Ricardo Araújo Pereira: "O humorista não consegue controlar o efeito do humor"

RAP acaba de lançar Reaccionário com dois Cês, um livro que junta crónicas dos últimos 5 anos, organizadas pela sua editora. Ontem no Folio deu autógrafos e esteve à conversa com Gregório Duvivier. E com o DN.

Falaram de tanta coisa na conversa em palco e quase nada do seu livro, Reaccionário com dois Cês. Para já o título...

Achei que era mais apropriado isto ser sobre o Gregório, as pessoas não tem tantas oportunidades de o ver, de mim já estão fartas... Mas, sobre o livro, nós já não editávamos compilações de crónicas há muitas anos e foi a editora [Bárbara Bulhosa] que pegou nos últimos cinco anos, selecionou e organizou, e, nesse sentido, o livro é muito mais interessante do que só a compilação das crónicas anteriores que não tinham organização nenhuma. Ela escolheu temas sobre os quais eu me costumo ocupar com algum entusiasmo, que são Portugal e ser português e questões da linguagem e problemas da língua e o poder do humor a liberdade de expressão e organizou-os num volume e isso dá-lhe uma coerência que os outros anteriores não tinham. Ah, e ela disse: eu queria que o título tivesse qualquer coisa de reacionário, porque sou reacionário sobre brunch, na utilização adjetivo brutal. Ela disse que queria que a palavra reacionário estivesse no título e eu acrescentei "com dois cês" que é sobre o meu reacionarismo ao acordo ortográfico.

A edição do Folio é sobre revolução e algum material censurado que se pode ver na Casa da Tinta da China [da coleção Ephemera] é humor. Se o humor é suficientemente importante para ser censurado, ele é suficientemente importante para fazer a revolução?

Há uma frase do Orwell que eu cito neste livro, "uma piada é uma minúscula revolução". É importante não perder de vista a palavra minúscula, é uma revolução, mas não deixa de ser minúscula. As pessoas em geral têm uma ideia do humor que não corresponde à realidade. O humor terá algum poder. O humorista não consegue controlá-lo. Ficou claro para toda a gente quando nas últimas eleições americanas quando o candidato mais violentamente satirizado da história da sátira política, ganhou. A minha sensação é a seguinte. Há um texto aí do professor Rui Ramos. Ele escreveu um texto no Observador por que raio todos os humoristas são de esquerda, acho a conversa interessante, alguns argumentos dele não fazem sentido e tratei de discuti-los, mas há uma coisa interessante no texto dele - ele nunca usa a palavra piada. Estou a usá-lo a ele como exemplo, mas vale para outros. A discussão é dominada pelas pessoas que estão mais interessadas na política do que na sátira. O que é bizarro porque política é adjetivo e sátira é substantivo. Não interessa se tem graça. Interessa onde é que o autor se posiciona, que efeito político vai ter. Ao longo da minha vida, tive várias observações desse género. Quando foi o referendo sobre o aborto [um sktech a partir das declarações do professor Marcelo], o cartaz do Marquês de Pombal [ao lado de outro de outro da extrema-direita], em vários momentos me diziam que era preciso fazer ao contrário para equilibrar. Fiz o sketch sobre o professor Marcelo por uma única razão, porque achámos que tinha graça, essa parece-me que é a maneira indicada de estar na profissão que eu tenho, que é fazer as coisas porque a gente acha que tem graça. Não negando que as faço do meu ponto de vista. As pessoas todas sabem que eu sou de esquerda, do Benfica, ateu... mas são duas coisas diferentes. Eu não faço uma piada para ter um efeito político.

Mas está provado que sim.

Eu não diria que está provado. A seguir ao sketch do Marcelo, Miguel Sousa Tavares escreveu no Expresso que aquele sketch teve um efeito neste referendo. É uma impressão que ele tem.

Eu tenho uma certa repugnância por estratégias de controlo do pensamento mesmo quando as pessoas que o propõem pensam mais ou menos como eu

Tem o efeito de pôr as pessoas a pensar.

Mas normalmente não é esse o efeito de que se fala. Nessa altura o país estava dividido ao meio, de uma forma bastante intensa. Muitas críticas das pessoas do lado do não é que tinha desequilibrado o barco para o lado do não. Agora tinha de criticar o lado do sim. Tem um efeito, eu não sou ingénuo ao ponto de achar que não terá efeito nenhum, mas a questão é: eu não faço a pensar nesse efeito e eu não sei qual é a dimensão desse efeito e eu não o controlo. Imagine que as pessoas tinham dito: o professor Marcelo tem uma posição tão sensata sobre o aborto e agora vem este palerma... Podia ter gerado a reação oposta. Quando pusemos o cartaz no Marquês de Pombal, uma aluna negra na universidade levantou o braço e perguntou: 'qual foi a vossa intenção? Criticar o cartaz ou chamar mais a atenção para ele?' Houve um murmúrio na sala, como quem diz, é óbvio. A intenção era óbvio, mas o efeito não é óbvio. O efeito de pormos o nosso cartaz ao lado do dos nazis foi o que ela sugere na segunda hipótese. Nunca se falou tanto do cartaz dos nazis como a partir do momento em que a gente colocou o cartaz, deu uma visibilidade que eles não teriam. Nessa altura, o nosso cartaz estava impecável e o deles todo pichado, cheio de tintas. Quase dá vontade de dizer "coitados dos nazis". Isso relaciona-se mais uma vez com a questão de não excluir o discurso dos nazis, fazer pouco do discurso dos nazis, essa é a minha via. Quando uns nazis põem um cartaz, a minha via nunca é proibi-lo, é pôr um cartaz ao lado a fazer pouco deles. A um discurso mau responde-se com outro discurso. Ao discurso do adversário, respondemos com o nosso discurso. Acho que é sempre mais eficaz e democrático.

