Slow J: "O próprio hip-hop já não se valoriza"

Para o rapper português, Lamar é um artista que tem "alargado os limites" do hip-hop.

Que significado tem, para um músico de rap, esta vitória de Kendrick Lamar?

É muito importante, embora por vezes o público acabe por valorizar mais estas distinções que os próprios músicos. Mas trata-se de um prémio Pulitzer, que nunca antes tinha sido atribuído a um artista fora da música clássica ou do jazz! Só isso já torna este momento em algo de histórico para a cultura hip-hop. Creio que este júri mostrou estar muito à frente do seu tempo, porque acaba por validar os parâmetros do próprio rap, o que é realmente muito interessante.

Existe uma baliza para o rap? Como é que define esses limites, por exemplo, na sua música, também ela muito abrangente, em termos estilísticos?

Lá está, mais uma vez, é normalmente o público quem acaba por validar isso tudo. Na minha música, por exemplo, o sentimento não vem daí. A música é comunicação, tem mais a ver com o que cada um sente ao ouvi-la e não tanto em querer tentar explicá-la. Quanto alguém, num concerto, repara só numa guitarra ou na qualidade da voz, isso é uma oportunidade perdida para se passar uma mensagem. Para mim, a melhor música é mais baseada no instinto e não tanto na técnica.

E é esse o caso de Kendrick Lamar?

Sem dúvida. E fiquei muito contente por ter sido atribuído a ele. Por ser alguém tão verdadeiro e honesto na forma como escreve, que mesmo quando faz música para colocar as multidões aos saltos, nunca compromete essa vertente mais pessoal.

Mas nem assim venceu o tão desejado Grammy...

Pois não, perdeu para o Bruno Mars. Tal como agora também está a perder nas vendas para rappers como o Drake. Por isso é que este prémio é tão importante. É interessante ver que foi necessário vir uma instituição com o Pulitzer para valorizar esses aspetos, que o próprio hip-hop tem vindo a esquecer.

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