O Gabinete está pronto para receber a rainha na Pena

Quatro anos depois, o Palácio da Pena dá por terminado restauro do gabinete da Rainha D. Amélia, um aposento que também foi usado pela Condessa D" Edla, a segunda mulher do rei D. Fernando II. O mural do tempo da República também foi recuperado. São três salas numa só.

A peça central do gabinete é a secretária da rainha D. Amélia". O diretor do Palácio Nacional da Pena abre as portas da casa de férias da família real portuguesa, na serra de Sintra, para mostrar a divisão, acabada de restaurar após quatro anos de trabalhos na cobertura exterior e na fachada, na pintura mural de 1917 que cobre as paredes e na reconstituição da divisão como no tempo da mulher do rei D. Carlos, mas evocando também a anterior ocupante do espaço, a Condessa d" Edla, segunda mulher de D. Fernando II, o monarca que transformou um convento do século XVIII em palácio. "Depois de restaurada, foi colocada na posição em que D. Amélia a tinha", afirma António Nunes Pereira.

"Marca claramente a separação entre o espaço íntimo e aquele em que recebe pessoas", explica o diretor. O tardoz é decorado, "porque é para estar à vista", detalha.

É o local de trabalho de uma senhora da alta sociedade, neste caso a rainha de Portugal

Estava noutra dependência do palácio, mas a investigação da equipa do palácio, e uma fotografia em concreto, localizou-o aqui. "A posição da mesa é idêntica à da secretária que a rainha tinha nas Necessidades", acrescenta Nunes Pereira. "É o local de trabalho de uma senhora da alta sociedade, neste caso a rainha de Portugal", conclui. E lembrando a sua grande paixão pelas artes, o estirador de Amélia de Orleães também foi colocado nesta sala.

Lembrar a Condessa d" Edla

Elise Hensler, condessa d" Edla, a segunda mulher de D. Fernando II, foi a primeira a ocupar este espaço como testemunha o armário de produção italiana do século XIX que se encontra numa das paredes. Foi levado pela cantora lírica para o Palácio de Santa Marta, em Lisboa, quando a viúva de D. Fernando II entregou a Pena à Coroa. Foi adquirido aos seus descendentes pela Parques de Sintra, a empresa que gere o palácio, em 2015, entre outras peças.

Este armário fazia par com outro, que se encontra atualmente no Palácio de Sant"Ana, em Ponta Delgada. É o que documentam fotografias de Carlos Relvas, usadas por António Nunes Pereira e pelo conservador Hugo Xavier na investigação de como seria o gabinete.

"D. Fernando II tinha gosto pela simetria. Mas no final do século XIX o equilíbrio já é feito pela assimetria", conta António Nunes Pereira. É o que dizem as duas etagéres de pau santo, as duas colunas de madeira usadas como peanhas ou os candelabros sobre a lareira.

Foi preciso mais de um século para que um destes candelabros em porcelana de Meissen fosse arranjado. D. Amélia era rainha e já lhe faltava um braço, dizem os documentos consultados por Hugo Xavier. A degradação em que a monarquia deixou o palácio é notada nesses documentos.

A peça, um dos muitos exemplares de Saxe do gabinete, foi arranjada agora, no âmbito do que o diretor e Carlos Marques, um dos coordenadores de restauro da Parques de Sintra, chamam de "restauros integrais". Nunes Pereira conta que a restauradora fez "sete braços". Depois escolheram o que mais aproximava. Foi uma das decisões sérias desta empreitada. "Pensei muito nesse assunto", admite António Nunes Pereira. "É um testemunho da passagem do tempo mas há uma dignidade que o património tem de ter", concluiu, lembrando que o Palácio mostra uma vida doméstica. "Se a mostrássemos sem o braço seria a única coisa que as pessoas lembrariam". E, remata, "não há falsificação. Assumimos o restauro".

Um contador hispano-árabe da condessa também volta à origem. Conta outra parte da história do Palácio da Pena. Estava no Palácio Nacional de Sintra desde que o arquiteto Raul Lino foi diretor dos Palácios Nacionais, em 1939. "Ele gostava de organizar as coleções por época", conta o diretor. "Tem uma visão mais historicista e menos vivencial". "Perde-se a referência do local como vivência da família real", a que vigorava desde que o palácio abriu as portas em 1911.

Já na República, é encomendado um mural ao pintor Eugénio Cotrim que substitui o tecido dos tempos da condessa ou o (hipotético) papel de parede de D. Amélia, antídotos ao muito frio que se faz sentir na divisão. Foi o mau estado desta pintura que espoletou o restauro nesta divisão. "Fizemos, uma reconstituição histórica informada", nota António Pedro Nunes. Um lugar comum incontornável, que antecipa novas reformas no Palácio - as infiltrações na sala do fumo e salas onde D. Manuel II passou os últimos dias como rei e que estão encerradas há cinco ou seis anos. As reparações decorrem com o equipamento aberto. É o que exige um dos monumentos mais visitados do país, com mais de um milhão de entradas em 2015.

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