O discreto transformador da matéria sobrante

Artista plástico Rui Horta Pereira tem um percurso marcado pela descoberta dos materiais e a sua reutilização

Por estes dias, Rui Horta Pereira está em Évora a dar corpo a uma escultura, feita a partir de costaneiros. "Sabem o que são costaneiros? Eu vou usar umas pedras que são as sobras dos blocos que eles cortam e acertam. São as sobras." Uma marca do trabalho deste artista: transformar aquilo que sobra - seja pedra, papel, corda, óleo de motor queimado e outras, que a nossa imaginação ainda não conceba - em matéria essencial. Esta peça que faz nascer em Évora, é o seu regresso à escultura, que estudou em Belas-Artes, e também à sua cidade natal.

Resulta de um convite da Pó de Vir a Ser e vai ganhar corpo no antigo matadouro da cidade, casa daquela associação desde 1985. "Interessava-me fazer uma proposta para uma escultura que é algo que não faço há muito tempo", diz Rui Horta Pereira, no seu ateliê nos Anjos, em Lisboa, onde está uma maquete do trabalho. Para as nove toneladas de pedra - mármore proveniente de Bencatel - quer criar um "cenário". Explica que, com os vários blocos de mármore justapostos, vai fazer "um bebedouro para animais de pequeno porte, cães e gatos". A ideia é criar um delicado espelho de água nas faces mais retas das peças, para que haja um débito de água dos mais baixos para os mais fundos. "Depois há de ter duas árvores plantadas, espero eu, nos topos. Para ter abelhas, insetos, pássaros. Quero que aquilo tenha vida, é um microcenário", diz o artista. Mas como gosta de fazer, não tem a pretensão de que as coisas saiam exatamente assim. A pedra pode ter preceitos que, durante o corte, o levem por um caminho ligeiramente diferente. Não faz mal.

O ateliê está cheio de vestígios do que foi ou do que pode vir a ser o seu trabalho. Várias paletes de garrafas de água, vazias, à espera de um método para as transformar numa pastilha sem gastar muita energia. Um pedaço de cordas de pesca feitas tapete. É uma amostra da enorme tapeçaria de 30 metros quadrados e 300 quilos que teceu assim mesmo, com cordas sobrantes dos barcos de pesca que foi apanhando nas praias (a peça Água e um Pouco de Areia Fina, exposta no Museu de Arte Popular, em 2014). Também há montes de desenhos. Por exemplo, os "desenhos fantasmagóricos" que fez com óleo de motor queimado, que recolheu nas oficinas do bairro. "São uns 80 desenhos com um metro por setenta. Ficam com umas manchas estranhíssimas, são superorgânicas, uns fantasmas, figuras que eu não sei de onde vêm", explica. Fá-los desfilar para a fotografia. Tocam os Buena Vista Social Club mas é para África que as figuras de óleo de motor queimado nos transportam. Também estes desenhos têm a tal imprevisibilidade de que Rui Horta Pereira gosta no processo criativo. Quando faz o desenho não sabe nunca até onde vai o borrão que o óleo faz alastrar no papel.

Um processo semelhante acontece também com os "desenhos do sol": pedaços de papéis que expõe ao sol e que resultam com matizes de cor e linhas deliberadamente feitos pelo tempo de exposição. Alguns são agora capas de um conjunto de 15 livrinhos com que se conta a sua história desenhada. Trata-se do catálogo da exposição É, de 2016 (Fundação Carmona e Costa). Nuno Faria, o curador, "obrigou" Rui a revisitar dossiês antigos, alguns deles com mais de uma década, num processo de auto(re)descoberta. Daqui emergiram, por exemplo, os "desenhos com recado": "são desenhos que eu fiz numa determinada altura mas, como não lhes dava muita importância, deixava uns recados por cima. "Preciso que pagues a conta da água que não tenho tempo", "A tua mãe ligou é preciso falar. Até logo" [risos]. Eu guardei isto e o Nuno pegou e foi organizando. Foi repescando quase todas as coisas que eu à partida iria pôr de lado. E eu agora olho para isto de outra maneira", conta Rui Horta Pereira.

"Este processo foi muito importante de fazer com ele, rever estas coisas e perceber que isto tudo não estava assim tão despojado de sentido. De repente encontro comunicação entre coisas, algumas que fiz antes da faculdade. Percebi que há uma energia nessa multiplicidade, que é o que me interessa a mim. Isso consolidou na minha cabeça uma ideia: o que me interessa é continuar a experimentar coisas."

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