Hipertensão: “Tratamos mais do que prevenimos”

Hipertensão: “Tratamos mais do que prevenimos”

Na terceira paragem da carrinha de rastreio “Pela Saúde de Portugal”, o foco esteve na necessidade de prevenção de uma doença que é mais complexa do que apenas tensão arterial elevada.
Publicado a
Atualizado a

Passavam poucos instantes da hora de encerramento para o período de almoço. Antero, já sem a bata branca vestida, bateu a porta e atravessou a rua dirigindo-se à carrinha grande estacionada no largo da igreja da Misericórdia, onde é também a farmácia em que trabalha. Aguardou breves instantes e entrou. Antes, já tinha feito a inscrição para, na qualidade de utente, participar no rastreio da Sociedade Portuguesa de Hipertensão promovido no centro da Guarda.

 “Todos os dias informamos as pessoas da necessidade de controlar regularmente os níveis de tensão arterial, glicemia e colesterol e, hoje, calhou-me a mim”. Com estas palavras bem-dispostas, proferidas ainda antes de se sentar no interior de um dos gabinetes, o técnico de farmácia Antero Elias quer demonstrar que também os profissionais de saúde têm a responsabilidade de zelar pela própria saúde. “Foi uma coincidência montarem aqui o rastreio gratuito e, claro, tinha de aproveitar, até porque se o fizesse na farmácia tinha de o pagar”, conta, entre risos.

Este caso espoletou também sorrisos em Rosa de Pinho. A presidente da Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH) refere-se muitas vezes ao exemplo dos profissionais de saúde junto da população. Sobre o envolvimento dos farmacêuticos, assim como dos enfermeiros, não se cansa de dizer que são também uma peça-chave e a porta de entrada do doente hipertenso nos cuidados primários de saúde, nos casos em que faltam médicos de família.

A paragem da iniciativa “Pela Saúde de Portugal” na cidade mais alta de Portugal, no último sábado, foi a terceira ação de rastreio da Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH) no âmbito de um périplo por diversas regiões para detetar e ajudar a controlar a doença. Nestas ocasiões, além da pressão arterial também é medida a pulsação ou frequência cardíaca e determinado o perfil lipídico de cada utente. Colaboraram nos diagnósticos médicos voluntários de medicina geral e familiar e alunos de enfermagem da Escola Superior de Saúde do Politécnico da Guarda.

O distrito, comparativamente a outros, apresenta níveis de hipertensão mais altos que a média nacional. O portal público Bilhete de Identidade dos Cuidados de Saúde Primários do SNS diz-nos que a doença em Portugal tem uma prevalência de 26,7%, enquanto na região atinge os 29%. Os hábitos alimentares muito à base de enchidos e com teor excessivo de sal são, nas palavras do médico João Pedro Patrocínio, a principal razão.

Os farmacêuticos e enfermeiros são a porta de entrada do doente hipertenso nos cuidados primários de saúde, nos casos em que faltam médicos de família

Controlar doença no interior sem médico de família é mais difícil

Cerca de 40% dos portugueses são hipertensos, existindo uma elevada percentagem de pessoas que desconhecem ter essa condição, o que agrava ainda mais os riscos de ataque cardíaco e AVC. A falta de médicos nos cuidados primários de saúde é outro fator de risco porque diminui o controlo da doença.

João Pedro Patrocínio, natural do Sabugal, mas recentemente chegado à região como médico de família na Unidade de Saúde Familiar (USF) Carolina Beatriz Ângelo, na cidade da Guarda, evidencia as fragilidades do distrito onde diz notar a falta de acessibilidade ao médico: “aqui no centro a situação já foi pior, atualmente existem cerca de mil utentes sem médico de família, mas o grande problema é a periferia, casos dos concelhos de Sabugal, Trancoso, Figueira de Castelo Rodrigo e Pinhel onde existe muita falta de profissionais”.

Aos lamentos de João Pedro Patrocínio junta-se a voz da colega e presidente da SPH que, à luz da falta de médicos de clínica geral, tem afirmado a necessidade de envolvimento de outras especialidades na prevenção e tratamento. “Quantas mais pessoas envolvidas, mais sucesso teremos. O doente hipertenso habitualmente não tem só hipertensão arterial e sofre com outro tipo de patologia. O excesso de peso, os maus hábitos alimentares poderiam ser ainda mais combatidos se houvesse a participação de nutricionistas nos cuidados primários de saúde.”

“O doente hipertenso habitualmente não tem só hipertensão arterial e sofre com outro tipo de patologia”

 Mais prevenção significa ganhos em saúde a longo prazo

Ao observar o corrupio de entradas e saídas de quem estava a fazer o rastreio no posto móvel instalado na carrinha com as cores azul e laranja da campanha, Rosa de Pinho critica algumas opções dos decisores políticos. “Precisamos de investir muito mais na prevenção e não tanto na parte curativa. Estamos a fazer muito mais medicina curativa do que preventiva. É muito mais caro tratar um doente depois de um AVC ou de um enfarte. O encargo é, a todos os níveis, muito maior para o próprio, para a família e para o Estado. Se apostarmos mais na prevenção, teremos ganhos em saúde a longo prazo”. Questionada sobre as razões dessa falta de aposta, a presidente da SPH aponta a mediatização dos números. “Campanhas com esta, por exemplo, dão muito trabalho a organizar e em termos de mediatismo não dão o retorno que, por vezes, se procura, ao contrário do número de consultas e cirurgias efetuadas, mas são campanhas muito importantes”.

A iniciativa “Pela Saúde de Portugal” englobada na Missão 70/26, um programa estratégico da Sociedade Portuguesa de Hipertensão que tem como objetivo ter 70% dos doentes hipertensos controlados até 2026, está a percorrer o país com o apoio da farmacêutica Servier, Diário de Notícias e TSF. Com um número cada vez maior de pessoas rastreadas em cada cidade, a próxima paragem será Coimbra a 16 de março.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt