Vhils traz a cultura das ruas para o palco do CCB

Periférico é a primeira criação de palco do artista Alexandre Farto e conta a história da cultura urbana em Portugal. Com o rapper Chullage, DJ Ride e bailarinos de hip-hop

O mais perto que tinha estado de criar para um teatro foi quando esculpiu os retratos das atrizes Amélia Rey-Colaço, Beatriz Costa, Palmira Bastos e Laura Alves nas paredes do Salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria II. Desta vez, aproxima-se mais do palco. Vhils criou uma peça que não é só uma peça artística, é uma peça performática e vai ser apresentada hoje e amanhã no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Chama-se Periférico.

Foi John Romão, o diretor da bienal Boca, que lhe perguntou se ele gostaria de fazer um trabalho em palco e Alexandre Farto não conseguiu resistir ao desafio. "Era um mundo desconhecido para mim. Não tinha qualquer noção, nunca tinha sequer pensado fazer alguma coisa no palco, mas isso é que me pareceu interessante", explica o artista conhecido como Vhils, o autor dos grandes murais que faz, um pouco por todo o mundo e também em Lisboa, usando explosivos e outras técnicas que o diferenciam dos graffiters. Mas o trabalho de Alexandre não se limita a isso. Entre outras coisas, é o diretor de uma galeria de arte em Lisboa, a Underdogs, e é curador do festival Iminente, em Oeiras, que teve a sua primeira edição no ano passado - ambos têm em comum o facto de serem uma montra para a arte urbana e de problematizarem o contexto em que esta arte é produzida e a forma como se relaciona com o público.

"Não tinha nenhuma experiência neste tipo de sítio mas tinha outras valências, de outros trabalhos, já tinha feito vídeo, por exemplo. E já tinha alguma noção do que é trabalhar num sítio destes, é um público e um contexto completamente diferentes daqueles que costumo ter", explica Alexandre Farto. Há muita coisa que pode correr mal. Mas isso é positivo. Sem risco não se sai da zona de conforto. E os artistas não têm assim tantas oportunidades para se desviarem do seu caminho. Sempre me senti mais estimulado quando isso acontece. Nunca lhe passou pela cabeça não aceitar o desafio. Antes pelo contrário, sentiu-se imediatamente entusiasmado pelo facto de ter de sair da sua zona de conforto - no que toca a ferramentas e linguagens usadas para se expressar - e por este ser, necessariamente, um trabalho colaborativo. São muitos os nomes que compõem a ficha técnica mas há três que ganham lugar de destaque na conceção de Periférico: Anaísa Lopes (Piny),responsável pela encenação e coreografia, o músico Chullage (assina uma parte da banda sonora e a sonoplastia) e DJ Ride (também assina a banda sonora e o vídeo, a par com Alexandre).

As ideias começaram a surgir imediatamente. E a principal tinha que ver com uma reflexão sobre a arte urbana e toda a cultura ligada ao hip-hop. "Queríamos falar da particularidade desse movimento de cultura urbana que surgiu em Portugal no final dos anos 1980, início de 90, mas para isso fizemos um apanhado do que aconteceu antes, e depois até chegarmos ao dia de hoje", explica Vhils. Há, portanto, uma narrativa histórica, embora não seja linear, em que se mostra o que aconteceu nesta área no campo da música, da arte, da performance.

Em palco vão estar seis bailarinos que têm uma enorme experiência de street dance. Esse era um dos desejos inicias de Vhils e Piny, como explica a coreógrafa: "Existem algumas pessoas a trabalhar com a desconstrução do vocabulário de dança urbana para um vocabulário de dança contemporânea, mas não era isso que queríamos fazer. O que faria sentido era chamar pessoas que, se calhar, não têm assim tanta experiência de palco, mas estão mesmo dentro da cultura. Dançam há muitos anos, têm a experiência do hip-hop e das battles. Os bailarinos geralmente vão dançar onde estão os DJ de hip-hop, passa muito pelas festas, por querer ir pintar ou dançar, é a cultura de crew."

