Uma noite a agir como Poirot

Descobrir quem é o assassino. É este o desafio do Teatro Reflexo, a partir desta noite, em Sintra. Um Crime na Casa-Museu convida o público a desvendar um crime, assumindo o papel do famoso detetive criado por Agatha Christie

Em Crime na Casa Museu, o espectador é convidado a entrar numa espécie de Cluedo. A ideia é que assista, como espectador imerso no próprio espaço cénico, ao desenrolar da noite que começa num convívio entre amigos naquela que foi a verdadeira casa do mestre Leal da Câmara, figura incontornável do meio artístico português do século passado, hoje transformada numa casa-museu. Tanto Leal da Câmara como a sua esposa e amigos estão então reunidos numa animada tertúlia composta por artistas liberais dos anos 1920. Porém, durante o decorrer da noite, algo grotesco irá acontecer dentro da propriedade. Uma das sete personagens será alvo de um homicídio a sangue frio. A partir daqui, o palco é do público. E o jogo começa.

Antes, a sala de estar do antigo palacete está pronta para uma noite de tertúlia. Ouve-se música de fundo. Elas acomodam-se no sofá e tagarelam, entre gargalhadas e olhares cúmplices. Eles mantêm-se de pé. Amélia e Carlos Pelourinho, Cândida Bastos, Júlia Azevedo e Leal da Câmara, Cândida Bastos e Manuel de Sá. Os seis amigos parecem intimamente ligados. Amizades antigas, talvez, de outras tertúlias. Correm os anos 1920 e Tomás Leal da Câmara, artista residente nos arredores de Sintra, é uma figura de certo enlevo artístico, um pintor e caricaturista sonante, conhecido pelo seu espírito revolucionário. É ele, juntamente com a mulher, Júlia, quem faz as honras da casa.

E há qualquer coisa que se começa a farejar no ar. Divergências políticas e pessoais toldam o ambiente, e o clima animado e acolhedor dá lugar a uma certa tensão, um certo nervosismo entre os convivas. Uns e outros parecem esconder um mistério, porventura, um segredo, naquela trágica noite de 1923, em que alguém será brutalmente assassinado.

As personagens entram e saem da sala, todas parecem ter um assunto a tratar, entre conversas paralelas, íntimas e misteriosas. Sente-se que algo está na iminência de acontecer a qualquer momento. E enquanto prossegue a cena na sala de estar a curiosidade emerge para o que vai acontecendo atrás da porta, para recantos escondidos da casa. "Os convidados estão todos dispersos, isto já não parece uma tertúlia", diz Júlia. A criada Diamantina Santos, depois de espalhar raticida pelo jardim, "vi um rato enorme a passar há pouco", alerta Amélia, aparece com uma faca e diz que vai "sangrar a galinha para o arroz de cabidela". Também ela parece ocultar um segredo com um dos convidados.

Entretanto, há um casal que se apressa para sair. Os restantes estranham a atitude esbaforida e continuam a perguntar por Cândida que parece ter desaparecido. Ouve-se um grito assustador e Diamantina irrompe pela sala. "Ninguém sai desta casa. A menina Cândida acabou de ser assassinada." As luzes apagam-se. Há instruções a seguir emitidas por uma voz cavernosa.

Público no palco

É a vez de o público ser chamado ao enredo e envolvido num verdadeiro jogo de detetives, no qual, guiado pelo espírito da vítima, terá de descobrir o autor ou autora de tamanha atrocidade. Para isso, será convidado para jogos de sorte ou azar, perícia e observação.

"O que se pretende é que tenham acesso a cenas secretas que aconteceram em simultâneo com a cena principal, para poderem chegar ao desenlace da história", explica Michel Simeão, o criador do projeto que aceitou o convite da Câmara Municipal de Sintra para levar a palco o conceito de Cluedo teatral, até então desconhecido em Portugal, dando o primeiro passo no teatro interativo e imersivo, envolvendo o público num jogo de detetives. Uma experiência até à data inédita no nosso país, que se provou vencedora, estando duas temporadas de quatro meses sempre esgotadas, no verão de 2008 e 2009.

Um Crime na Casa-Museu segue os passos do universo influenciado pelo cinema noir e pelos intricados enredos eternizados por Agatha Christie, sendo que aqui o público é o próprio Hercule Poirot.

Michel não se assume como fã incontestável de Agatha Christie, mas reconhece que "as pessoas têm um fascínio por este estilo de espetáculo" que pressupõe o deslindar do mistério, o acesso a cenas secretas onde os fantasmas de cada um andarão à solta, falando em surdina por entre paredes que têm ouvidos, juntando as peças de um quebra-cabeças que apenas os mais astutos conseguirão decifrar.

E, claro, no final, a confrontação direta com as personagens, que acabarão por ser julgadas por cada um dos presentes. "O feedback que tenho tido é ótimo, temos tudo esgotado até novembro, as pessoas gostam de ter um papel ativo e de serem elas os detetives. Tento não ler nem ver muita coisa durante o processo criativo para não me influenciar, eu sou um curioso, é mais isso!".

Quanto ao próprio Leal da Câmara, Michel assegura que apenas o contexto histórico é verdadeiro, a personagem é completamente ficcionada. "Sabe-se, naturalmente, que foi um artista de convicções liberais, e que receberia aqui, nesta casa, muitos serões de tertúlia, aliás, a sua galeria pode ser vista no piso de cima, mas a personagem é puramente ficcionada". Quanto à casa que Leal da Câmara habitou desde 1930 até à sua morte, hoje propriedade da Câmara Municipal de Sintra, "é perfeita para este tipo de espaço cénico, nós estamos mesmo dentro da casa verdadeira de Leal da Câmara, mas este é um espetáculo que se adapta muito bem a outro tipo de espaços".

A hipótese de uma digressão não está posta de parte, depois de ter estado ao leme do projeto Casa Assombrada, um verdadeiro sucesso, em cena mais de um ano, com sessões continuamente esgotadas. "É como fazer um disco muito bom e depois fazer o próximo. Mas esta peça distancia-se da linguagem de terror da Casa Assombrada, aqui é diferente, abarca públicos mais variados e mais velhos", acrescenta.

Ficha do espetáculo

Crime na casa Museu

Estreia hoje, dia 7 de outubro.

Todas as sextas e sábados, às 21.00 e às 23.00

Casa Museu Leal da Câmara, Sintra

Bilhetes: 15 euros

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