Com apenas uma mudança de altitude pode-se acabar com os 'contrails'
Com apenas uma mudança de altitude pode-se acabar com os 'contrails'Operation Blue Skies

Operation Blue Skies. Teste pioneiro com IA no Atlântico Norte visa eliminar os "riscos no céu" dos aviões que aquecem a atmosfera

A iniciativa é inédita. Junta o governo britânico, a Google e peritos em aviação para encontrar as melhores rotas para voos comerciais, retirando-os de zonas atmosféricas propensas à formação de rastos de condensação. O fenómeno, que é puramente físico e natural, cria nuvens artificiais que representam até metade do impacto climático total da aviação para as alterações climáticas, dizem os especialistas.
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Uma coligação liderada pelo Governo do Reino Unido e pela gigante tecnológica norte-americana Google anunciou esta terça-feira o lançamento da Operation Blue Skies, o primeiro teste à escala de todo um corredor aéreo oceânico destinado a reduzir o impacto climático dos rastos de condensação deixados pelos aviões.

O projeto, orçado em 5 milhões de libras (cerca de 5,8 milhões de euros), vai decorrer ao longo dos próximos dois invernos no espaço aéreo de Shanwick — a metade oriental do corredor do Atlântico Norte gerida pelo Reino Unido —, uma rota por onde passam milhares de voos entre a Europa e a América do Norte e que, dizem os especialistas envolvidos no projeto, é responsável por cerca de 5% de todo o aquecimento global provocado por este fenómeno.

"Esta é a primeira vez que um programa visa combater os rastos de condensação à escala de todo um espaço aéreo em território oceânico", afirmou Paul Hodgson, responsável técnico da Google para a Operation Blue Skies, durante a apresentação internacional à imprensa. "Apenas a região de Shanwick é responsável por cerca de 5% de todo o aquecimento global provocado por contrails", o nome técnico destes rastos no céu, "tornando este corredor num ponto crítico climático."

Operation Blue Skies

O que são os "riscos no céu"?

As linhas brancas que frequentemente se observam formadas a partir da cauda dos jatos a alta altitude — muitas vezes alvo de teorias da conspiração conhecidas como chemtrails — são, na verdade, um fenómeno meteorológico e físico perfeitamente natural e documentado pela ciência.

Quando os motores dos aviões queimam combustível, libertam vapor de água e minúsculas partículas de fuligem (soot). Ao entrarem em contacto com a atmosfera superior, onde as temperaturas se situam habitualmente abaixo dos -40 ºC e a humidade é elevada (em zonas chamadas "super-saturadas de gelo"), o vapor de água condensa e congela instantaneamente em redor das partículas de fuligem, formando cristais de gelo. O resultado é a criação de nuvens do tipo cirro artificiais.

A zona que ficará nos próximos dois invernos sob teste, uma das mais movimentadas do mundo.
A zona que ficará nos próximos dois invernos sob teste, uma das mais movimentadas do mundo.Operation Blue Skies

Marc Shapiro, diretor executivo da organização científica Contrails.org, explicou durante o briefing que "o vapor e a fuligem dos motores reagem com as condições atmosféricas e criam nuvens de gelo que absorvem o calor que tenta sair da Terra". Simultaneamente, também são refletoras da luz solar que tenta entrar mas, contas feitas, o défice favorece o aquecimento do planeta.

Contudo, sublinhou o especialista, "o mais entusiasmante neste problema climático é que conseguimos prever as regiões onde estas nuvens se vão formar e desviar os aviões ao redor delas" (ler como tudo se processa mais à frente).

A maioria destas nuvens dissipa-se em poucos minutos. No entanto, quando o avião cruza bolsas de ar particularmente frio e húmido, estes rastos podem persistir durante horas e espalhar-se ao longo de centenas de quilómetros.

