Um duelo entre mouros do Nacional e cristãos do Minho

Nas próximas semanas, as Comédias do Minho ocupam o Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

Nas fotografias de divulgação da nova temporada, aparecem alinhados como uma equipa de futebol, com equipamentos coloridos e o encenador João Pedro Vaz armado em treinador. A imagem da equipa não é despropositada. Nas Comédias do Minho trabalha-se muito em equipa e todos fazem um pouco de tudo. Até mesmo subir ao palco. Neste Os Doze Pares de França encontramos, por exemplo, Celeste, responsável pela comunicação, Pedro, da produção da companhia, Alice, do serviço pedagógico, e Vasco, que além de ser técnico aqui também representa e toca guitarra. E ali estão eles, no palco da Sala Garrett, no Teatro Nacional D. Maria II, ao lado de atores da companhia, como João Grosso, Manuel Coelho e Paula Mora. Em contracena.

O espetáculo Os Doze Pares de França, que estreia amanhã, resulta de uma experiência inédita: o Teatro Nacional convidou as Comédias do Minho a virem passar uns tempos em residência no Rossio e ali criar, em verdadeira coprodução, um novo espetáculo. As Comédias já aqui tinham estado, em 2011, mas na sala-estúdio, com uma proposta para o público mais jovem. E também, em 2014, tinham trazido uma amostra dos seus espetáculos ao Teatro São Luiz. Mas desta vez é diferente. "Sobretudo por causa do tempo que temos. Deixaram-nos vir de armas e bagagens", explica João Pedro Vaz. A interação entre os elementos das duas equipas - as Comédias e o Nacional - é muito mais intensa, até porque para além deste espetáculo há uma "ocupação" que se prolonga até dia 21.

Foi, aliás, a partir daí que surgiu a ideia de fazer Os Doze Pares de França. Trata-se de um auto profano que tem muito a ver com a tradição da comunidade - o texto foi fixado nos anos que se seguiram a 1974 pelo GEFAC, Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra, nas suas incursões por Trás-os-Montes. E, por outro lado, permitia fazer um jogo muito subtil onde os mouros são interpretados pelos atores do Teatro Nacional e os cristãos pela equipa das Comédias do Minho.

"Isso permitiu-me puxar até ao máximo dois conceitos de representação: mais teatralidade do lado dos mouros, com máscaras, figurinos mais elaborados, uma certa agressividade teatral; e do lado cristão uma representação mais tosca e mais despojada." No palco, em lutas com espadas de madeira, os cristãos saem vencedores mas, na verdade, fora de cena, o difícil é encontrar derrotados.

Teatro no salão da freguesia

As Comédias do Minho surgiram em 2003, juntando cinco municípios do vale do Minho - Melgaço, Monção, Paredes de Coura, Valença e Vila Nova de Cerveira - com vontade de fazer teatro ali, numa relação próxima com as comunidades. Em 2007, com Isabel Alves da Costa, o projeto passou a contar com uma Companhia de Teatro Profissional e, depois da sua morte, em 2009, João Pedro Vaz assumiu a direção artística.

"O que nós fazemos é muito mais do que criação artística. Fazemos intervenção cultural, formação pedagógica, trabalho comunitário..." A trabalhar em várias frentes, as Comédias tanto podem convidar um encenador de fora para criar um espetáculo com a companhia, que será depois apresentado nas várias freguesias, como podem instalar-se numa localidade e procurar ali todo o material, temático e humano, para uma nova criação.

"É uma questão de escala", explica João Pedro. Em Lisboa, podem olhar para as Comédias como um projeto periférico, mas "lá em cima, nós somos um projeto grande. Os números são avassaladores. Todos os anos, um quarto da população de lá - não são turistas nem visitantes, são mesmo habitantes - está envolvida connosco de alguma forma. Como público, na produção, na formação, no projeto das escolas ou nos grupos de teatro amador." A intervenção é de tal forma intensa que um dia alguém comentou: "Qualquer dia abro a porta de casa e está lá um dos atores das Comédias a fazer alguma coisa. Estão em todo o lado."

Se para a equipa das Comédias um dos grandes desafios era enfrentar a enorme sala dourada do D. Maria II, em março os atores do Nacional vão encarar a "assustadora proximidade do público" quando a peça Os Doze Pares de França fizer "o circuito das freguesias" do Minho. "Será um espetáculo completamente diferente", avisa João Pedro Vaz. Sem a estrutura cenográfica, sem vídeos, sem a ajuda da equipa técnica no palco que, muito provavelmente, será compensada com a participação do público a interpretar alguns papéis. Não haverá rapazes de fato a acompanhar os espetadores ao seu lugar. Em vez disso, atores e espetadores sentam-se nas cadeiras e partilham um serão de teatro.

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