Paula Sobral. "Os oceanos estão afogados em plástico"

Se nada se fizer para conter o despejo de materiais poluentes nos mares em 2048 haverá mais plástico que peixe. Paula Sobral explica os perigos que estão a surgir.

Nas últimas décadas, o lixo plástico - onde se incluem milhares de quilómetros de redes de pesca abandonadas - tornou-se a praga dos nossos mares. Se nada se fizer para travar este despejo contínuo de materiais altamente poluentes, em 2048, as toneladas de plásticos no oceano ultrapassarão as dos peixes. Numa conversa dirigida por Paulo Caetano, um dos coordenadores da Ciência com Impacto, a bióloga Paula Sobral, investigadora do MARE defende que a solução para esta catástrofe passa por um aumento da regulamentação e pela consciencialização das indústrias produtoras, que têm de incorporar na sua atividade os princípios da economia circular.

Vamos começar a nossa conversa por um tema de grande atualidade e que é, também, um dos seus temas de investigação. O que são os microplásticos?
Os microplásticos são partículas com dimensão inferior a cinco milímetros. Algumas, não todas, são tão pequenas que não as conseguimos ver à vista desarmada. Esses microplásticos, a sua maioria, são fragmentos de objetos maiores que se vão degradando e ficam quebradiços.

E quais são as principais fontes de plásticos, quer sejam de grandes dimensões, quer de menores tamanhos?
Como lhe disse, existem microplásticos que são fragmentos de materiais maiores, mas também temos microplásticos que são fabricados já nessas dimensões e entram no ambiente. Neste caso, regra geral, são granulados com origem industrial. Depois temos outros exemplos: a degradação das tintas dos edifícios e das embarcações, que acabam em flocos, as microesferas introduzidas em produtos esfoliantes de higiene pessoal. Neste último caso, a opinião pública foi espantosa e conseguiu que muitos fabricantes descontinuassem os produtos que continham estas microesferas.

Mas também temos os grandes plásticos, o grande lixo de plástico. Como é que esse lixo chega às linhas de água e, depois, ao oceano?
Por negligência, claro. As pessoas deitam lixo em qualquer sítio e o vento e as chuvas arrastam os lixos até às linhas de água. E daí acabam no mar. O outro fator importante e essencial que justifica que esse lixo vá para o mar é uma deficiente gestão de resíduos, que permite que eles escapem ao controlo.

E que impacto é que estes plásticos têm nos ecossistemas, na fauna e, diria mesmo, na saúde humana?
Temos aí várias camadas. O mais visível é o lixo de maiores dimensões à superfície do oceano e esse lixo pode ser proveniente de atividades desenvolvidas em terra, mas também pode ter origem na pesca. Redes perdidas e abandonadas no mar continuam eternamente a pescar, acabam com todos os organismos que encontram e esse é um impacto muito importante. Talvez seja até o que chama mais a atenção das pessoas, ver animais emblemáticos como tartarugas ou mamíferos marinhos afogados e embrulhados em redes. Mas os impactos são muito maiores e mais graves do que esse tipo de imagens. Eu diria que, nos oceanos, existem partículas de todos os tamanhos que podem ser ingeridas por todo o tipo de organismos, dos maiores aos mais pequenos. Os peixes mais pequenos comem partículas mais pequenas, os maiores comem partículas maiores e ainda se alimentam dos peixes mais pequenos.

E essa cadeia alimentar chega até aos seres humanos?
Sim, na costa portuguesa temos encontrado partículas e fibras plásticas em muitas espécies, incluindo as que têm valor comercial e entram na nossa alimentação. E isso indica-nos que, desde que o plástico exista no ecossistema, vai entrar na dieta humana. Mas é mais do que isso. A nossa exposição aos microplásticos é enorme e constante. Pense nas fibras, por exemplo. As fibras são muito leves e estão no ar que respiramos. E isso já acontece há muito tempo.

E existem consequências para a saúde pública dessa ingestão?
Essa é outra questão. Até ao momento, não existem evidências científicas que o comprovem. Temos a perceção que não é bom estarmos a respirar e a comer partículas de plástico, mas não sabemos ainda quais são os seus efeitos no ser humano. É preciso continuar a investigar nesta área.

Os plásticos e os microplásticos não conhecem fronteiras. Já foram identificados microplásticos no gelo do Ártico e nas chuvas da Sibéria. Ou seja, a disseminação é tão grande que os microplásticos estão já no ciclo da água. Como é que os cientistas lidam com um fenómeno tão global?
Estudamos os fenómenos setorialmente, claro. Mas os investigadores portugueses estão conectados com os cientistas do resto do mundo, integram projetos de investigação, colaboram e transferimos e partilhamos conhecimento. Mas esta é uma área nova na ciência, tem talvez duas décadas de investigação mais robusta e ainda temos muito terreno a desbravar.

Sei que integra o grupo de especialistas de aconselhamento das Nações Unidas e que, no âmbito europeu, participa ativamente na discussão e elaboração da Diretiva Quadro da Estratégia Marinha. Isso dá-lhe uma perspetiva global deste tema?
Sim, claro que abre horizontes. Juntámos um grupo de peritos, pioneiros no tema da poluição dos oceanos, e isso é muito interessante porque trouxemos para a discussão muitas questões que se levantavam no início. Algumas delas, hoje, já estão respondidas. Mas outras ainda não. Mas essa partilha e essa dinâmica de conhecimento deram origem a novos projetos de parcerias e a novos olhares sobre o tema. É assim que a ciência avança.

dnot@dn.pt

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