TODOS, um festival para descobrir a beleza do quotidiano

Palácios fechados reabrem, espectáculos invadem hospitais, famílias convidam para a mesa. De quinta a domingo, na Colina de Santana
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Há um palácio no número 98 da Rua Gomes Freire a preparar-se para acolher o mundo. Da Serra Leoa há de vir o pão, da China virá o chá, do Paquistão o biryani, de Portugal, o vinho. E do Cazaquistão, do Senegal, de França, da Roménia, de Moçambique, da Venezuela chegarão outras iguarias - e costumes de as comer e beber - preparadas por mãos experientes, gente dos cinco cantos do globo que hoje habita a Colina de Santana.

A equipa do Festival TODOS - projeto de Madalena Victorino, Giacomo Scalisi e Miguel Abreu juntamente com o GLEM de Manuela Júdice/CML - que, depois do Intendente e S.Bento, se lançou à descoberta deste bairro diverso e meio esquecido de Lisboa, desafiou famílias e instituições, bisbilhotou tascas, jardins e casas particulares e juntou artistas, sociólogos, arqueólogos e arquitetos num imenso fim de semana (de 8 a 11) que, entre o Campo Santana, o Jardim do Torel, o Hospital Miguel Bombarda ou a Galeria Monumental, estende uma toalha poética e comunitária na Colina de Santana, com vista para a felicidade.

E, nesta oitava edição que é também a segunda visita ao bairro, encontra mil e uma maneiras de surpreender o quotidiano. Espectáculos invadem quartéis, famílias convidam-nos para a mesa, palácios fechados abrem portas. Aqui, por exemplo, sobe-se a dupla escadaria, passa-se o espelho veneziano e o canapé de cetim, e desagua-se nos cinco continentes das Cozinhas Paraíso, um festim intercultural que nos convida para a mesa, seja ela alta, baixa ou simplesmente uma toalha imaculada estendida no chão de madeira secular. Os anfitriões podem chamar-se Lajja Sambhavnath e ser uma bailarina indiana, ou Lucas Armendani e ser um artista plástico brasileiro com uma bela coleção de vinis do Chico Buarque, ou Dinah Pereira, angolana que entrou aqui hoje pela primeira vez e diz: "Hoje estive a beber isto tudo, e agora vou cozinhar na minha cabeça o que vou fazer".

Uma festa que começou lá atrás, nos filmes que Tiago Leão e João Manso gravaram nas cozinhas de família oriundas do Nepal ou do Senegal que agora habitam o bairro, nas "deliciosas gastronomias" que Madalena Victorino foi descobrindo em conversas longas de meses. E agora, aqui, em cada uma destas salas desta casa, tudo está desencontrado, como se já não fosse preciso identificar de onde vem isto ou aquilo, esta pessoa ou outra, e bastasse ficar contente com toda esta riqueza. Entrar nas Cozinhas Paraíso, a propósito, é gratuito, como tudo no TODOS - mas atenção, é necessário reservar lugar para o email festival.todos.reservas@gmail ou no quartel general do festival, no antigo Palácio do Patriarcado.

À volta da mesa, haverá ainda conversas (com a arquiteta Mariana Salvador ou o sociólogo José Manuel Sobral) no Goethe-Institut e, no jardim do Campo Santana, uma volta ao mundo num mini-snack, espécie de picnic volante líquido, sólido e crocante, preparado a muitas mãos e servido com toalhas/ /aventais inventados pelo grupo de costura que, em agosto, juntou refugiados da Eritreia a utentes do Centro de Dia do bairro e a habitantes do jardim e arredores.

Do quotidiano para o mundo

Piknik Horrifik, da companhia Laika, também alimenta corpo, cabeça e coração com arte, iguarias sofisticadas e questões prementes, cozinhadas a partir de O Jardim das Delícias Terrenas. A terrível e sublime pintura de H. Bosch serve ao coletivo belga para pôr de pé uma superprodução de teatro culinário que interroga a vida de todos os dias nas sociedades ocidentais, com o seu desperdício e superabundância. A peça habita o antigo quartel da GNR do Largo Cabeço da Bola e também necessita de reserva.

