Sair da praia e dar de caras com a destruição na Síria

A exposição com fotografias de Kai Wiedenhöfer está no paredão de Cascais.

Está um domingo de sol que pede calções e manga curta em pleno novembro. Nas praias de Cascais ao Estoril, o sol também pede fato-de-banho e chinelos. E banhos de mar. No paredão, há quem corra, quem pedale e quem passeie. E todos parecem surpreender-se com as enormes fotografias que estão colocadas na parede e que mostram cidades destruídas, crianças mutiladas, mulheres feridas, cenários de guerra. Ali, os passos abrandam. Os sorrisos desaparecem. Franzem-se os olhos para ver melhor. "O que é isto?" Isto é a exposição WAR on WALL: the Struggle in Syria, que o fotógrafo alemão Kai Wiedenhöfer inaugurou hoje, integrada na programação do Lisbon and Estoril Film Festival.

Esta é a segunda vez Kai Wiedenhöfer, de 49 anos, participa no festival. Em 2011 trouxe a exposição Gaza 2010 com uma série de imagens que captavam a situação dramática que se vivia (e vive) na Faixa de Gaza e que lhe valeram dois dos prémios do World Press Photo, em 2002 e 2004. Nessa altura, a par da sua carreira como fotojornalista, Wiedenhöfer andava a trabalhar num projeto sobre muros que tem origem na queda do Muro de Berlim - acontecimento que ele fotografou em 1989 - e a que chamou Wall on Wall. Fotografou muitos muros diferentes, todos com grande significado político ou social, entre os quais o muro que separa Israel e a Palestina.

A primeira vez que esteve a trabalhar na Síria foi entre 1991 e 1993. "Voltei mais uma vezes para fotografar para revistas em 2012 e 2013. Nessa altura ainda consegui fotografar na Síria mas tornou-se muito perigoso", explica. "Então, tive que pensar como poderia abordar a guerra sem entrar na Síria ou fazendo-o de uma forma segura. E foi por isso que escolhi fotografar estas pessoas que estão feridas e que estão fora da fronteira. Também trabalhei em Kobani, que é um território seguro."

O fotógrafo acompanhou a evolução dos conflitos na Síria e ficou impressionado com o modo como um país pôde ficar tão destruído em apenas uma dezena de anos, sem que a comunidade internacional parecesse interessar-se: "A crise dos refugiados tornou o conflito na Síria mais visível e, finalmente, parece que as pessoas começam a falar disso, porque se tornou inevitável, entrou na vida delas. Antes disso, já havia guerra e pessoas feridas e refugiados e ninguém queria saber, porque não chegavam à Europa. Houve aquela fotografia da criança morta no mar na Grécia que comoveu o mundo, mas todos os dias morrem dezenas de crianças e morrem de formas ainda mais violentas, mas ninguém quer saber. É longe."

Kai Wiedenhöfer considera que os europeus vivem numa espécie de "país das maravilhas" e nem se apercebem disso: "Os meus pais viveram uma guerras, os meus avós, os meus bisavós também. Nós temos muita sorte porque nos últimos 70 anos a Europa tem estado, de maneira geral, em paz. Mas esta é uma situação privilegiada." É importante que olhemos para além do nosso umbigo, diz o fotógrafo, que vê esta exposição como um "ato político", uma chamada de atenção: "A população civil está em sofrimento. E, mais cedo ou mais tarde, a União Europeia ou a Nato ou a comunidade internacional vão ter que intervir no conflito. Será melhor que seja mais cedo do que mais tarde. Se as coisas tivessem sido feitas imediatamente, todas estas pessoas estariam bem ou, pelo menos, a situação não seria tão dramática."

As fotografias que tirou na Síria estão agora reunidas, pela primeira vez, nesta exposição. "Esta exposição não tem nada a ver com o outro projeto dos muros", deixa claro. No entanto, como fazia questão de as apresentar em grande formato e num espaço público (não um muro mas uma parede) decidiu chamar ao projeto War on Wall, até porque a palavra "Wall" acaba por funcionar como uma "marca" sua. E explica:

"Com imagens tão grandes é possível ver todos os pormenores. E têm mais impacto do que numa página de revista. E também prefiro mostrá-las num espaço público em vez de num museu, porque ao museu vão as pessoas que querem ir ao museu e tambem as pessoas de uma determinada classe, que têm dinheiro para ir ao museu. E aqui, num sítio como este [o Paredão de Cascais], posso mostrar estas imagens às pessoas que não as querem ver. Estou a forçar as pessoas a ver estas imagens. Elas podem passar por aqui e quase não olhar, podem parar e começar a ler os textos. Mas não podem ignorar totalmente."

Está um sol tremendo quando, por volta do meio-dia, Kai Wiedenhöfer explica a alguns convidados o seu projeto. Trocam-se agradecimentos. O produtor Paulo Branco, diretor do Lisbon and Estoril Film Festival, garante que até ao final da semana os textos que estão na parede em inglês vão estar também em português. O realizador Wim Wenders aparece, também ele a fotografar. O presidente da Câmara de Cascais felicita o artista. E as pessoas que saem da praia, com areia nos pés, interrogam-se "o que é isto?", sinal de que o projeto está a cumprir os seus objetivos.

As fotografias vão ficar no paredão de Cascais até 15 de novembro e depois seguem o seu caminho, noutras paredes. No proximo ano, em princípio, serão expostas no Muro de Berlim. Mas para Kai Wiedenhöfer o trabalho sobre a Síria ainda não está completo: "Ainda quero voltar. Não para fazer retratos para fotografar mais a destruição da Síria. Vamos ver se consigo o visto para entrar."

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG