Todo o mundo de Beatrix Potter finalmente em português

O primeiro tomo de Contos Completos será apresentado na quinta-feira: 150 anos depois do nascimento da autora e ilustradora

"Meu querido Noel, não sei o que te escrever, por isso vou contar-te uma história sobre quatro coelhinhos cujos nomes eram Florinda, Melinda, Rabinho-de-Algodão e Pedro. Viviam com a mãe num banco de areia, por baixo da raiz de um grande abeto." Foi ali, naquela carta de 4 de setembro de 1893, que Pedro Coelho (Peter Rabbit) nasceu das mãos e da cabeça de Beatrix Potter, que ali escrevia ao filho mais velho de Annie Carter, sua antiga precetora.

O primeiro tomo dos Contos Completos de Beatrix Potter será lançado na quinta-feira, dia em que se comemoram 150 anos do nascimento daquela que criou um mundo habitado por personagens - os ratinhos, os gatos (embora ela dissesse que não os sabia desenhar), os porquinhos e gansos - que atravessaram a infância de diferentes gerações de crianças, desde o início do século XX.

A certa altura, no filme Miss Potter (O Mundo Encantado de Beatrix Potter), de Chris Noonan, protagonizado por Renée Zellweger, Beatrix diz: "A minha cabeça está tão cheia de histórias..." Quatro tomos dessas histórias serão agora editados pela Pim!, chancela da Europress e da Ponto de Fuga, que nasce com esta publicação. Até ao natal, todos os meses - à exceção de agosto, mês de descanso para a tropa de animais de Potter - será publicado um volume. O primeiro será apresentado por Isabel Stilwell na quinta-feira às 18.30 no El Corte Inglés, em Lisboa.

Vladimiro Nunes, que com Carlos Vintém dirige a Pim!, tem memória de "umas edições pontuais da Verbo", mas reparou que "metade das histórias que compõem o cânone da Beatrix Potter não estão traduzidas para português" que Miss Potter em breve faria 150 anos. Ela, que estava "à frente do seu tempo" e que era "uma transgressora alinhada", afirma o editor sobre a independente mulher num tempo em que não era suposto que o fosse. Nasceu em 1866, em Londres, numa família da alta burguesia. Mas os seus heróis "não são tipicamente vitorianos: o Pedro é um herói trapalhão", classifica Nunes. O Pedro, que à revelia da sua mãe consegue escapulir-se para a horta do senhor Gregório e surripiar-lhe os legumes, foi apresentado em 1900 no livro A História do Pedro Coelho (The Tale of Peter Rabbit)e rejeitado por seis editores.

Apareceria no ano seguinte numa edição de autor. Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Homes, comprou um dos raros exemplares. O êxito que se seguiu - vendeu até hoje 45 milhões de exemplares e está traduzido em 36 línguas - é o que faz com que hoje possamos perguntar a quase qualquer grupo etário: "Lembram-se do Peter Rabbit?" E lembram-se, seja através dos livros ou da série da BBC, com desenhos animados, que a televisão portuguesa transmitiu, The World of Peter Rabbit and Friends. Agora, o Canal Panda também transmite uma nova versão: A História do Pedrito Coelho.

"Reza uma lenda muito antiga que, entre a noite da véspera de Natal e a manhã do dia de Natal, todos os animais falam (embora muito poucas pessoas consigam ouvi-los ou perceber o que eles dizem)", escreveu ela n"O Alfaiate Velhote. Potter, que morreu em 1943, fazia parte desse raro escol que os escutava, e mais vezes do que no Natal. Ela, que cedo aprendeu Pintura e História Natural, que se dedicou ao estudo e à conservação da natureza, e que só casou aos 47 anos, deixou-nos 24 histórias ilustradas desse mundo que só ela via, ouvia, e a que dava forma. Todos serão agora publicados em português, à exceção do último, O Gato das Botas, texto de 1914 que Potter abandonou e que, descoberto em 2013, só será publicado pela Penguin Random House em setembro, com ilustrações de Quentin Clarke.

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