Quem quer ser (Valter) Lobo veste-lhe a pele

Uma guitarra acústica, a voz e letras a condizer. Não é preciso mais para este cantor de 34 anos, que tem no currículo um EP, Inverno, e um longa duração, Mediterrâneo

Não há uma história extraordinária que explique porque Valter Lobo tenha enveredado pela música. Mas não deixa de ser digno de nota que, anos mais tarde, tenha trocado uma carreira na advocacia pela imprevisibilidade na música. "Sempre ouvi música, embora não tenha grande background em casa. Na adolescência, influenciado pelo pop-rock britânico dos anos 90, comecei a tocar guitarra." Na Fafe natal pediu uma guitarra acústica emprestada e vá de aprender por si. "Comecei a tocar os hits dos anos 90, dos Oasis, de quem era grande fã, e dos Blur", conta. Mais tarde, quando já dominava o instrumento e a voz, deu-se com naturalidade o passo seguinte: começou a compor e formou "uma banda ou duas".

Foi já em Braga, enquanto estudante universitário, que a música ganhou outra dimensão. Com outros colegas criou os Wood Spirit: "Uma cena engraçada, mas muito deprimente e a cantar em inglês, não sei porquê, mas queríamos ser outros gajos quaisquer. Ainda fizemos umas brincadeiras, fomos ao Termómetro Unplugged, em 2005."

Uma dúzia de anos depois, Valter Lobo orgulha-se de ter editado dois discos, Inverno e Mediterrâneo, e de fazer quase tudo sozinho, da atividade criativa à promoção e ao agenciamento. "Digo sempre que sou o mais independente do mundo. Editei o meu disco, fui eu que o paguei, que o desenhei, que o escrevi, fui eu quem fez as músicas. Eu é que fui buscá-los à fábrica e fiz a promoção. E correu bastante bem, mesmo sem grande airplay nas rádios, toquei muito mais vezes, em sítios melhores e mais bem pagos. Não procuro imitar ninguém nem ser outra pessoa."

Pelo meio terminou o curso e chegou a exercer. "Ainda trabalhei um ano como jurista na Câmara de Fafe, mas vi que aquilo não era para mim", diz. No entanto, o músico continua ligado ao direito e à autarquia da sua cidade. "O direito não ficou de fora porque faço aconselhamento jurídico aos artistas na GDA (Gestão dos Direitos dos Artistas) no Porto. Tentei ligar o direito à parte de que eu gostava e não a penhorar mesinhas de cabeceira", graceja. Quanto a Fafe, é o programador e produtor de um ciclo de cantautores, 48/20, que vai no terceiro ano. Além dos concertos, a iniciativa diferencia-se pelas residências artísticas: "Convidamos duplas de cantautores que se juntam em Fafe, fazem uma música inspirada na cidade, e apresentam-na num concerto conjunto", explica.

Neste ano, um dos artistas que passaram pelo Teatro Cinema de Fafe foi Glen Hansard. O irlandês fez as primeiras partes da digressão europeia a solo do vocalista dos Pearl Jam, Eddie Vedder. "Eu fui ter com ele a Amesterdão. Numa das noites, num bar, cantei as minhas músicas a cappella para ele e para os pais da Markéta (Irglová), a cantora do antigo grupo do Glen, Swell Season." Até aqui, nada de incrível, apesar de se dizer fã de há dez anos do irlandês. Extraordinário foi o que aconteceu depois. "No terceiro dia de espetáculo, o Glen disse ao público que lhe apetecia fazer uma coisa diferente e chamou-me ao palco. Fui cantar frente a cinco mil pessoas que estavam à espera do Eddie Vedder e pelo qual tinham pago 120 euros de bilhete!" Surpreendido, mas não assustado, cantou Quem Me Dera com a guitarra do seu ídolo nas mãos. Num momento de sonho como quando começou a aprender sozinho a tocar, só a voz e a guitarra emprestada.