Pouca competitividade literária nos Jogos Olímpicos

Quem quiser encontrar livros sobre esta edição das Olimpíadas no Rio de Janeiro em língua portuguesa descobrirá bastantes títulos, mas para os adquirir terá de viajar ou encomendar ao Brasil pois em Portugal não houve entusiasmo na produção editorial.

o bairro de Santa Teresa, um dos mais típicos de um certo Rio de Janeiro, há uma garagem muito especial numa casa normal. Que não serve para estacionar o carro do proprietário, antes dá entrada para a Academia Brasileira de Literatura de Cordel. É um espaço onde se reúne mais de dez mil livros da chamada literatura de cordel, pequenos folhetos principalmente com histórias do Nordeste Brasileiro, e onde se disponibilizam dez máquinas de datilografar dos anos 40 e 50 do século passado para quem quiser fazer a sua própria edição. Decerto que a realização dos Jogos Olímpicos dará vários folhetins em cordel que aí serão expostos no futuro, até porque a tocha olímpica passou por muitos dos locais onde os grandes autores viveram e se inspirariam no tema dos Jogos com toda a certeza como seria o caso dos fundadores do género, o Cego Aderaldo e Patativa do Assaré.

Se esses folhetos dos autores de cordel não chegarão aos leitores portugueses, também não existem muitos livros escritos de propósito para esta edição Rio 2016 dos Jogos Olímpicos, evocando uma das maiores concentrações de atletas dos tempos modernos desde que o barão de Coubertin decidiu refundar os Jogos Olímpicos em 1896.

As tentativas anteriores de fazer renascer a competição que encantava os gregos das cidades-estado da Grécia Antiga vários séculos antes do nascimento de Cristo também tiveram que ver com a literatura, tanto assim que foi o poeta Panagiotis Soutsos a ter um grande papel no seu ressurgimento devido à escrita do poema Diálogo dos Mortos, em 1833.

Entre os vários livros que saíram nas últimas semanas, há um muito curioso, que é a biografia de George Hirthler sobre o homem que fez renascer os Jogos: The Idealist: The Story of Baron Pierre de Coubertin. Percorrendo os dois séculos em que decorre uma vida de 74 anos, com nascimento em Paris em 1863 e morte em Genebra em 1937, faz uma viagem pelo sonho olímpico do homem que terá o desgosto de assistir às terríveis competições nos Jogos Olímpicos de Berlim, ensombradas por Hitler e o nazismo.

Outro dos livros muito bem concebidos para estas Olimpíadas é o de David Goldblatt, The Games: A Global History of the Olympics. O especialista em desporto respondeu ao apelo do The Wall Street Journal e fez uma história desde a reinvenção dos Jogos em 1896 até à atualidade, dando destaque às performances de grandes atletas como Jesse Owens, Nadia Comaneci ou Usain Bolt.

Outro volume a ler, porque trata da insegurança na competição, é o thriller de James Patterson, editado no Brasil: Private. Missão Jogos Olímpicos. Passa-se nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, e está repleto de situações que, espera-se, não aconteçam no Rio 2016. Para quem queira ler no Kindle, há um bom guia: Your Guide to the Rio 2016 Olympic Games, de Lind Taylor.

Outro volume recém-editado é For the Glory: Eric Liddell"s Journey from Olympic Champion to Modern Martyr, um livro em que Duncan Hamilton recupera a história do atleta Eric Lidell que já surgiu no cinema no filme Momentos de Glória (Chariots of Fire). Aqui, dá-se fôlego ao outro lado da sua história, o de ser missionário na China e depois prisioneiro num campo de concentração japonês durante a II Guerra Mundial.

Esta investigação de Duncan Hamilton leva-nos à literatura nacional relacionada com os Jogos Olímpicos, designadamente um dos poucos romances que recuperam a história de Francisco Lázaro, um maratonista português tragicamente falecido durante a competição dos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912. Trata-se do romance Cemitério de Pianos, onde o escritor José Luís Peixoto coloca o filho do maratonista no centro de uma complexa teia de personagens que surgem no cenário de uma oficina de reparação desses instrumentos musicais. O autor recupera a vida de Lázaro, tornando o romance também numa biografia do atleta.

Mais atual, lançado neste mês, tem o leitor uma história de 184 páginas intitulada Trazer o Ouro ao Peito, sobre os participantes paralímpicos portugueses nas competições, que relata a odisseia de "onze atletas portugueses de exceção que ganharam muitas medalhas". A autora, Inês Henriques, sintetiza a sua narrativa deste modo: "Num país pouco habituado a medalhas em quantidades astronómicas, esta é a história dos atletas excecionais que representam a história fantástica dos atletas paralímpicos portugueses e que mostram que nada está fora do nosso alcance. Basta querer, ter força e ser resiliente, ir à procura e não deixar que algo que a sociedade vê como impedimento o seja."

Se os adultos têm apenas monografias e livros de outras edições dos Jogos Olímpicos para agora poderem reler, visto que para as Olimpíadas brasileiras pouco existe à disposição em português a não ser a vasta publicação de obras lançadas no país organizador, já para os mais novos não faltam boas histórias que se socorrem desta competição como tema central. É o caso de Perigo nos Jogos Olímpicos, de Ana Soares e Bárbara Wong, lançado em novembro, e que se centra na seguinte ideia: "Se os Jogos Olímpicos não se realizarem, o mundo pode entrar numa guerra sem fim. Para restabelecer a paz, Zé, Alice, António, Mel e Pedro confrontam-se com um deus que tudo faz para que o conflito comece." A intenção das autoras é permitir aos leitores descobrir a história dos Jogos com os heróis da nova era.

Para rematar as leituras sobre os Jogos do Rio de Janeiro, há sempre um álbum de banda desenhada imperdível: Astérix nos Jogos Olímpicos. Um dos volumes mais divertidos de Goscinny e Uderzo, onde os habitantes da temível aldeia gaulesa decidem rivalizar com os atletas das legiões romanas nos Jogos Olímpicos de Atenas.

Para os mais jovens, existe ainda um livro interessante de um dos heróis mais populares, Gerónimo Stilton, que foi publicado aquando da anterior edição das Olimpíadas: Salvaste os Jogos Olímpicos, Stilton! É o título de uma aventura que decorre em Atenas, no ano de 1896, quando os Gatos Piratas viajam no tempo para participar em várias provas. Gerónimo tem um papel didático, o de ensinar a importância do espírito desportivo.

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