Foram horas de diversão e brasilidade.
Foram horas de diversão e brasilidade.Foto: Rui Silva

Música, sotaques e afeto: Lisboa viveu uma noite de Nordeste com o Festvybbe

A noite de sábado, 28 de fevereiro, veio mostrar a Lisboa a riqueza cultural, a alegria e a generosidade do povo nordestino.
Publicado a
Atualizado a

Que o Brasil está na moda, nós já sabemos. E eu sempre fico pensando: qual Brasil? Eu conheço vários — e esse é um privilégio de quem mora em Portugal. Aqui, num território muito mais reduzido, podemos ter contato próximo com vários Brasis, coisa que, lá, eu não tinha, por razões geográficas.

Um desses Brasis é o Nordeste, região vista de forma errônea como menos desenvolvida ou culturalmente mais pobre. Não poderiam estar mais enganados. A noite de sábado, 28 de fevereiro, veio mostrar a Lisboa a riqueza cultural, a alegria e a generosidade desse povo, na segunda edição do Festvybbe.

Artistas e público estiveram à altura para viver horas de diversão, saudade de casa e orgulho de ser brasileira e brasileiro. Bandeiras do Brasil, bandeiras de Pernambuco, do time de futebol Fortaleza, roupas de crochê (mais brasileiro, impossível) com as cores da bandeira e camisas da seleção eram vistas por todos os lados.

Chapéus estilo cowboy, frases aqui e ali como “viver é diferente de estar vivo” e lindos vestidos foram mais alguns detalhes dos looks da noite. E não escrevo sobre as roupas por futilidade, mas, sim, por saber que, na nossa cultura, usar a melhor roupa para uma noite especial é sinal de respeito e prestígio.

O MEO Arena ficou lotado para assistir a artistas que ostentam orgulhosamente ritmos nordestinos: Xand Avião, que ganhou fama ao estrelar a banda Aviões do Forró, representando uma primeira geração de cantores que levaram o forró para o mundo, e nomes de uma nova geração musical. É o caso de Nattan, o “Nattanzinho”, Zé Vaqueiro, Léo Foguete, Felipe Amorim e Mari Fernandez.

O grupo faz parte do projeto Festvybbe, que une artistas em uma mistura de ritmos nordestinos, com convidados especiais. Quando subiram ao palco, a alegria foi generalizada, começando com Xand Avião. O repertório trouxe novos sucessos, como Casal Raiz e Inquilina, mas também clássicos do início dos anos 2000, como Coração e Chupa que é de Uva, levando o público 30+ à nostalgia. Frases que só quem é brasileiro entende, como “Vamos arrasta os quarto”, completam a viagem nostálgica e reforçam por que o português é um idioma ímpar e rico.

Cada artista apresentou um mix de músicas recentes e mais antigas, acompanhado por uma banda em que a sanfona é a grande estrela. Do início ao fim, ninguém ficou parado. Apesar de os imigrantes do Nordeste serem maioria, havia também pessoas de outras regiões, como Sudeste e Norte. E, claro, portugueses. “É um ambiente indescritível, eu quero ir ao Brasil”, disse ao DN Brasil Pedro Costa, que conhece as músicas por meio das redes sociais.

Clique aqui e siga o canal do DN Brasil no WhatsApp!

Os fãs portugueses são de todas as idades. Duas adolescentes estavam com um cartaz em homenagem ao ídolo Léo Foguete e foram convidadas pelo artista a subir ao palco. O momento evidenciou como a música tem a poderosa capacidade de unir culturas até nos contextos mais difíceis, como o que Portugal vive na área da imigração.

As fãs portuguesas com Léo Foguete.
As fãs portuguesas com Léo Foguete.Foto: Rui Silva

Por falar em fãs, não faltou carinho com os artistas. Nattan, que acaba de ser pai, ganhou uma roupa de bebê de uma fã. “Tudo que a gente faz agora é pensando nela (a bebê Ziza, nascida em janeiro). Com certeza, eu fico imaginando um monte de coisas que já quero dar para ela de presente. Então, ter um carinho do fã voltado para isso, para a gente, é muito significativo, é muito importante. Eu sou muito grato”, disse o artista ao DN Brasil.

Sobre trazer o forró para a Europa, afirma que é uma “honra” e uma “sensação de ter vencido realmente na vida”. O objetivo é expandir o show a partir de Lisboa para outras cidades europeias nos próximos anos. Aliás, imigrantes de países como Noruega, Suíça e Espanha vieram a Lisboa especialmente para participar da festa.

Produção do show

Outro detalhe importante, que também afasta qualquer ideia de pobreza cultural, é a produção do show. Além de um corpo de dançarinos e dançarinas, trata-se de um verdadeiro espetáculo, com luzes e efeitos especiais que não perdem em nada para qualquer palco internacional. Quem assina a direção criativa da apresentação é André Gress, que prioriza a identidade dos artistas e a construção de uma narrativa original no palco.

Outra surpresa desta edição foi a participação de mais artistas, como Jonas Esticado, Zé Cantor, Manim Vaqueiro, Ávine e Talita Mel, que fez, em Lisboa, sua primeira apresentação internacional. Mais uma novidade foi a participação dos Napa, grupo português que venceu o Festival da Canção e está em ascensão na carreira. Eles cantaram com Zé Vaqueiro a música Deslocado, em uma mistura de dois sotaques do mesmo idioma e do mesmo amor pela música.

Além das apresentações individuais, os cantores também subiram ao palco todos juntos. Em um dos momentos, estavam vestidos com as cores e bandeiras do Brasil. No fim da apresentação, vestindo branco e novamente com as bandeiras do Brasil e de Portugal, cantaram músicas como Morena Tropicana, de Alceu Valença.

Foram horas de show e de uma brasilidade única, que lembram — ou relembram — o orgulho da nossa cultura, orgulho esse que não é diminuído por estar integrado a outro país. Não é preciso abdicar de uma cultura para viver outra: as festas culturais provam que a coexistência é perfeitamente possível e deve ser expandida para todas as áreas da vida.

amanda.lima@dn.pt

O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil
Foram horas de diversão e brasilidade.
Joelma grava DVD em Lisboa com fãs de todo o mundo
Foram horas de diversão e brasilidade.
Casa Oxente: nova galeria de arte quer criar ponte cultural entre o Nordeste e a Europa

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt