Lisboa discute os desafios da segurança urbana num novo contexto de polarização social

Lisboa discute os desafios da segurança urbana num novo contexto de polarização social

Num momento em que as cidades enfrentam transformações profundas, Lisboa coloca a segurança e a coesão social no centro do debate. O Colóquio da Polícia Municipal surge como um espaço de reflexão sobre um tema cada vez mais presente no quotidiano urbano: como responder aos sinais de polarização e garantir um ambiente mais equilibrado e seguro para todos.
Publicado a
Carlos Moedas, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa

A iniciativa, promovida pela Câmara Municipal de Lisboa, reúne especialistas, decisores políticos e entidades ligadas à segurança para discutir o papel das estratégias locais num cenário onde os desafios já não são apenas operacionais, mas também sociais.

Quando a cidade se torna palco de tensão

Lisboa, à semelhança de outras grandes cidades europeias, tem vindo a lidar com novas dinâmicas urbanas. A pressão habitacional, os fluxos migratórios e a crescente circulação de desinformação criam um contexto onde o espaço público se transforma, muitas vezes, num ponto de fricção.

É nos bairros, nas ruas e nos espaços de proximidade que estas tensões se tornam visíveis. Quando o sentimento de pertença diminui e a exclusão aumenta, o risco de conflito cresce e com ele a necessidade de repensar o conceito de segurança em Lisboa.

Neste contexto, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, sublinha a importância de não descurar um dos principais ativos da cidade:

“A segurança é, felizmente, um dos maiores ativos de Lisboa. A sua preservação é fundamental e temos de continuar a trabalhar para a reforçarmos. É absolutamente prioritária.”

Apesar de Lisboa continuar a ser considerada uma cidade segura, o autarca alerta para a evolução de alguns indicadores:

“Embora os dados mostrem que Lisboa é uma cidade segura, alguns tipos de crime - os graves e violentos, como homicídios e violações têm aumentado consideravelmente. Precisamos, pois, de travar essa escalada de forma firme e determinada.”

Segurança como responsabilidade partilhada

O colóquio parte de uma premissa clara: o modelo tradicional de segurança já não é suficiente, por si só, para responder à complexidade atual.

A resposta passa por uma Estratégia Local de Segurança, assente numa lógica de cooperação. Mais do que uma atuação isolada, fala-se de coprodução um esforço conjunto entre forças policiais, autarquias, escolas, serviços sociais e a própria comunidade.

A Polícia Municipal assume aqui um papel central, não apenas como agente de autoridade, mas como elo de proximidade com a população, contribuindo para uma leitura mais próxima e preventiva da realidade urbana.

Essa necessidade de reforço de meios e de atuação coordenada é também destacada por Carlos Moedas:

“Já concretizámos um conjunto de medidas neste domínio (…) e temos vindo a reivindicar junto dos diversos governos o necessário reforço de meios da PSP e da Polícia Municipal. Os agentes da PSP e da Polícia Municipal dão tudo o que têm e, grande parte das vezes, em condições de trabalho muito difíceis.”

Coesão social: a base invisível da segurança

Se há uma ideia que atravessa todo o debate é a de que a segurança não se constrói apenas com presença no terreno, mas também com relações, confiança e inclusão.

A coesão social surge como uma espécie de “infraestrutura invisível”: quanto mais forte for, menor será o espaço para radicalização e conflito. E é precisamente essa ligação entre comunidade e território que o Município de Lisboa pretende reforçar.

Neste sentido, o investimento em soluções concretas no terreno continua a ser uma prioridade:

“Aumentámos o orçamento para segurança e proteção civil e vamos continuar a apostar em medidas como a expansão da vídeo proteção e o policiamento comunitário.”

E deixa uma ideia-chave que sintetiza a abordagem:

“Não há liberdade sem segurança.”

O que esperar do colóquio

O evento inclui momentos de análise, partilha de experiências e discussão estratégica sobre os principais desafios da segurança em Lisboa.