O impacto oculto no aquecimento global

Apesar de parecerem inofensivos, os rastos de condensação persistentes têm um impacto climático muito grande. Estas nuvens de altitude funcionam como uma "manta térmica" na atmosfera: deixam passar a luz do sol durante o dia, mas retêm o calor infravermelho que a Terra tenta irradiar de volta para o espaço, sobretudo durante a noite (daí o défice térmico referido acima).

De acordo com os dados científicos mais recentes, segundo a documentação do consórcio enviada ao DN, os rastos de condensação são responsáveis por cerca de um terço a metade do impacto climático total de toda a aviação comercial — um efeito instantâneo de aquecimento que, em certas rotas e horários, supera o do próprio dióxido de carbono (CO2) emitido pelos motores.

Como respondeu ao DN Paul Hodgson, na conferência de imprensa, um estudo recente publicado na revista Nature aponta que, até 2050, estas nuvens de condensação serão responsáveis por cerca de 0,05ºC de aumento da temperatura média global. "Pode parecer um valor pequeno, mas representa cerca de 10% da margem que separa a situação atual [de 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais] do limite de 2ºC estabelecido no Acordo de Paris", frisou o especialista da Google.

Inteligência Artificial ao serviço da gestão do tráfego aéreo

A Operation Blue Skies pretende demonstrar que é possível evitar a formação destas nuvens através de pequenas alterações nas rotas de voo, sem que se introduza nos procedimentos de controlo aéreo procedimentos que já não existam atualmente.

Utilizando modelos de Inteligência Artificial desenvolvidos pela Google, combinados com dados de satélite e previsões meteorológicas avançadas do Met Office britânico, o sistema identifica com precisão as finas camadas de ar onde o fenómeno ocorre. Regra geral, estas zonas têm uma grande extensão horizontal, mas uma espessura vertical muito reduzida.

Basta uma mudança de altitude de 2000 pés (600 metros) para evitar uma zona húmida e já não gerar os rastos brancos, dizem os especialistas.
Basta uma mudança de altitude de 2000 pés (600 metros) para evitar uma zona húmida e já não gerar os rastos brancos, dizem os especialistas.Operation Blue Skies

Com base nessas previsões, os controladores de tráfego aéreo da NATS (a entidade responsável pelo espaço aéreo britânico) darão instruções aos pilotos para realizarem pequenas variações de altitude — tipicamente de apenas 2000 pés (cerca de 600 metros) acima ou abaixo —, contornando as zonas críticas sem pôr em causa a segurança nem a eficiência das operações.

No fundo, os controladores estarão a fazer o seu trabalho normal, de dar instruções aos pilotos sobre que corredores aéreos deverão utilizar. Nada de novo. Só que agora as rotas passarão a incorporar uma nova vertente ambiental.

Ian Jopson, diretor de sustentabilidade da NATS, garantiu durante a apresentação que a segurança aérea não será comprometida: "A segurança será sempre a prioridade absoluta. Se for seguro e operacionalmente viável mover a aeronave para evitar estas regiões, os controladores fá-lo-ão, utilizando os procedimentos padrão que já aplicamos para a turbulência ou o mau tempo."

Um esforço público-privado

O programa é financiado em 2,65 milhões de libras pelo Governo do Reino Unido através do Department for Transport e do ATI Programme, sendo o restante valor assegurado pelos parceiros industriais e académicos. A Google participa em regime pro-bono, contribuindo com 1,4 milhões de libras em horas de engenharia, investigação em IA e capacidade de cálculo computacional.

O consórcio conta ainda com a participação da organização científica Contrails.org e com a avaliação independente da Imperial College London e da Universidade de Cambridge, que validarão a eficácia real dos desvios na redução do aquecimento atmosférico.

Os testes operacionais vão focar-se em janelas temporais específicas no período noturno durante os invernos de 2026-2027 e 2027-2028, fase em que o tráfego no Atlântico Norte é mais reduzido e o efeito de retenção de calor pelos rastos de condensação é maximizado.

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