Ó-ó-obrigadinho, senhor Camilo de Oliveira!

O ator morreu no sábado, aos 91 anos, vítima de doença prolongada. No legado deixa programas que faziam "a vida parar"

As coisas não correram como queria aquele que, uma vez, se levantou a meio de um espetáculo no teatro Sá da Bandeira para gritar: "Camilo de Oliveira, nunca devias morrer!" O ator morreu no sábado, aos 91 anos. Desses, Camilo de Oliveira, que contou esta história no programa Alta Definição, da SIC, passou quase 70 no palco ou na televisão, a fazer rir os portugueses. Lutou contra dois cancros, na próstata e nos intestinos, estava internado no Hospital Egas Moniz, em Lisboa, avançou ontem a SIC.

"A vida parava. Ainda no outro dia estava a ver a repetição e estava com aquela boa nostalgia. Lembro-me da família toda à noite, num ambiente de felicidade, a ver um programa chamado Sabadabadu." O que conta Heitor Lourenço, que em 2002 se fez filho de Camilo na série Camilo, o Pendura, poderiam contá-lo um sem número de portugueses.

No teatro, na revista, ou na televisão, nos teatros ABC, Variedades, no Parque Mayer, ou nos estúdios da RTP e da SIC, Camilo de Oliveira contracenou com atores como Artur Agostinho, Beatriz Costa, António Feio, Ribeirinho (Francisco Ribeiro), Vasco Santana, Francisco Nicholson, ou Raul Solnado. Em Sabadabadu era Agostinho, numa dupla com Ivone Silva que terá ficado gravada na memória de muitos, e era o Padre Pimentinha. Vítor de Sousa, que aí interpretava o sacristão, alvitrou ao DN que "com o Camilo termina uma época de uma mão cheia de atores que, realmente, podemos chamar de época de ouro". Heitor Lourenço está de acordo. Camilo é o último "dessa geração do António Silva, do Vasco Santana, do Ribeirinho... O Camilo era, para mim, o último grande sobrevivente."

Júlio Isidro chamou a Camilo de Oliveira " o último grande comediante da nossa cena". Escreveu na sua página de Facebook que ele " foi tanta gente nos palcos e na televisão, nunca deixando de ser um exigente trabalhador para que o povo se risse de si próprio e sobretudo desta condição de sermos portugueses."

O ator que já nasceu no teatro

A Camilo de Oliveira aconteceu aquilo que poucos poderão afirmar sem recorrer a um recurso estilístico: nasceu no teatro. Foi no dia 23 de julho de 1924, em Buarcos, próximo da Figueira da Foz. Os seus pais, atores, estavam em digressão com o Teatro Rentini, e Camilo nasceu num camarote do Teatro Caras Direitas. "O meu pai fazia de Dom Pedro, a minha mãe fazia de Inês de Castro, já de barriga. Já estava um Castrozinho lá dentro a querer sair", brincou numa entrevista a Manuel Luís Goucha, na TVI.

"Camilo" era como uma marca, um carimbo. O seu primeiro nome bastava para identificar as séries de televisão como Camilo em Sarilhos, Camilo, o Pendura, A Loja do Camilo, Camilo na Prisão, ou As Aventuras do Camilo. Deu esse nome aos seus dois filhos, Camilo Humberto, filho da atriz italiana e sua primeira mulher Io Appolloni, e Camilo Luís, filho de Maria Luísa Bettencourt, a sua segunda mulher. Acabaria a sua vida ao lado da atriz Paula Marcelo, com quem era casado desde 2002.

As homenagens multiplicaram-se durante o dia de ontem, em que a sua morte foi anunciada, criando como que um retrato assinado por quem lhe foi próximo. Herman José escreveu na sua página de Facebook: "Não imagino vida mais completa: profissionalismo exemplar, amores totais, caráter, verticalidade e alguns inimigos de estimação pelas razões certas." Depois, comparou a vida de Camilo a uma peça que, se existisse, "estaria ao nível do melhor Arthur Miller", afirmava o humorista.

Marcelo Rebelo de Sousa - Camilo de Oliveira era amigo do Presidente da República - recordou que o ator "tinha um humor muito doce, um humor muito português".

Também o ator Ruy de Carvalho disse à SIC: "É uma grande perda para nós. É mais uma grande perda para o espetáculo e para o teatro em Portugal."

E ontem ouviu-se até o que, nestas alturas em que se constituem obituários, pouco se costuma ouvir, e que escapa aos elogios póstumos. Simone de Oliveira, por exemplo, lembrou que Camilo de Oliveira não era "um colega fácil", recordando que tiveram muitas discussões, mas que "tudo passou". "Era um homem muito amado por todos, se existe algum lugar lá em cima, espero que esteja num lugar bom", contou à Lusa.

A propósito disso, Heitor Lourenço recorda ao DN que, quando se preparava para começar o trabalho com Camilo em Camilo, o Pendura, "houve até colegas que, quando souberam, disseram assim: "Coitado de ti, vai ser muito complicado. Olha que o Camilo não é fácil." Eu estava cheio de medo... Mas nunca encontrei nada, para mim, daquele Camilo mais difícil. O que encontrei foi uma pessoa que quase parece que me adotou." Adotou-o de tal maneira que eles, que eram pai e filho na televisão, transpuseram o laço para a vida. Um dia o pai de Heitor encontrou Camilo no café e disse-lhe quem era. "E nasceu uma grande amizade. Havia alturas em que o Camilo estava com o meu pai diariamente e passou a fazer parte do grupo de amigos dele."

Ter graça, aprendeu Heitor com Camilo, dá muito trabalho. "Ele dizia: "Oh Heitor, a comédia é filigrana." Uma coisa muito trabalhadinha, muito ao pormenor... A grande coisa da comédia é o tempo [certo]. Ele tinha isso dentro dele, a noção desses tempos, quase como se fosse uma segunda pele."

Vítor de Sousa recorda Camilo como "um ser humano que às vezes não foi muito bem compreendido, talvez pelas exigências profissionais que ele fazia a ele próprio e a quem o rodeava. Era uma entrega total." Mas não era o único. Veja-se o que é dito de Filipe La Féria. Ou de Ribeirinho. "O mestre Ribeirinho tinha muito mau feitio. Zangava-se, tirava o chapéu da cabeça e pisava-o. Mas como o chapéu não era nosso... Paciência", conta numa gargalhada Vítor de Sousa.

Camilo poderia, em 2012, ter assinado a célebre frase de Mark Twain "As notícias da minha morte foram manifestamente exageradas". "Ligaram-me várias pessoas a perguntar: "Camilo, estás morto?" Engano que mereceu na altura valentes gargalhadas. "Se estava morto, não atendia o telefone..." Era a resposta que eu dava", contou recentemente à Agência de Informação Norte.

O ex-embaixador Francisco Seixas da Costa lembrava no Facebook a série O senhor que se segue (1964), em que Camilo de Oliveira contracenava com Artur Agostinho, este último o dono de uma barbearia e o primeiro o empregado, um gago que lhe dizia assim: "Ó-ó-obrigadinho, senhor Gaspar!" Como muitos hoje diriam "Ó-ó-obrigadinho, senhor Camilo!"

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