Portugal não é um país pequeno, um quase solo de André Amálio multiplicado pelas vozes de trinta portugueses cujas histórias de vida passam por Angola ou Moçambique é teatro documental que interroga a nossa herança colonial em direto (e na Academia Militar). "Um país que não discute o seu passado é, de certa forma, um país que deixa de existir. E é por isso que estamos aqui, para deixar que alguma dessa memória continue viva dentro de nós", diz o autor e ator, dentro da peça que reflete sobre a presença portuguesa em África e a ditadura, tomando o nome dessa ficção que António Oliveira Salazar quis impor aos portugueses e ao mundo, de um país além fronteiras e além mar que se media do Minho a Timor.

Exercício artístico e político é também Ocidente, peça de Victor Hugo Pontes a partir do texto do dramaturgo francês Rémi De Vos, que interroga o racismo, obliquamente, através do diálogo violento, belo e catártico de um casal em crise (estará em exibição no Liceu Camões).

Outro casal, mas de clowns, os L"Attraccion Céleste, reúne o público num círculo próximo e partilha a sua vida em Bobines, os muitos filmes da vida deles. São "memórias, testemunhos, imagens recolhidas ou fabricadas no local e em direto". E por fim, a criação e manipulação do mundo: Gentileza de um gigante, de Gustavo Ciríaco, uma performance "íntima e delicada" em que um homem e uma mulher criam e destroem mundos "em desastrosa, porém sublime, evolução". Ambos os espectáculos decorrem na Academia Militar e, como para quase todos os outros, é necessário levantar senha com uma hora de antecedência.

DESTAQUES DA PROGRAMAÇÃO

Sobre o Jardim do Campo Santana
Uma mulher há de atravessar o céu no Campo dos Mártires da Pátria, ao final da tarde deste sábado. A seus pés um arame suspenso entre o Jardim do Campo Santana e os telhados da Faculdade de Medicina de Lisboa, a estátua de Sousa Martins, o lago dos patos e 60 músicos das mais diversas proveniências que, com as suas guitarras elétricas e sob a batuta do músico Pedro Salvador, vão erguer um chão de som para ela. Traversée, da francesa Companhia Basinga, mostra pela primeira vez em Lisboa a espantosa arte de Tatiana Mosio-Bongonga, artista de circo e funambulista que anda na corda bamba desde os 7 anos de idade.
O jardim - que o arquiteto paisagista João Gomes da Silva ajudará a descobrir, numa visita guiada que se estende ao Torel - será também desenhado por nove intérpretes criadores que, a solo ou em dupla, o transformam num mundo nómada. Em Campos de Dança, bailarinos como André Cabral, Marta Cerqueira ou Bruno Senune traçam novas coordenadas ao som da cidade e com o público mesmo ao lado.


Os sons do mundo no bairro
Na Capela do Hospital dos Capuchos, a missa das cinco está quase a terminar. O padre José Cruz abençoa "todos os que andam à procura" e convida Madalena a subir ao púlpito para falar "da grande festa que se avizinha", o Festival TODOS, que há de passar por aquelas paredes repletas de azulejos. Aqui vão irromper os sons que os Violons Barbares, trio de violinos e percussão, vão colher à sua Bulgária, Mongólia e França natais, por exemplo. Victorino apresenta o programa, fala das muitas culturas que viajam pelo mundo fora e encontram o bom lugar em Lisboa - o lugar onde se criou a Orquestra Latinidade, onde os diferentes sotaques se misturam e influenciam e criam novas linguagens. Hão de ecoar no Jardim do Torel, onde se fará também ouvir outra voz do mundo, a voz e o pensamento de Walid Benselim - N3rdistan -, um dos porta-vozes da Primavera Árabe que pela primeira vez se apresenta em Portugal. A sua poesia, ancorada no aqui e agora, funde-se com o rap e veste-se com uma "fusão musical audaciosa e inédita".