Dia 4 de maio, no Teatro Aberto

O programa contará com a presença de várias figuras institucionais e políticas, bem como especialistas na área da segurança, coesão social e políticas públicas.

Para conhecer o programa completo, pode consultar:

https://informacao.lisboa.pt/agenda/municipal/coesao-social-e-estrategias-locais-de-seguranca

Para além da presença no local, o colóquio estará disponível em streaming, reforçando o seu carácter aberto e acessível ao público em geral.

À conversa com José Ricardo Nazareth de Carvalho Figueira

Superintendente Comandante da Polícia Municipal
CML

1. Porque é que a coesão social e a polarização urbana se tornaram hoje temas centrais no debate sobre segurança em Lisboa?

A cidade de Lisboa vive profundas transformações sociais, demográficas e urbanas que refletem a sua diversidade e vitalidade, mas que também geram novas tensões. A pressão sobre a habitação, a crescente diversidade cultural e a fragmentação das relações de proximidade tornam a coesão social um fator absolutamente determinante para a segurança.

A polarização urbana - muitas vezes alimentada por discursos de ódio, fenómenos de desinformação e desigualdades persistentes - cria fraturas invisíveis no território e fragiliza o sentimento de pertença.

Quando os laços comunitários enfraquecem e a perceção de exclusão aumenta, cresce igualmente o risco de conflitualidade, desconfiança e afastamento das instituições.

É neste contexto que compreendemos que a coesão social não é apenas uma questão de solidariedade ou justiça social: é uma verdadeira infraestrutura de segurança e, por isso, segurança e coesão social passaram a ser indissociáveis no debate urbano contemporâneo.

2. Que desafios específicos enfrenta uma capital cosmopolita como Lisboa nestas matérias?

Enquanto capital cosmopolita, Lisboa acolhe cidadãos de múltiplas origens, culturas e gerações, ao mesmo tempo que recebe diariamente milhares de visitantes. Este dinamismo exige uma gestão muito equilibrada entre liberdade, diversidade, ordem e proteção.

Os principais desafios passam por responder a diferentes expetativas de convivência no espaço público, prevenir fenómenos de marginalização ou de estigmatização territorial e garantir que todos - residentes e visitantes - se sintam parte da cidade e corresponsáveis por ela.

A complexidade não está apenas nos fenómenos urbanos em si, mas sobretudo na necessidade de respostas integradas e ajustadas a cada território.

3. Que papel pode um colóquio como este desempenhar na antecipação de riscos?

Um colóquio desta natureza cria um espaço qualificado de reflexão e diálogo, revestindo-se de um cariz essencialmente pedagógico, que pretende promover uma atuação integrada entre instituições, reforçar a nossa capacidade de leitura dos territórios e melhorar os processos de partilha e análise de informação.

Os fenómenos como a radicalização violenta ou a conflitualidade extrema raramente acontecem de um dia para o outro; são quase sempre precedidos por alterações comportamentais e dinâmicas sociais subtis, que importa identificar atempadamente.

Enquanto Polícia Municipal de Lisboa, com intervenção diária na cidade e uma relação de proximidade com as comunidades, temos uma responsabilidade acrescida nesta antecipação. Ao juntar, num mesmo espaço, a Polícia Municipal, a PSP, a Polícia Judiciária, o SIRP, decisores políticos, academia e parceiros da área social, estamos a estruturar uma abordagem preventiva integrada, onde a informação recolhida nos territórios pode circular com rapidez e chegar a quem tem competência para prevenir, investigar ou intervir.

Mais do que reagir a problemas existentes, este colóquio pretende compreender tendências de polarização e fatores de vulnerabilidade urbana, contribuindo e apoiando políticas públicas mais eficazes, preventivas e sustentadas no conhecimento.

