Ser espectador neste teatro é construí-lo, caminhando

"Modos de ver: Sintra" é a nova criação do teatromosca e estreia hoje. Aviso: inclui três horas de passeio e uns auscultadores

O que pensará quem, ao passear por Sintra, chegar à Fonte da Sabuga e, ao lado de quem estaciona o carro e sai para encher de água dezenas de garrafões, vir um grupo de pessoas de auscultadores iguais e um mp3 pendurado ao pescoço? Sentados ou em pé, quietos ou a desenhar e escrever num caderno, parecem alheados de tudo, logo antes de se juntarem num círculo. Não é um ritual iniciático.

Todos têm uma voz que lhes fala ao ouvido. Provavelmente, nenhum deles está a ouvir o mesmo que os outros. Estão a cumprir instruções e, se alguém se cruzasse com eles nessa fonte, assistiria apenas a uma parte de um percurso que atravessa Sintra: da Igreja de São Martinho à Rua das Padarias, da casa onde Hans Christian Andersen fez a sua estada à Casa do Cipreste, de Raul Lino, até à serra.

São espectadores e simultaneamente personagens e construtores da nova criação do teatromosca, Modos de Ver: Sintra. Começa hoje às 19.00, e assim será todas as sextas e sábados até ao final de agosto. Prepare-se: são mais de três horas. Leve roupa e calçado apropriados. Prepare-se para cumprir ordens e obedecer àquela voz que, logo de início, nos avisa: "Não te afastes. Se te afastaste, regressa agora." E depois: "Não adianta passares as faixas [do mp3] para a frente."

É possível, se não provável, que chegue ao final do percurso com uma mão-cheia de vozes, histórias, lugares, e nenhum deles em concreto. Vai ouvir histórias contadas por pessoas de Sintra, vai passar pelo Hasan, dono de uma pequena mercearia, no topo da Rua das Padarias, que, inicialmente, pensava que a equipa do teatromosca era do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), e hoje pensa que eles estão apenas a rodar um filme, conta Pedro Alves, da companhia.

Dependendo do mp3 que lhe for atribuído - há 30 percursos auditivos diferentes -, ouvirá diferentes histórias. Pode ouvir as cartas trocadas pelo Carlos, que foi para a guerra, embora dela nunca se fale, com a sua mulher Dulce. Dentro do caderno, com um mapa, que lhe será dado, encontra algumas cartas e fotografias antigas. De onde vêm? Depende. "Há três hipóteses: A primeira é que encontrámos os materiais todos por acaso, o que não é de todo mentira; na segunda omitimos a aquisição e dizemos que foram dados por uma senhora, o que tem parte de verdade, porque encontrámos duas malas e uma senhora que nos contou a sua história, como veio para Sintra...; a terceira destrói isso tudo", conta ao DN Pedro Alves do teatromosca. O projeto está a ser pensado desde 2011. Resulta numa espécie de "mosaico": "Estávamos cientes de que íamos construir uma narrativa rizomática, com muitos percursos, narrativos e no terreno."

Para o ano, estarão em Orleães, França, com o mesmo projeto. Uma diferença: não trabalharão a sua cidade natal, como acontece em Sintra, capital do Romantismo. Por isso mesmo, diz Pedro, um dos oito criadores de Modos de ver: Sintra, "ao trabalharmos num lugar inóspito para a nossa memória, onde temos menos referências, poderá ser uma boa ignição para partirmos para outros caminhos". E com isto se diz que a peça, que tem o áudio como "elemento dramatúrgico", é tanto uma descoberta de Sintra como uma redescoberta para quem lhe conhece os cantos.

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