Uma dos assuntos a que está mais atento é a ditadura do politicamente correto, que é o que acontece quando pedem que a piada seja mais equilibrada.

Pois era. Só que eu estava habituado a esse pedido de contrabalanço e vontade de limitar o espectro do humor vindo da direita religiosa, mas há fanáticos em todo o lado. Para já, e importante definir o politicamente correto. Se me perguntar se eu sou contra eu diria que depende do que entendemos por politicamente correto. É um conceito muito escorregadio. Muita gente na sociedade portuguesa pronuncia-se sobre ele, a favor e contra, sem o definir primeiro. O politicamente correto, como eu o entendo, é uma estratégia de controlo da linguagem e por isso de controlo do pensamento que parte do princípio segundo o qual certos grupos de pessoas são demasiado frágeis para serem confrontados com certas palavras ou ideias. Eu tenho uma certa repugnância por estratégias de controlo do pensamento mesmo quando as pessoas que o propõem pensam mais ou menos como eu. Essa é uma das questões aflitivas deste assunto. Eu concordo em quase tudo com as pessoas que costumam aparecer a dizer que o politicamente correto é desejável, tenho muitas afinidades ideológicas, simpatizo com a ideia de que as minorias devem ser respeitadas, que os direitos das minorias devem ser defendidos, não simpatizo com a ideia de as infantilizar, proteger alunos universitários de certas ideias.

São sítios longínquos, as pessoas recebem-me com muita vontade de me enfiar comida regional nas goelas, uma coisa que aprecio.

Mas os humoristas incluem o politicamente correto nas suas piadas. Como dizia o Gregório, que olha para os seus tuítes e acha que eram imbecis?

Não houve um dia na minha vida em que não tivesse pensado isso. Nem sempre que o olhar humorístico pousa sobre um assunto está a escarnecer. Escárnio é uma coisa, mas é possível fazer humor sobre mulheres e esse humor não ser machista, eu acho que o humor machista não deve ser proibido. De facto, acho que nunca deixei dúvidas sobre o alvo de uma sátira. Agora que não se possam fazer piadas homossexuais é uma infantilização. Uma pessoa pobre deve pagar menos impostos do que eu, mas os direitos políticos dessa pessoa devem ser os mesmos. Não sou protegido de ser escarnecido, ninguém deve sê-lo.

Vai andar pelo país a falar (conversas pelo país cuja receita reverte para as vítimas dos incêndios). Acordou um dia e decidiu fazer?

Estava a ver o que tinha acontecido. Não deixa de ser uma gota de água. Eu não queria os bilhetes fosse muito caros para não onerar as pessoas. Com uma sala de 800 lugares como fiz na Figueira da Foz, com bilhetes a 10 euros, rende 8 mil euros. É muito pouco, por isso é que tenho de fazer muitas. São umas dez. São sítios longínquos, as pessoas recebem-me com muita vontade de me enfiar comida regional nas goelas, uma coisa que aprecio. Só o facto de encherem a sala já é uma generosidade que me toca, o facto de se disporem a aturar-me, eu talvez dissesse: posso pagar 20 e não ir? Fiz ontem em Seia e no dia anterior na Figueira da Foz. Aconteceu uma coisa maravilhosa que foi uma pessoa que deseja ficar anónima perguntou-me: "quanto é que estimas fazer com isso? Eu ponho outro tanto." Ultrapassámos a fasquia dos seis dígitos. Continua a ser uma gota de água perante a devastação, mas é melhor que estar em casa. Se estivesse em casa, nem um cêntimo. Eu lembro-me quando foi no Pavilhão Atlântico muitas pessoas região que não foram afetadas pediram que fosse lá e as pessoas também têm gosto. E no meu caso é especialmente gratificante porque vou a sítios onde nunca atuei, alguns onde até nunca tinha ido, e gostava de deixar claro que isto não constitui sacrífico nenhum, antes pelo contrário.

Vai falar sobre quê?

As pessoas levantam o braço e perguntam coisas. Há temas recorrentes, comédia, riso, o Benfica. Há temas que vêm à baila - este juiz, a Operação Marquês também tem muito êxito. Entretanto, há sítios que pedem que eu vá e eu fico muito lisonjeado com isso, vou tentar fazê-lo, mas há sítios que tinham de tal forma sido afetados que nem os telefones funcionavam. Houve sítios assim e só responderam cinco dias depois.

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