Viagem ao fundo do mar no Politeama

A Pequena Sereia estreia-se amanhã para o público. O DN assistiu a uma sessão com as escolas e os entusiastas pequenos espectadores

Colocar a cauda de sereia é a parte mais difícil. Requer uma certa habilidade que depois se ganha com a prática. Entre a maquilhagem, a peruca ruiva e todos os adereços, Carina Leitão dá corpo e alma a uma das personagens mais queridas do imaginário infantil imortalizada no clássico da Disney A Pequena Sereia em 1990. Lembra-se de ver o filme com a irmã e de saber as músicas de cor. Quem diria que aos 29 anos seria ela o peixe-menina que agarra a fábula e suspende o sonho dentro e fora de água. Entre o fundo do mar e a terra, a entrega ao papel tem sido sempre "maior" todos os dias. "Estou a adorar, tem sido um desafio muito exigente, muito enriquecedor, tenho aprendido muito", conta a atriz que sempre cantou - o pai era fadista. Esta é a segunda vez com La Féria em palco e já foi a Branca de Neve no gelo. Exigência é palavra de ordem nos ensaios. "O Sr. La Féria manda-me ver este filme ou ler aquele livro. Temos muito trabalho de casa", conta Carina, já sob meio corpo de escama, que se prepara, dentro de minutos, para mudar de habitat.

Cá fora, as professoras tentam conter a algazarra à entrada do Politeama. Hoje, são seis escolas e 700 crianças por sessão esgotada. Filipe La Féria já anda por ali, depois do pré-ensaio antes da peça. "Quando há escolas, faz questão de estar cá sempre de manhã para os acolher", conta alguém da produção. Através das portas de vidro, observa-os, aos pequenos sonhadores que certamente acordaram muitas vezes esta noite, só de pensar em Ariel. Chegam de todo o país. "Ficam de tal forma excitados que se calhar nem conseguem ver a peça", comenta La Féria, enquanto o seguimos no labirinto da mítica casa, com mais de cem anos. "Aqui acontece tudo. De manhã e à tarde, este rol de crianças, à noite os adultos e os mais velhos, é maravilhoso ter a casa cheia com públicos tão diferentes", elucida o encenador.

A Pequena Sereia é a sua última criação. "Eu penso e faço, mas esta é uma grande produção, confesso. Acho que sonho sempre muito alto, talvez mais do que a Ariel." Admite que a personagem, tal como a conhecemos no filme da Disney de 1990, é, aqui, diferente. "Fui mais fiel ao conto original de Hans Christian Andersen. Ela quer ter uma alma para poder sentir o que de mais nobre sentem os humanos, o amor." E quem melhor para o perceber do que as crianças? "É uma peça que os envolve muito, é como se fossem parte, e o que é engraçado é que depois pedem aos pais para vir outra vez no fim de semana", revela. Também a atriz principal, habituada ao auditório infantil, recebe com muita alegria o entusiasmo dos pequeninos. "Há uma parte em que perco a voz na história e eles próprios encarregam-se de contar o que está a acontecer ao príncipe."

Júlia Pereira e Wagner Lobo, responsáveis pelo acolhimento das escolas que acorrem à Rua das Portas de Santo Antão, contam que já houve alguns galos na cabeça, "eles vão doidos a descer a escada". Os olhos de Gonçalo e de Duarte, 5 anos, dizem tudo enquanto esperam pela professora da Escola Manuel Beça Múrias, de Oeiras. "Acho que vai lá estar o mar, dentro da sala." Soraia e Alicia já estão sentadas. Vêm de uma escola "que não é de Lisboa mas é de Portugal" e asseguram, convictamente, que o caranguejo e o pescador vão passar entre a plateia, mesmo atrás das cadeiras. Perguntam se aparecem na televisão. A cortina sobe, as luzes apagam-se e a histeria é total. Todos mergulham no fundo do mar.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG