Trotinetes partilhadas: empresa baixa preços de recolha e gera boicote

A Lime, a empresa que gere as trotinetes partilhadas em Lisboa, decidiu baixar o preço da recolha e recarga de 5 para 3 euros em pouco menos de 15 dias. Houve "juicers" que não gostaram e organizaram um boicote nas redes sociais. Lime diz que os 5 euros eram apenas "promocionais" e que avisou toda a gente

"Ganha dinheiro ajudando a Lime a moldar o futuro dos transportes!" A Lime, empresa que detém um serviço de trotinetes partilhadas, começou a contratar em Portugal a 11 de setembro e as trotinetes chegaram à rua a 4 de outubro. Quinze dias depois está já instalada uma polémica. Os "juicers", assim se chama às pessoas que têm como missão recolher as trotinetes, carregá-las e voltar a colocá-las nos pontos de recolha, ganhavam, quando a Lime começou a operar em Lisboa, pelo menos 5 euros por cada trotinete que recolhiam, carregavam e voltavam a colocar na rua. O preço podia aumentar até 10 euros.

A 30 de setembro, o diretor geral da empresa para Portugal, Marco Pau, dizia ao jornal Eco que já contava com 100 pessoas inscritas como "juicers" e revelava os preços: "Cada juicer pode ganhar com este serviço 'entre cinco a dez euros'."

Porém, no início desta semana, ao abrirem a aplicação para verem onde estavam trotinetes que precisavam de ser recolhidas e carregadas, os "juicers" depararam-se com uma alteração aos preços: já não iam ganhar 5 euros, mas 3 euros para recolher, carregar e devolver as trotinetes. Uma quebra de 40% no preço. Nesta imagem pode ver o tarifário de recolha já depois da alteração dos preços:

Rapidamente a contestação ganhou força e foi criado um grupo secreto no Facebook que começou a agregar várias pessoas que se tinham inscrito na Lime para fazerem este trabalho. Segundo um "juicer" contactado pelo DN, esta alteração foi feita sem aviso por parte da empresa. Do mesmo problema se queixam vários dos mais de 80 juicers que fazem parte do grupo de Facebook onde está a ser organizado o protesto. À hora de publicação deste texto havia 82 membros neste grupo. E foi feito um apelo ao boicote:

Alguns "juicers" estão neste momento a recusar-se a recolher e a carregar as trotinetas, que podem ir ficando pelas ruas da cidade a perder bateria, dependendo da força do boicote.

A empresa garante, em respostas enviadas por email ao DN, que os trabalhadores - que são "centenas" - foram avisados desta mudança de preços: "Os Juicers registados foram informados, através de email e mensagens de texto, e nos vários eventos onde a Lime esteve presente."

E refere ainda que a mudança de preço estava prevista, uma vez que os cinco euros anunciados pelo responsável da empresa na comunicação social era apenas o valor de uma campanha promocional. "No lançamento, comunicámos a todos Juicers que esta seria uma tarifa promocional", o que contradiz as afirmações de vários "juicers" e o email de início de atividade que consultámos onde é explicado todo o procedimento de recolha e carregamento das trotinetes, mas no qual nada é referido em relação ao preçário nem a qualquer campanha de promoção.

"O valor que cada Juicer recebe depende da acessibilidade (localização geográfica) e estado da bateria de cada trotinete que recolhe. Por cada trotinete recolhida, recarregada e disponibilizada, o Juicer pode receber entre 3 a 10€. Durante a primeira semana de lançamento, fizemos uma campanha promocional, e o valor mínimo a receber por trotinete era 5€", esclarece a Lime.

A Lime está espalhada por várias cidades da Europa e começou a operar em Lisboa no dia 4 de outubro, com 400 trotinetas disponíveis na cidade.

Os preços são diferentes de cidade para cidade. Lisboa e Madrid estavam a praticar os mesmos valores até ao início desta semana. Em Paris o valor é mais elevado, assim como em Lyon. Lisboa é, portanto, a cidade onde a empresa paga menos às pessoas que recolhem e carregam as trotinetes.

A Lime justifica assim a diferença de preços: "Em toda a Europa, o valor está adaptado ao custo de vida de cada cidade."

Como funciona um "juicer"?

É aparentemente simples. Há uma inscrição e dois requisitos: "Ter um smartphone (iOS ou Android) e ter mais de 18 anos", segundo o anúncio no Linkedin.

Depois é começar. Instala-se a aplicação no telefone e ela vai indicando a localização de cada trotineta que está disponível para ser recarregada e o respetivo valor que será pago ao "juicer". Esse valor começava nos 5 euros, agora está nos 3 euros. A recolha pode ser feita a qualquer hora, mas a reposição tem de acontecer entre as 5 e as 7 da manhã.

Depois da inscrição a empresa entrega a cada "juicer" dois a quatro carregadores - as pessoas também podem comprar carregadores. Segundo um "juicer" que falou ao DN, uma bateria totalmente descarregada demora cerca de quatro horas a carregar por completo, com um custo de 4 a 10 cêntimos por carregamento. Por dia, um "juicer" pode carregar um limite de 12 trotinetas. Segundo os valores iniciais isso garantiria 60 euros por dia, com o novo tarifário esse valor baixa para 36, tudo antes de impostos.

E como é feito o pagamento? Todos os dias, segundo a empresa, através de uma plataforma eletrónica de pagamento, a Lime paga aos seus "juicers" e emite esse pagamento com o número de contribuinte do destinatário. Cabe aos "juicers" depois passar um recibo e declarar ao fisco, pagando os respetivos impostos.

Segundo a empresa, "todos os Juicers têm um contrato de prestação de serviços que assinam no momento da ativação da conta de Juicer" e todos os meses, é enviada "uma declaração com o valor que receberam durante esse mês".

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.