte a situação comum: numa sociedade ainda com traços patriarcais, geralmente são os homens a desaparecer da vida familiar, deixando às mulheres a responsabilidade da educação dos filhos. Neste caso, quando Tara foge, a sua família fica reduzida às fotografias e a um grande peso de consciência que terá de conciliar com a concretização da sua autonomia... No fim de contas, é apenas sobre um ser feminino interiormente agrilhoado que Dominic Savage nos quer falar, e a missão cumpre-se na pele de uma excelsa Gemma Arterton.

*** Bom

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