Ready Player One: a realidade virtual segundo Steven Spielberg

Um blockbuster sobre a experiência da realidade virtual, Ready Player One - Jogador 1 é uma caça às referências pop

Vamos ao cinema com Steven Spielberg. Ready Player One - Jogador 1 é um convite do maior realizador americano a viajarmos até às memórias e referências dos anos 1980 no cinema e não só - em todo um caldeirão de pop culture. Podemos igualmente olhar para o filme como um retardatário e descomunal ataque de ciúmes perante Matrix, das irmãs Wachowski, obra que inaugurava de certa forma uma visão de vertigem cinematográfica perante a realidade da realidade virtual. Ora, Spielberg quis ter o seu Matrix, podemos deduzir, mas quis sobretudo estar a par com uma das tendências mais fortes da indústria de entretenimento, sobretudo num momento em que a indústria da realidade virtual parece cada vez mais apostada em estabelecer presença e diálogos em Hollywood.

De certa forma, a decisão de adaptar o livro homónimo de Ernst Cline (Editorial Presença) pareceu natural para alguém como Spielberg. Um romance de ficção científica que incorpora referências explícitas ao próprio universo do mago, bem como de videojogos (olá Atari!). Antes de filmar The Post, Spielberg tinha feito este blockbuster sobre a experiência da realidade virtual.

A história passa-se num futuro mais ou menos próximo, numa América fustigada por um colapso económico, moral e ambiental, onde todos acabam por sucumbir aos prazeres dos jogos e das ofertas da realidade virtual. Uma sociedade onde todos vivem de avatares e de uma existência virtual, em especial o nosso herói, um adolescente sem pai nem mãe. Wade vive essencialmente para o seu avatar, Parzival, uma espécie de cavaleiro solitário campeão de pontos num portal virtual chamado Oasis, onde existe uma competição grande: o criador dessa ilusão, uma espécie de Steve Jobs, depois de morrer, deixou um jogo que pode conferir ao vencedor controlo total do seu universo virtual, um poder que todos ambicionam, em especial o império de Nolan Sorrento, um cruel tecnocrata com interesses sinistros.

Pelo caminho, Wade, com a ajuda dos seus amigos virtuais (que mais tarde vamos perceber que se trata de uma parada de diversidade racial para conquistar o prémio do politicamente correto...), vai conseguindo ser o primeiro dos salteadores virtuais a conseguir as chaves para o prémio final, o tal "ovo de Páscoa", cruzando-se com obstáculos virtuais como King Kong, Freddy Krueger, dinossauros de Parque Jurássico, entre outros. O segredo da competição desta epopeia virtual é descobrir as pistas com enigmas do gosto nerd do criador do Oasis. Pistas que remetem para detalhes sobre música pop, trivia sobre John Hughes e outras "tropelias" da cultura pop de quem cresceu na década de 1980. A avalancha de referências é de tal forma potente que o próprio Spielberg preferiu ignorar algumas citações ao seu cinema (gesto de humildade que felizmente não refreou quando se cita Regresso ao Futuro, produção da sua Amblin).

Depois, claro, há um momento de génio, quando os heróis do filme são literalmente atirados para dentro dos cenários de Shining, de Stanley Kubrick. Trata-se de um momento de cinema único. Esse sim é o verdadeiro território inédito deste "admirável novo mundo". Arrepia, é comovente, faz-nos rir e é uma viagem para todos os sentidos - expressão radical do romantismo cinéfilo de Spielberg. Por outro lado, é tudo tão bem conseguido que esse momento ameaça pôr em ordem o equilíbrio do filme: sejamos francos, nunca mais voltamos a sentir essa vertigem. Ready Player One será sempre lembrado pelo seu momento Shining.

Em entrevistas à imprensa, Spielberg tem dito que este foi o seu filme mais complicado de executar depois de Tubarão. Percebemos isso: o lado de proeza técnica sobrepõe-se a quase tudo. Dir-se-ia que é uma obra cujos processos visuais (muitíssimas das vezes mais perto da animação) cansam e se arrastam. Fica-se com uma desconfortável sensação de que por vezes a megalomania do projeto mata o detalhe (que é aquilo mais saboroso aqui) e que há compromissos a fazer para o filme estar mais perto dos gamers ou do público "utilizador". Apesar de ser uma experiência exuberante, Ready Player One - Jogador 1 é provavelmente o Spielberg menos inspirado dos últimos anos. Ainda assim, um belo filme para o cromo que há em nós.

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