4. Por que se defende que a segurança “não se faz sozinha”?

A segurança constrói-se diariamente através de relações de confiança, corresponsabilização e proximidade. Enquanto Polícia Municipal de Lisboa, com presença permanente na cidade e contacto direto com as comunidades, sabemos que nenhuma força policial, por mais preparada que esteja, consegue garantir segurança de forma isolada.

As famílias, escolas, associações, autarquias, serviços sociais e cidadãos desempenham um papel essencial na prevenção dos comportamentos de risco e na promoção de uma convivência saudável. É por isso que defendemos uma visão moderna assente na coprodução da segurança.

Quando um jovem está em risco de marginalização ou de radicalização num bairro, a resposta tem de ser integrada, articulando a intervenção da Polícia Municipal com a escola, as Juntas de Freguesia, a Santa Casa da Misericórdia, a AIMA e as associações locais.

As polícias lidam muitas vezes com as consequências visíveis dos problemas, mas é a proximidade ao território e o trabalho em rede com a comunidade que permitem atuar na sua raiz. A segurança faz-se em rede e afirma-se como um verdadeiro projeto coletivo ao serviço da cidade.

5. De que forma a Polícia Municipal de Lisboa, pela sua proximidade ao território e às comunidades, pode desempenhar um papel decisivo na cidade?

A Polícia Municipal de Lisboa afirma-se como a polícia da cidade e a mais próxima das suas dinâmicas quotidianas. Os nossos agentes caminham pelas ruas, conhecem os comerciantes, interagem com idosos, jovens e moradores, construindo diariamente relações de confiança com quem vive, trabalha e circula em Lisboa.

Esta presença permanente no espaço público permite à Polícia Municipal funcionar como um verdadeiro sensor da cidade, atento às mudanças subtis nas dinâmicas de cada território.

Assente numa estratégia de policiamento de proximidade, a Polícia Municipal tem uma atuação preventiva, mediadora e pedagógica. O elemento policial é um interlocutor privilegiado, capaz de identificar vulnerabilidades emergentes, sinalizá-las atempadamente e articular respostas com a rede de apoio social ou, quando necessário, com as instâncias de investigação criminal.

É esta forte ligação ao território e às comunidades que nos permite contribuir para a redução de conflitos, o reforço da coesão social e o aumento da perceção de segurança, fortalecendo o sentimento de pertença à cidade e promovendo uma segurança urbana mais humana, preventiva e próxima.

6. Que mensagem principal Lisboa quer afirmar ao promover este debate?

Lisboa afirma-se como uma cidade que pensa a segurança de forma integrada, humana e participada.

A mensagem que queremos afirmar é simples e clara: uma cidade verdadeiramente segura é uma cidade coesa, plural e inclusiva. Não nos resignamos a reagir aos problemas depois de eles acontecerem; escolhemos pensar, debater e agir antecipadamente, com base no conhecimento, no diálogo e na colaboração entre instituições.

Ao promover este colóquio, a cidade de Lisboa assume que a segurança não se esgota na intervenção policial, sendo também construída através da inclusão, da proximidade e da construção de um futuro comum.

A integração, o diálogo e o trabalho em rede são as nossas maiores forças. Rejeitamos os extremos e trabalhamos diariamente nos territórios para garantir que o espaço público continue a ser um lugar de liberdade, respeito e paz social para todos. Uma cidade segura é aquela onde as diferenças convivem, onde as instituições estão próximas das pessoas e onde o debate informado orienta decisões responsáveis, sustentáveis e comprometidas com a coesão social.

Uma conversa que vai além do evento Mais do que um momento isolado, este colóquio pretende abrir caminho para uma reflexão contínua sobre o futuro da segurança em Lisboa. Num cenário urbano em constante mudança, a resposta passa cada vez mais por proximidade, colaboração e capacidade de adaptação. E é precisamente nesse ponto de encontro entre estratégia e território que se constrói uma cidade mais segura e mais coesa.
Diário de Notícias
www.dn.pt