Sungas e protetor solar. Vamos Encontrar o Sol com Rita Cruz

Oito pessoas encontram-se na praia e as conversas começam por ser leves. Mas neste espetáculo, encenado por Ricardo Neves-Neves, por trás dos sorrisos há tragédias pessoais

Há um momento em Encontrar o Sol em que Abigail se isola e começa a cantar Break It to Me Gently, de Brenda Lee. É uma canção de coração partido. Está um lindo dia de sol, a praia enche-se logo de manhã, gente estendida nas espreguiçadeiras, chinelos coloridos, páreos e sungas, risos de felicidade, ouvem--se as gaivotas e as ondas do mar, cheira a protetor solar. Abigail tem um fato de banho vermelho-vivo que realça a pele morena, é linda mas tem o coração partido. Está um lindo dia de sol mas ela está triste.

Abigail é Rita Cruz, a atriz que no ano passado deu nas vistas em A Noite da Dona Luciana, de Copi, pelo Teatro do Elétrico. O espetáculo está nomeado para melhor do ano 2016 nos prémios da SPA - Sociedade Portuguesa de Atores e Rita Cruz é uma das três nomeadas na categoria de melhor atriz de teatro. "A "Dona Luciana" foi um daqueles bombons que aparecem. Deu-me imenso gozo", diz Rita Cruz ao DN. "Aquilo era tão divertido e ao mesmo tempo tão rigoroso, divertia-me mas não podia perder o foco."

Ao mesmo tempo que fazia a Dona Luciana era a doutora Yara na telenovela A Impostora e depois entrou em O Elegante Terrorista, no Teatro da Comuna. E no ano passado também ganhou coragem para escrever e encenar a sua primeira peça, o monólogo Mãe com Açúcar. "Escrever é mesmo algo íntimo, é outra exposição. Mesmo que fales de outras coisas, estás sempre a falar de ti." Ela gostou da experiência e ficou com vontade de voltar a encenar em breve e de voltar a escrever, "daqui a uns tempos".

Rita tem 37 anos e diz que desde sempre que quer ser atriz. "Quando se é ator é-se ator, não sei explicar muito bem. É uma necessidade desta busca da emoção, de usarmo-nos para falar do outro."

É atriz sem hesitações, mesmo que tenha estudado Reabilitação Social e tenha gostado do pouco trabalho que fez nessa área. Mesmo que agora seja também vocalista de uma banda, Rita & Revólver, ao lado de Rui Alves (bateria), Tiago Santos (guitarra), José Moz Carrapa (baixo), João Cardoso (teclas) e Bruno Mimoso (percussão). "Nunca levei isto de cantar muito a sério, mas fiz musicais e cantei em muitos dos espetáculos, por isso acabou por ser quase natural", conta. Estar em palco a cantar "é uma adrenalina e uma felicidade que não se sente no teatro, são coisas completamente diferentes. E a comunicação com o público quando corre bem é uma coisa de alma, de comunhão, é místico". O grupo está a preparar o seu primeiro EP que deve sair ainda este ano.

Rita Cruz tem muitas ideias e muitos projetos, mas volta sempre a casa, ao Teatro do Elétrico, que fundou com Ricardo Neves-Neves, há oito anos. Foi ele que encenou A Noite da Dona Luciana e que encena agora este Encontrar o Sol, de Edward Albee, que hoje se estreia no Teatro São Luiz, em Lisboa. Mas os registos são muito diferentes: em vez da espiral de loucura de Copi, aqui deparamo-nos com um humor negro. "O Albee põe-nos a rir de coisas horríveis", admite a atriz. "É uma outra gaveta do humor."

Uma peça sobre a solidão

"Aquilo que me interessa neste texto tem que ver com uma aparente superficialidade", explica o encenador. Oito pessoas encontram-se na praia e as conversas começam por ser muito leves, como geralmente acontece quando estamos na praia. Mas depois começamos a perceber que por trás dos sorrisos há tragédias pessoais. E solidão - que na perspetiva de Neves-Neves é o tema central do espetáculo. "Gosto muito desta estrutura de edifício a cair."

"É uma peça onde aparentemente não acontece nada. Isso ao início foi muito perturbador. Mas fez-me perceber que a riqueza da peça é precisamente isso, é a riqueza das personagens, é tentar perceber o passado e projetar o futuro." É o que aquelas personagens estão ali a fazer, a tentar perceber como é que chegaram àquela cadeira de praia, e como vão continuar a viver quando o sol se esconder e tiverem de voltar a meter as toalhas dentro dos sacos. As respostas, claro, ficam por dar.

"Parece que não está a acontecer nada mas em meia frase aquilo vai ao fundo, como na nossa vida também acontece, as coisas podem mudar num estalar de dedos e nós não estamos preparados. O espetáculo também é sobre isso." O texto foi escrito em 1983 - depois da libertação sexual dos anos 60 e 70, nos anos 80 rebentou a sida, lembra Neves-Neves. "Se eu o encenasse nessa altura seria muito diferente", admite. Em 2017, a questão da homossexualidade já não é uma questão. "Eu vejo aqui uma incompatibilidade entre pessoas, mais do que uma incompatibilidade entre sexos. Existe sempre a possibilidade da infelicidade e morrermos sozinhos."

Luís Gaspar e Tânia Alves, Custódia Gallego e Tadeu Faustino, Cucha Carvalheiro e Marques d" Arede, Romeu Costa e Rita Cruz são as quatro duplas de banhistas em cena, vestidos com figurinos de José António Tenente. "Não é por acaso que a ação se passa na praia", sublinha Ricardo Neves-Neves. Claro que a praia está ligada ao ciclo da vida - do sol, das marés - mas a praia mata. "O sol mata, há muitas pessoas que morrem no mar. E isso não faz parte do nosso imaginário, ninguém tem medo de ir à praia. A ideia que nós temos da praia é mentira, assim como as relações destas pessoas são mentira." Está um lindo dia de sol mas Abigail está triste. Senta-se num rochedo e canta Break It to Me Gently.


Encontrar o sol

De Edward Albee

Encenação de Ricardo Neves-Neves Teatro Municipal São Luiz, Lisboa

Até 25 de fevereiro; quarta a sábado às 21.00; domingo às 17.30

Bilhetes entre os 12 e os 14 euros

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