Vhils não quer revelar muito do que vai acontecer, limita-se a dizer que "é um espetáculo multidisciplinar" onde, durante 50 minutos, a música, o vídeo, a dança, tudo se interliga de forma orgânica para contar a história da cultura urbana em Portugal. "Não é bem uma homenagem, é uma reflexão sobre o porquê de surgir, de onde vem e para onde vai. Levantamos uma série de questões, sobre a evolução e também sobre a aceitação, esta é uma cultura que está à margem mas depois chega ao mainstream, como é que se lida com isso? Quando chega ao palco e ao espaço museográfico, o que é que isso representa?", pergunta Vhils. "O movimento está a caminhar num sentido diferente e as várias vertentes estão a distanciar-se", na rua hoje em dia a música, a dança, a arte estão cada vez mais afastados mas "aqui conseguimos juntá-las todas".

Os bilhetes para as duas noites estão esgotados há mais de uma semana mas Alexandre Farto tem esperança de poder fazer mais apresentações de Periférico. E, afinal, criar um espetáculo não é assim tão diferente de criar uma outra obra de arte: "Tem sido confortável sair da zona de conforto."

Periférico
Conceito e conceção: Alexandre Farto
Hoje e amanhã, 21.00
Centro Cultural de Belém, Lisboa
Bilhetes esgotados

Exclusivos

Premium

Catarina Carvalho

Clima: mais um governo para pôr a cabeça na areia

Poderá o mundo comportar Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Erdogan na Turquia e Boris no Reino Unido? Sendo esta a semana do facto consumado do Brexit e coincidindo com a conferência do clima da ONU, vale a pena perguntarmos isto mesmo. E nem só por razões socioideológicas e políticas. Ou sobretudo não por estas razões. Por razões simples de simples sobrevivência do nosso planeta a que chamamos terra - porque é isso que é fundamentalmente: a nossa terra. Todos estes líderes são mais ou menos populistas, todos basearam as suas campanhas e posteriores eleições numa visão do mundo completamente conservadora - e, até, retrógrada - do ponto de vista ambiental. E embora isso seja facilmente explicável pelas razões que os levaram à popularidade, é uma das facetas mais perigosas da sua chegada ao poder. Vem tudo no mesmo sentido: a proteção de quem se sente frágil, num mundo irreconhecível, em acelerada e complexa mudança, tempos de um paradigma digital que liberta tarefas braçais, em que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens, em que os jovens podem saber mais do que os mais velhos... e em que nem na meteorologia podemos confiar.

Premium

Pedro Lains

Boris Johnson e a pergunta do momento

Afinal, ao contrário do que esperava, a estratégia do Brexit compensou, isto é, os resultados das eleições desta semana deram uma confortável maioria parlamentar ao homem que prometeu a saída do Reino Unido da União Europeia. A dimensão da vitória põe de lado explicações baseadas na manipulação das redes sociais, da imprensa ou do eleitorado. E também põe de lado explicações que colocam o desfecho como a vitória de uma parte do país contra outras, como se constata da observação do mapa dos resultados eleitorais. Também não se pode usar o argumento de que a vitória dependeu de um melhor uso das redes sociais, pois esse uso estava ao alcance de todos e se o Partido Trabalhista não o fez só ele pode ser responsabilizado. O Partido Conservador foi mais profícuo em mentiras declaradas, mas o Partido Trabalhista prometeu coisas a mais, o que é diferente eticamente, mas não do ponto de vista da política eleitoral. A exceção, importante, mas sempre exceção, dada a dimensão relativa da região, foi a Escócia, onde Boris Johnson não entrou. Mas a verdade é que o Partido Conservador conseguiu importantes vitórias em muitos círculos tradicionalmente trabalhistas. Era nessas áreas que o Manifesto de esquerda tradicional teria mais hipóteses de ganhar, pois são as áreas mais afetadas pela austeridade dos últimos nove anos. Mas tudo saiu ao contrário. Porquê?