O arquiteto que quer pôr arquitetos, e não só, a falar

Arquiteto e filho de arquiteto, nascido no Porto há 41 anos, investigador, fundou a editora Dafne e é agora curador da Garagem Sul do Centro Cultural de Belém

É "relativamente simples" explicar como é que André Tavares chegou à arquitetura, diz o próprio. "Eu cresci no meio de arquitetos. O meu pai é arquiteto, ensinou e continua ligado à Faculdade de Arquitetura do Porto. Eu fui crescendo no meio de obras", conta, numa sala do Centro Cultural de Belém (CCB). Apesar da formação e de, ocasionalmente, "ainda fazer obra" [não confundir o arquiteto homónimo], tem-se dedicado à investigação académica na escola de arquitetura da Universidade do Minho e agora na Universidade de Zurique, à boleia de um trabalho sobre a forma como os livros mudaram a arquitetura. É (também) editor de livros de arquitetura, na Dafne, e curador: em 2016, em parceria com Diogo Seixas Lopes, na Trienal de Arquitetura; desde este ano, na Garagem Sul, esse estacionamento que não chegou a ser, dedicado aos arquitetos, e onde, até 15 de outubro, se podem ver reportagens do fotógrafo Fernando Guerra.

Em Uma Anatomia do Livro de Arquitetura, livro ele mesmo, André Tavares, 41 anos, cruza as culturas do livro e da arquitetura e deixa pistas de reflexão, que é o que pretende trazer para a CCB. Define assim o seu projeto para a Garagem Sul: "É um trabalho para uma instituição e para a tornar relevante para a cidade e para os vários contextos. Se o trabalho correr mal, ninguém dá por mim, porque também ninguém dá pela instituição e o objetivo do trabalho é encontrar pessoas e pô-las as conversar com outras e tornar um sítio como a Garagem Sul num espaço relevante para a sociedade". Continua: "Sendo a arquitetura tão importante para a transformação da cidade e da sociedade, é importante que haja espaços estáveis em que se consiga conversar, aprender, desenvolver uma consciência do que possa ser a arquitetura. Tanto para quem a usufrui, como para quem encomenda, como para quem a avalia, como também para os arquitetos, para pensarem e partilhar."

"O arquiteto tem de de ter uma posição articulada com a sociedade", diz o arquiteto, tão calmo quanto assertivo, quando defende um diálogo da sociedade e dos arquitetos. O projeto de remate do Palácio Nacional da Ajuda dá o mote: "Conheço mal o projeto e devia conhecer melhor. Vi umas imagens que não me informaram minimamente e assustou-me, achei triste, ouvir que era um projeto sustentável que ia estar pago ao fim de não sei quantos anos, quando, mais de 200 anos depois, ainda estamos a beneficiar do investimento que foi feito na altura no Palácio da Ajuda. Devia ter havido uma participação maior". Outro exemplo: o aumento do número de turistas em cidades como Lisboa ou Porto. "Isto só está a acontecer porque existiu um investimento nacional e europeu brutal para que isto acontecesse, porque houve milhões que foram gastos na promoção do turismo e não foram gastos na promoção da educação ou de outro recurso económico qualquer. Basta ver a comparticipação e o financiamento público para a hotelaria, para dinamizar a construção, há justificações políticas para isso. Tem de haver mais participação, porque há um ponto de não reversibilidade. No momento em que há um debate eleitoral autárquico, é o momento para outros movimentos fazer valer e fazer ouvir as suas aspirações para a cidade. Basta ver cidades que foram muito fortes no turismo e em que por alguma razão desapareceu, como o norte de África. Onde estavam estes turistas todos antes dos atentados, os recursos e postos de trabalho que vinham do turismo desaparecerem. O turismo é instável e predatório"

Desde o início do ano na Garagem Sul, a marca da sua programação vê-se nas conferências que a Garagem Sul tem promovido no CCB, "que trazem uma geração que tem pensado a arquitetura de diferentes maneiras, a nível europeu". Na quarta dessas conferências, agendada para 28 de novembro, às 19.00, os convidados são os cineastas Ila Bêka e Louise Lemoine, autores dos documentários Living Architectures. O primeiro, em torno do trabalho de Rem Koolhass entra na vida quotidiana de uma casa do arquiteto holandês através da sua governanta.

O programa está "mais ou menos fechado para os próximos dois anos", revela o curador, insistindo na ideia da Garagem Sul como espaço de "acolhimento". "Há esse sentido de trazer exposições que estão em outros lugares". É o caso da exposição sobre a Paris de [George-Eugène] Haussmann, autor do plano levou os boulevards à capital francesa no século XIX.

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