"O Nosso Desporto Preferido" é inventar o futuro, talvez

A aventura civilizacional de Gonçalo Waddington e dos seus cientistas tristes começa agora, passa pelo futuro e acaba no princípio.

Imagine-se um laboratório daqueles plantados no meio de nenhures, a Antártida, por exemplo, daqueles em que sabemos que o filme vai acabar por extinção das personagens, daqueles em que "o álcool acaba sempre antes de o nevão terminar" - explica quem lá o construiu, palavra a palavra. Trancados lá dentro há cinco atores-investigadores capitaneados por um "cientista misantropo que sonha com a criação de uma espécie humana livre das necessidades básicas". Talvez estejam sozinhos no mundo, talvez não, mas acham certamente que são os últimos da sua linhagem, encarregados de levar a cabo uma missão impossível: a criação de uma nova estirpe do humano.

"Toda esta peça se passa num intervalo em que as experiências estão no forno e eles estão em compasso de espera a ver se aquilo resulta ou não", informa sem esclarecer Gonçalo Waddington, criador daquelas personagens, dos seus dilemas e das suas contradições.

Refletir, confundir, enlouquecer, debater - mas não esclarecer - é o que se faz em O Nosso Desporto Preferido - Presente, primeiro tomo de uma tetralogia do autor, encenador e ator, que a desejou e desenhou em quatro partes não ordenadas cronologicamente. "Apesar de haver um fio condutor, a questão de fundo é que haja uma independência entre as várias partes. É uma mesma aventura civilizacional mas em episódios autónomos." Futuro Distante, Futuro Próximo e, por fim, Génese são os capítulos que se seguem. Para já, Waddington ocupa-se do Presente de forma não linear, como de tudo o resto: "não quis criar uma reflexão instantânea a partir do que se passa hoje, quis abarcar o agora na nossa sociedade."

Um mundo perfeito?

Livre de minudências como a alimentação, a digestão ou a reprodução, a nova espécie estaria "livre para perseguir o hedonismo e a abstração", rumo a uma "sociedade global, multicultural, multiétnica e científica". Tudo isto, claro, não fossem alguns engulhos entrevistos na completa tristeza das criaturas perfeitas de algumas obras de Michel Houellebecq que, com Thomas Pynchon, faz parte das "referências boas" que guiaram Waddington no escrever da obra. Coautor de O que se leva desta vida (peça de 2009 escrita e encenada a meias com Tiago Rodrigues) e da série televisiva Odisseia (outra vez com Rodrigues e Bruno Nogueira), autor de vários guiões cinematográficos em fase de produção, o ator entrou a fundo na escrita para teatro com Albertine, o continente celeste (editada pela Abysmo) que leva à cena uma das obras fundadoras da história da literatura - Em Busca do Tempo Perdido - decantando Proust e fazendo-o conviver com astrofísicos e cosmólogos.

"O texto é uma das ferramentas do teatro, mas eu tinha sempre sobre mim aquela sombra e adamastor que é a literatura. Descobri o texto, quase por acidente, no Albertine, que não era para ser eu a escrever. É uma novidade, realizei que gosto dessa solidão e de me embrenhar no material que investigo para escrever. Mas escrever, como encenar, é uma ramificação do meu trabalho principal que é ser ator."

Não por acaso, são as palavras que estão no princípio de tudo o que se passa aqui em palco: "mais do que pesquisar o ser humano no futuro, a peça quer investigar como será a nossa língua no futuro, porque também na língua há uma seleção natural." E o desporto preferido, afinal, qual é? Aquele que exorciza os males e encanta os espectadores? "É muito intenso e muito bonito, cheio de energia, força, delicadeza e beleza. A equipa de cientistas acha que é o único digno de ficar nos anais civilizacionais." A confirmar no Alkantara Festival, amanhã.

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