Sacos de papelinhos e ovos estrelados com açúcar

Criar hábitos de leitura numa ilha que os perdeu: a 12ª edição do festival literário Outono Vivo termina amanhã na Praia da Vitória. Há uma semana, falou-se do método criativo com cinco escritores.

Eis que pouco mais de 24 horas depois de se instalarem na praia da Vitória, os escritores se sentam em cinco cadeiras dispostas numa discretíssima meia lua perante uma plateia de leitores curiosos, à boleia do festival literário Outono Vivo, que amanhã termina. Depois do espadarte ou do atum, ambos grelhados, ou do bacalhau, imensa posta, também da paelha de arroz e legumes para a ilustradora vegan (ao jantar de sexta feira), ou da alcatra de carne, a feijoada assada no forno e um séquito de pequenos tachinhos de barro a competir com os pratos principais, ao almoço do dia seguinte e (respire-se fundo) variados petiscos de outro chef, que arrancaram, na maior parte dos casos com creme de lapas, num mais corrido jantar, pouco antes de ali se sentarem, no sábado. Ei-los que falam sobre o seu processo criativo. E se à mesa houve cumplicidades, ali não houve dois autores iguais.

Júlio Magalhães, Rui Cardoso Martins, Isabela Figueiredo, Catarina Sobral e Hugo Gonçalves estão num pequeno palco, com o cenário de uma biblioteca atrás. Em frente há mesas redondas e cadeiras e serviço de bar - praticamente em suspenso durante as mais de duas horas de conversa. No meio (possível) dos cinco senta-se Joel Neto, escritor residente na ilha Terceira, Açores, e que há quatro anos é cicerone de um grupo de autores que participam naquele festival literário.

"Isto é um serviço cívico que eu faço à comunidade da Terceira. Foi-me pedido que desse uma ajuda no sentido de se trazer cá alguns autores e ajudar a desmistificar quem está por trás do livro. Esta foi uma ilha onde se leu muito no passado mas que nas últimas décadas foi perdendo índices de leitura significativamente e havia esta intenção da Câmara Municipal da Praia da Vitória, também em homenagem ao [Vitorino] Nemésio, o seu mais emblemático filho, de transformar a Praia numa referência para o universo dos livros nos Açores", explica Joel. A generosidade gastronómica (e paisagística) explica-se pela vontade de mostrar a Terceira aos autores nacionais. "Estão a comer bem e a descansar, não estão preocupados a colecionar histórias. Agora está ali a Isabela a conversar tranquilamente com um leitor e isso também é o reflexo que um estado açoriano que estas pessoas vão assimilando", diria durante a sessão de autógrafos de domingo à tarde.

Mas estamos no sábado, ainda. Escutemos os (outros) escritores sentados na tal biblioteca encenada, ao lado da sala onde decorre a feira do livro. Respondem ao repto do terceirense (também ele em pleno processo de criação de um livro, que tem um foco na Horta na Segunda Guerra Mundial - "estou no olho do furacão da angústia"), que "passou o ano" com o filme 20 000 Days on Earth (20 000 Dias na Terra), sobre Nick Cave, na cabeça. Em particular num depoimento revelador do seu método criativo. Com o fito de que "os métodos de trabalho são chaves para entender os livros", lança a conversa com a ilustradora Catarina Sobral.

"Normalmente nasce primeiro o texto", diz Catarina. Depois o desenho. Depois é "ir sacudindo", e há sempre uma contaminação entre imagem e texto. Mais à frente, aquela que em 2014 foi considerada a melhor ilustradora para a infância com menos de 35 anos (tinha 29) na Feira do Livro Infantil de Bolonha com o livro O Meu Avô, admitiria que precisa de organização à sua volta, casa arrumada, cama feita, loiça lavada: "não tenho condições para me concentrar se não estiver na minha concha". Já Isabela Figueiredo recolhe fora do seu ninho a matéria prima das histórias que a seguir conta: "escrevo de uma forma diarística no café, sobre um filme por exemplo, e esses apontamentos são muito importantes para aquilo que eu vou escrever". A autora de A Gorda (Caminho, 2016), romance que acaba de ser distinguido com o prémio Literário Urbano Tavares Rodrigues, revela que está atualmente a escrever "a partir de um sonho". O conto que fez para o mais recente número da revista Granta, saiu dos dias dela. De como descobriu floreiras clandestinas no seu bairro e resolveu semeá-las. "Pus sementes, ficou bonito e as pessoas começaram a roubar as flores. E assim nasceu a Beleza Infinita. Pediram-me um conto sobre revoluções e eu fiz a revolução na minha rua." Isabela é professora de português e só escreve romances no verão, nas férias escolares. "Preciso de me dedicar inteiramente àquele pensamento, àquela história".

Júlio Magalhães, jornalista mas ali como escritor - e enjeitando o epíteto lançado por Joel Neto, apesar dos cinco romances publicados, alguns deles best sellers - surpreendeu a plateia com a sua memória de elefante. "Não aponto nada". E o nada são horas de conversas com pessoas que viveram as histórias que Júlio se propôs contar - ele que só relata histórias que ele ou alguém conhecido tenham vivido. Um dos momentos mais divertidos da conversa no Outono Vivo dá-se quando conta como não conseguia começar a escrever as histórias que tinha na cabeça, já passara todos os prazos e disse à editora que não ia escrever o livro. "Até que ela me respondeu que tinha de escrever porque o livro já tinha capa". Depois já tinha as histórias mas faltava a ligação entre elas. E essa surgiu no final de um telejornal (então da TVI) em que passava uma peça sobre uma feira gastronómica e apareceram ovos estrelados. "Eu disse para um dos câmaras "agora iam tão bem uns ovos estrelados com açúcar" e os câmaras estranharam, fizeram a cara que os empregados fazem nos restaurantes quando peço dois pacotes de açúcar para pôr nos ovos estrelados. Pensei, aqui está o link que falta para o meu livro. Acabei o jornal, fui para o computador e fiquei a escrever até às 6 da manhã. Assim começou o livro dos retornados [Os Retornados, um Amor que nunca se Esquece (Esfera dos Livros, 2009)]".Tal como os protagonistas da história, também Júlio tem ligações fortes a África. Nos anos seguintes escreveu cinco livros, "todos com o mesmo método".

O senhor de serviço ao bar estava imóvel e assim permaneceu quando Hugo Gonçalves, escritor, argumentista (assina o guião de País Irmão, atualmente em exibição na RTP1) levou a audiência até sua casa, as águas furtadas onde escreve e vive. "O escritor tem uma vida mundana. Lava a loiça, vai às compras, paga as contas no multibanco mas nunca sai do livro. É uma espécie de comboio expresso que não tem paragens".

Mas a mesa redonda teria paragem, após a intervenção de Rui Cardoso Martins e a ronda de perguntas do público. O escritor, cronista, jornalista, que escreveu para humor, cinema e teatro - lembrou Joel Neto na apresentação - diz que tem "uma memória muito estranha" que influencia o seu trabalho. "O meu método de trabalho tem a ver com colecionar papelinhos que deito num saco que mais parece um caixote do lixo, são pequenas frases que vão dar origem a muitas coisas", contou (também escreve na última Granta, Salada Russa). "Vou pondo frases, palavras, em caderninhos, que ficam à espera que eu abra aquele bolo estragado". Neste processo, o tempo é essencial: "não faço livros com prazos, são livros quando estão prontos".

A jornalista viajou a convite da Câmara Municipal da Praia da Vitória

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