Um cabaret para rir com as coisas pequenas da vida

Ricardo Neves-Neves e o Teatro do Elétrico procuram o prazer de estar em palco com "Karl Valentin Kabarett". Estreia hoje no Festival de Almada

Há um pai que escreve à filha para lhe apresentar a fatura da sua existência: quanto pagou à parteira, "o custo da dor que causaste à tua mãe", quanto custou o berço, os livros e cadernos usados na primária, os retratos tipo-passe para o bilhete de identidade, e tudo o mais num total de "22 contos e 162 700 réis" Também há uma mulher que escreve ao seu apaixonado uma longa carta onde se entristece por não receber notícias deles e pede-lhe que ele, ao menos, lhe escreva a explicar porque não lhe escreve. São jogos de palavras que aparentemente sem grande significado mas que, se prestarmos atenção, dizem muito.

Essa é uma das maiores virtudes dos textos de Karl Valentin (1822-1948), segundo o encenador Ricardo Neves-Neves. O primeiro contacto com os textos do autor alemão não foi o mais auspicioso: "Não percebi nem achei piada nenhuma àquilo", conta. Mas quando estava a dar aulas de teatro decidiu utilizar os seus textos para trabalhar com os alunos "um estar em cena em que o ponto de partida pudesse ser o não se levar muito a sério, que é uma coisa de que gosto muito, e estes textos permitem esse trabalho sobre a comédia e sobre a beleza". E desde logo ficou com vontade de os trabalhar melhor num espetáculo: "Karl Valentin foi um dos primeiro dramaturgos a tratar o teatro do absurdo, com o qual tenho grande afinidade, e também é muitas vezes associado ao movimento dadaísta, faz muitos jogos com a sonoridade das palavras, e eu gosto disso."

Nos primeiros ensaios, os atores leram os mais de 60 textos que estão traduzidos para português. Só então foram escolhidos os 16 que integram o espetáculo: "Nos ensaios, eu pedia mais para ver o ator do que a personagem, até porque não há aqui um grande trabalho de personagem. O que eu quero ver em primeiro lugar tem muito a ver com o prazer de estar em cena, é uma coisa que não se pode ensaiar, é aquele brilho nos olhos." Por isso - mas também pela quebra da quarta-parede e o humor - há aqui um estilo de representação que em certos momentos se aproxima do teatro de revista. Daí o convite aos atores Fernando Gomes e Elsa Galvão para se juntarem ao Teatro do Elétrico. "São uma espécie de Marina Mota e Carlos Cunha ou José Raposo e Maria João Abreu mas do teatro independente cómico e musical. Eles já fizeram mais de 30 espetáculos juntos e têm esse brilho nos olhos a fazer isto."

Para além deles, o espetáculo é interpretado por Joana Campelo, José Leite, Márcia Cardoso, Rafael Gomes, Rita Cruz, Sílvia Figueiredo, Tadeu Faustino, Tânia Alves e Vítor Oliveira, e ainda Tiago Amado Gomes, no canto lírico, e a Karl Valentin Orchestra (direção musical de Rita Nunes), que vai estar bem visível, no palco.

É que este Karl Valentin Kabarett, que se estreia hoje no Festival de Teatro de Almada e vai depois para o Teatro da Trindade, em Lisboa, junta os textos de Karl Valentin tem forma de cabaret , com os quadros a serem intercalados com canções populares alemãs (e cantadas em alemão) do início do século XX, o que é algo que para Neves-Neves faz todo o sentido: "O Karl Valentin usava música que não era da sua época, por isso eu uso música que também não é da minha época, é da época dele, por isso mantém-se o desfasamento temporal para o espectador", explica Neves-Neves.

Após um enorme trabalho de pesquisa, escolheu canções que, tal como os textos, parecem não falar de coisas importantes mas que "são importantes para alguém" - por exemplo, uma fala de um cato que está pendurado numa janela e que vai picando os atrevidos que se aproximam, outra fala de uma rapariga que consegue fazer tudo sozinha menos beijar - e quis manter a língua alemã, embora haja legendagem para que todos possam acompanhar.

Seja através dos textos, seja das canções, a vida quotidiana aparece retratada neste cabaret onde "o prazer e a alegria acontecem, mesmo quando se fala de coisas tristes". As figuras de Karl Valentin, explica o encenador, vivem sempre "numa constante inferioridade em relação ao mundo" e quase sempre vivem em situações "que não são alegres apesar de se rirem". Um pouco como a vida de todos nós.

Karl Valentin Kabarett
Palco Grande da Escola D. António da Costa (Almada). Hoje. 22.00.
Bilhetes: 15 euro
Teatro da Trindade, Lisboa. De 13 a 23 de julho.
Bilhetes 12 euro/14 euro

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