A poesia da loucura no Miguel Bombarda
A música transborda para o Hospital Miguel Bombarda, que também descerra portões por ocasião do TODOS. Miguel Abreu, outro dos curadores do festival, encontrou-se com Dr.Tristeza/Bruta, um trabalho literário e musical de Ana Deus a partir da obra poética de Ângelo de Lima e, junto com Nuno Moura e Joana Bagulho (MiaSoave), inventaram um espectáculo que visita a obra de poetas atormentados, deprimidos ou loucos. "Ouvir poemas de Ângelo de Lima no Panóptico, sabendo que ele foi tratado pelo próprio Miguel Bombarda e que passou parte do seu longo internamento nestas celas (onde viria a morrer, em 1905) tem uma dimensão incrível, bem como ouvir ao vivo uma emissão da Rádio Aurora (do Hospital Júlio de Matos, ainda ativo)", diz Abreu. Mas está tudo louco? junta leituras de poemas de Lima, Mário de Sá-Carneiro, António Gancho ou Artaud, entre outros, e faz as palavras deles guiarem as nossas deambulações por sítios interditos. O concerto de Bruta - que o mesmo é dizer Ana Deus e Nicolas Tricot - será nas enfermarias do Bombarda, às 18.00, de sábado, e, a todos os títulos, imperdível.

Uma Colina inteira para visitar e conversar
Em 2015 o entusiasmo foi tanto que fez transbordar a lotação das visitas aos antigos conventos/hospitais da Colina de Santana. Nesta edição, o TODOS diversificou a oferta, foi mais longe nas linguagens e até descobriu um museu do azulejo secreto, escondido no Palácio Centeno (que Alexandre Pais revelará) ou à vista de todos na Capela do Hospital dos Capuchos. Além de visitas guiadas a estes e mais lugares por excelentíssimos investigadores - Célia Pilão e Vítor Albuquerque Freire, por exemplo - haverá conversas sobre passado, presente e futuro com os arquitetos convidados a imaginar novos cenários para o bairro (Estudos Arquitectónicos para a Colina de Santana 1 e 2, no Palácio Centeno e na Galeria Monumental), com o sociólogo Orlando Alves Garcia (Enredos na Colina, na Galeria Monumental) ou com o arqueólogo Carlos Boavida, que há de partilhar Histórias de uma Colina ao virar de cada esquina e depois mandar toda a gente passear, de mapa na mão. Atenção que as lotações são limitadas e as senhas distribuídas no local 1 hora antes do início do evento (como para grande parte dos espectáculos).


Abrir as portas ao mundo
No antigo Palácio do Patriarcado de Lisboa, sede desta edição do TODOS, Giacomo Scalisi, o outro vértice da tríade que todos os anos reinventa o festival, trabalha na montagem das exposições que vão habitar esta pedra preciosa da arquitetura do Campo Santana, encerrada há décadas e por uma vez aberta aos nossos olhos e passos, antes de se transformar em hotel ou coisa afim. No salão do primeiro andar, Retratos de Famílias de Luís Pavão revela casais do mundo que se encontraram em Lisboa, e os seus filhos, evidências de carne e osso da interculturalidade que o festival busca e almeja. Nos salões adjacentes, as fotografias de Rosa Reis e de Maurizio Agostinetto (co-curador) abrem janelas sobre o bairro e o próprio festival, enquanto O teatro quotidiano na China - fotografias de Paolo Longo, jornalista e fotógrafo que trocou Pequim por Lisboa - nos apresenta uma "viagem de coração" como se fosse um filme. As fotos de grande formato de Duarte Belo nos hospitais da Colina de Santana (Torel), os estudos arquitetónicos para os mesmos (Palácio Centeno) e o mural de Tamara Alves, Escape into life (antiga cerca do Hospital dos Capuchos) completam o núcleo expositivo.

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