Sátira, política e humor no corpo e na voz de Maria Rueff

Num regresso às raízes do stand-up, Maria Rueff, Sofia de Portugal e João Araújo levam o público para a Berlim dos anos 30

Pratos, talheres, copos. Tudo a postos no café-concerto do Teatro Municipal Joaquim Benite que por estes dias se transforma em cabaré. Regresso à Berlim dos anos 30, onde Maria Rueff surge de saltos altos e sapatos brilhantes. Mais glamorosa, e, na quarta-feira, quando o DN assiste ao ensaio, um pouco engripada. "Há uma coisa que se chama adrenalina e que transforma a febre na febre da estreia, durante esse tempo, não se sente nada. Mais uns Ben-u-rons que também ajudam!", diz, no habitual sorriso.

Mais à frente, falaremos de esperança e otimismo quando pensa no que deposita no coração do público. "Aqui as pessoas estão muito próximas, olhos nos olhos, é um regresso às raízes, tem muito que ver com a minha escola de comediante, são as raízes do stand-up, é um ambiente muito carinhoso para mim." Foi, aliás, num café-concerto que Herman José a descobriu. E os olhos brilham. Mas, para já, o prazer de ser cabaretista de novo em Cabaret Alemão. "É mesmo essa a palavra, cabaretista, é o que sou aqui."

Trump, lua e emojis

Dois anos após a estreia no Teatro do Bairro pela mão do encenador António Pires, agora é a vez de o espetáculo atravessar o rio e apresentar-se em Almada. Por estes dias, já não se fala de troika mas de Trump, reinam os emojis e o whatsapp e a dramaturga Luísa Costa Gomes não deixou nada de fora. Até a Superlua é chamada ao barulho por Maria Rueff, no conforto do seu improviso inato. "Usamos muito o "peixe do dia" como costumamos dizer em comédia, se acontece algo, o que for, entra no texto. E o que tem acontecido ultimamente..."

A ironia e o sarcasmo na carga máxima mas sem largar o tom sério, apreensivo e combativo. Já antes, o encenador António Pires tinha referido que este é um espetáculo de "carácter político", assumidamente, e que Maria Rueff é tudo menos apenas espectadora. "Na vida e no palco." Rueff sustenta.

"Esta peça foi feita há dois anos, em plena troika, na altura em que não havia humor nas televisões, estávamos num período muito negro, saiu-me mesmo das entranhas. E o texto teve de ser alterado, muita coisa mudou. A própria Merkel perdeu protagonismo a nível mundial e agora esta coisa tenebrosa da eleição do Trump foi repescada porque, infelizmente, volta a estar tudo na ordem do dia, é algo que nos vai influenciar a todos!", justifica a atriz.

Mas não só política e economia estarão em cima da mesa, também o amor e as relações, o quotidiano das pessoas. "As relações mudaram, estão diferentes, vive-se muito em correria, e questionamos o tipo de amor, as amizades, o não ter tempo para nada, viver sabe-se lá para onde e para quê, esta é, sem dúvida, uma peça universal." E a tal esperança? "Quero acreditar que as coisas estão melhores. Enquanto a pessoa se vai rindo, vai refletindo, eu assumo-me como humanista, preocupa-me a questão da igualdade, da justiça do homem para com o homem, a condição feminina, ainda há muitas diferenças entre a lei e o que é real, sobretudo, a mulher com carreira e filhos e o homem com carreira e filhos. E isto agora na América tapou-nos um pouco o sol. Fiquei assustada, sou mãe e sou retornada, é algo que me toca profundamente, vivi na pele o racismo e este discurso machista e xenófobo tem uma proporção esmagadora", diz a atriz.

Tudo isto vai para cima de palco, assegura Rueff. Também Sofia de Portugal, amiga e colega dos bancos de Conservatório, destaca a intemporalidade do texto. "É muito interessante perceber que tudo o que se dizia há tantas décadas volta a estar hoje na ordem do dia!"

Último ensaio. Em minutos, a equipa vai assumindo posições. Ao piano, Pedro Sotiry, e no acordeão e pesquisa musical Mário Vieira de Carvalho. "A música é lindíssima, vai ver!", adverte Rueff. O encenador avisa que está a entrar luz. "É preciso fechar bem a cortina." Sofia de Portugal ajusta o micro por cima da perna, já de meias de liga e faz exercícios para aquecer a voz. Maria Rueff vem de mão dada com o colega João Araújo. "Estão ligados os emissores?" Apagam-se as luzes. Dá um jeito aos botões das calças. "Passou a crise, a pessoa engorda logo!" Gargalhada geral. Num flash, vem à memória a mítica Idália e o taxista Zé Manel, personagens eternizados pelo camaleão Rueff, que num segundo acompanha o dedilhar das notas de Pedro e entoa em alemão "Allein in einer grossen Stadt". Agora, é Marlene Dietrich no Teatro Municipal Joaquim Benite em Almada.

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