Não obstante ser uma ficção, o Green Midget Café, em Bromley, um dos distritos de Londres, é há décadas espaço para incontáveis revisitações. Em 1970, um programa da televisão britânica situava o telespetador no interior de um estabelecimento de restauração de higiene discutível, frequentado por um troante corpo de vikings que respondia, no trajar e no visual, a todos os lugares-comuns perpetuados pela má história e séries televisivas. Capacetes ornados de hastes poderosas, volumosos casacos de pele e bigodes a lembrar o que de mais criativo ofereceu a arte da banda desenhada de René Goscinny e Albert Uderzo, no aparato piloso dos gauleses Astérix e Obélix.. No início do episódio com pouco mais de três minutos, o senhor e a senhora Bun aterram -- literalmente -- no seio do Green Midget Café. Entre brados vikings, um cliente húngaro perdido na tradução e um historiador enredado em notas explicativas, o casal procura efetuar um pedido. Depara-se, contudo, com um obstáculo. No Green Midget Café a ementa peca pela monotonia. Todos os pratos elegem um ingrediente. O senhor Bun adora a perspetiva de uma refeição com um dos seus alimentos preferidos. A senhora Bun escarnece de tal cenário. A funcionária papagueia a ementa, o coro viking entoa “Spam, Spam, Spam, Spam...adoro Spam! Maravilhoso Spam”. Na época, o episódio humorístico engendrado pelo grupo de comediantes britânico, Monty Python, não imaginaria que em poucos anos o significado do termo spam verteria do seu berço de origem, um alimento, para o mundo da informática. O quinteto dos Monty Python repetia à exaustão “Spam, Spam, Spam...” numa época em que as Ilhas Britânicas olhavam com enfado para aquela mistura de carnes em conserva tornada omnipresente nas ementas familiares após a Segunda Guerra Mundial. A nação que reorganizava a sua economia e setor agrícola após o conflito mundial, encontrou na carne enlatada dos Estados Unidos um aliado da dieta diária..Hoje spam é sinónimo de lixo de correio eletrónico, embora a sua designação abarque outros meios onde se processa a comunicação. Em 1998, o Oxford Dictionary of English cunhou uma nova definição para a palavra spam: “Mensagens irrelevantes ou inadequadas enviadas na Internet para um grande número de grupos de notícias ou utilizadores”. Também os dicionários portugueses definem este estrangeirismo: “Envio de uma ou mais mensagens pouco apropriadas para um fórum de discussão ou listas de correio em deliberada violação da netiqueta”, adianta o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora..Desde a década de 1930 que um outro Spam, o patriarca da família arredado dos meandros do digital, empreendera uma conquista global. A mistura de carne de porco e salsicha cozidos na própria lata da conserva, a casar com amido de batata, açúcar e conservantes, num caldo gelatinoso, pode não se afigurar um pitéu. Não obstante, o produto e marca registada criados pela norte-americana Hormel Foods Corporation é atualmente comercializado em mais de quatro dezenas de países. O Spam ganhou popularidade global no decorrer da Segunda Guerra Mundial à boleia das rações de combate dos militares americanos destacados para palcos de conflito na Europa, na Ásia e em África. Estima-se que entre 1939 e 1945, mais de 75.000 toneladas de Spam terão sido entregues ao exército americano que recorreu ao alimento também para engraxar armas. Um produto alimentar cujo nome será acrónimo de “Shoulder of Pork and Ham”, capaz de motivar um festival, o Spamarama, em Austin, no Texas, e que se tornou um dos ingredientes com lugar cativo nas mesas do Havai, Filipinas, Okinawa (Japão) e em ilhas do Pacífico..Das guerras físicas às pelejas virtuais, ao spam há muito que lhe foi feita a associação a e-mails, mensagens, fóruns e redes sociais. Estima o site alemão Statista que só em janeiro de 2023, perto de oito mil milhões de mensagens de e-mail geradas nos Estados Unidos tenham sido spam. Segue-se-lhe a República Checa com 7,7 mil milhões de mensagens e os Países Baixos com número análogo. Uma multidão de spam longe das humildes emissões de correio eletrónico não desejado da década de 1990. Antes desta data, e num período muito anterior aos primórdios da Internet, ainda no século XIX, a multinacional norte-americana Western Union permitiu que mensagens telegráficas fossem enviadas a partir da sua rede em simultâneo para vários destinatários. Em 1864, era relatado o primeiro caso de um telegrama comercial não solicitado enviado em massa. Um grupo de políticos recebeu um aliciante anúncio promocional de um dentista. Perto de cem anos volvidos, num outro mundo tecnológico, o século XX assistiu à constituição de uma rede de computadores construída para a transmissão de dados militares sigilosos e interligação dos departamentos de pesquisa nos Estados Unidos. A ARPANET, criada em 1969, serviria, a 3 de maio de 1978, como veículo para o primeiro envio documentado de spam (ainda antes do uso que é atualmente dado à palavra). Trezentos e noventa e três utilizadores daquela rede receberam com desagrado uma mensagem a anunciar um novo modelo de computador da Digital Equipment Corporation. Na década de 1980, o termo foi adotado para descrever a prática abusiva de utilizadores em salas virtuais de conversação. Não raro, um grupo que pretendia expulsar outro grupo recém-chegado a uma sala de conversação, inundava o ecrã com excertos do episódio “Spam” dos Monty Python. Inúmeras “lutas” virtuais de spam foram travadas entre fãs da saga Star Wars e da saga Star Trek. A 5 de março de 1994, uma dupla de advogados dos Estados Unidos, Laurence Canter e Martha Siegel inaugurou um serviço de envio em massa de mensagens via Usenet, uma rede de mensagens de texto, a anunciar serviços jurídicos. Com o evento “Spam do Green Card”, como ficou conhecido, o casal de advogados propunha a inscrição de indivíduos na “lotaria” promovida pelo programa do governo dos EUA, ao atribuir uma quantidade limitada de “cartões verdes” a não-cidadãos. Documento que lhes permite permanecer e trabalhar no país. Laurence e Martha ofereciam um serviço de apoio ao processo mediante o pagamento de uma taxa. A mensagem partiu em simultâneo para mais de 5000 grupos de discussão da Usenet. A dupla de advogados é tida como pioneira no estabelecimento da moderna prática global de spam..Vinte e dois anos antes do esquema de spam de Laurence e Martha, os Monty Python entoavam uma ode à carne enlatada no seu single Spam Song: “Spam! Spam! Spam! Spam!/Lovely Spaaam! Wonderful Spaaam!/Lovely Spaaam! Wonderful Spam”. No século XXI, o spam encontrou uma nova forma de expressão artística, a Poesia de Spam, também designada spoetry, um verso poético composto principalmente de linhas de assunto ou conteúdo de mensagens de e-mail de spam. Thomas Palzer, escritor e jornalista alemão, armazenou ao longo de meses o spam que entrava na sua caixa de correio. Com os despojos deste lixo digital compôs a poesia que publicou no livro Spam Poetry (2013). “Salve [aqui entendido como guardar um arquivo] o seu casamento”, escreveu Palzer a propósito de um anúncio de spam ao Viagra.