“Torçam o nariz à vontade mas ouçam o disco”

A fadista Raquel Tavares gravou um disco só com canções de Roberto Carlos, numa homenagem a um dos seus ídolos.

Raquel era uma criança ainda e lembra-se de a mãe estar a passar a ferro e de ela, sentada no chão, brincar com carrinhos, fazendo-os deslizar pelas pernas da tábua de engomar, e enquanto isso estava a tocar uma canção de Roberto Carlos, Se o amor se vai. Há músicas que nos levam em viagem pela memória. A Raquel Tavares, de 32 anos, isso acontece-lhe sobretudo com dois discos: 88, de Roberto Carlos (de 1988), e Mingos e Samurais, de Rui Veloso (de 1990). “Foram os primeiros discos que tocaram lá em casa e sei as letras todas de cor.” E, ao contar esta história, desata a cantar, num perfeito sotaque brasileiro: “Mas se o amor está / Tudo é de verdade/ E a felicidade chega para ficar”. Depois, conclui: “Sou altamente vidrada no Roberto Carlos desde que me lembro de ser gente”.

Foi por isso com grande deslumbramento que a cantora aceitou o desafio do produtor Max Pierre, um dos diretores da Sony Music no Brasil, para gravar um disco só com canções de Roberto Carlos. “É muito importante dizer isto, porque eu nunca ousaria fazê-lo se não tivesse sido um convite. Para mim ele é o rei”, faz questão de sublinhar. O projeto Roberto Carlos por Raquel Tavares surgiu pouco antes do verão, num momento em que a sua agenda estava preenchida com concertos, ainda com o repertório do anterior disco, Raquel (2016). Mas, apesar disso, não lhe passou pela cabeça dizer que não.

A escolha dos 14 temas foi feita em conjunto com o produtor. Depois, Raquel Tavares gravou a voz em Portugal e mandou tudo por email para o Brasil. “Nem sequer consigo ser modesta, foi muito fácil gravar este álbum, gravei-o em duas tardes, fiz dois takes por tema, a chorar muito”, conta. A chorar de felicidade, claro. “O Roberto Carlos mexe-me em entranhas muito profundas. Vou ter que cantar muitas vezes estes temas para os tornar orgânicos e para não me esbardalhar em lágrimas nos concertos.”

Apesar de o disco incluir guitarra portuguesa, tocada por Bernardo Couto, Raquel Tavares nunca sentiu qualquer pressão para “afadistar” as canções de Roberto Carlos. “A fadista estava lá, eu sou fadista por condição. Mas a minha fadistice está em mim, não necessariamente no meu canto. Eu como cantora não sou só fadista. E convenhamos que ficava foleiro à brava eu cantar estas canções como se fossem fado”, diz. A única dificuldade foi o sotaque. Raquel morou durante três anos no Rio de Janeiro e facilmente fala e canta “em brasileiro”: “Gosto do sotaque, é ternurento, é dengoso. E eu tive o trabalho de fazer o você, o gerúndio e tudo isso de forma que fosse bonito e não ficasse piroso. O risco era muito grande.”

Na volta do correio, Max Pierre enviou-lhe os temas já prontos. E com surpresas. Sentada no seu sofá, a ouvir-se a cantar o seu ídolo, Raquel Tavares surpreendeu-se com as vozes de Caetano Veloso (em Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, tema feito por Roberto para Caetano, em 1971) e Ana Carolina (em De Tanto Amor).

Enquanto prepara o momento certo para apresentar este disco ao vivo, lá para 2018 (e, quem sabe, até com participações especiais), Raquel Tavares espera que os portugueses, sobretudo os mais novos, aceitem o desafio de descobrir Roberto Carlos: “Em Portugal ainda há muito preconceito em relação a música como a de Roberto Carlos, mas isso é falta de conhecimento, é não se dar ao trabalho de ouvir para além das Baleias e da ​​​​​​​Lady Laura e do Calhambeque. Há muito mais. Ele tem um espólio de 400 músicas.” E deixa o apelo: “Torçam o nariz à vontade, mas ouçam o disco antes de dizer que não. Sem preconceitos.”

Raquel Tavares escolhe três canções de Roberto Carlos:

Detalhes (1971) “Esta música faz parte da banda sonora da minha vida. Tenho o vinil e é daquelas que eu às vezes tenho necessidade de pôr a tocar. “

Não se esqueça de mim (1977) “É um poema do Erasmo Carlos com que me identifico: quando amas uma pessoa, queres que seja feliz mesmo que não seja contigo, só pedes é que não se esqueça de ti.”

Cavalgada (1977) “Para mim é um fado. E canto-a como tal. Mas é uma música feliz, canto-a a sorrir.”

Roberto Carlos por Raquel Tavares
Editora Sony Music
PVP: 12,99 €

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