"Não vou à ilha da Boa Vista, o meu paraíso, há quase 20 anos, não preciso"

O cabo-verdiano Germano Almeida, que começou a escrever por medo do mar, regressou às memórias no novo livro Regresso ao Paraíso

Germano Almeida mede 1,95 metros de altura. Veste branco da cabeça aos pés, "só por gosto". Está na ilha de Santiago para o VI Encontro de Escritores de Língua Portuguesa. Numa rua da cidade da Praia passa um homem que, de fugida, seco e sem olhar, lança: "Melhor escritor de Cabo Verde." Acaba de publicar Regresso ao Paraíso, histórias da sua ilha natal, a Boa Vista. E estas saem--lhe como se entrássemos mar adentro num bote que sem pressa espera o reboque, tal como termina este novo livro.

Foi por causa de um naufrágio que começou a escrever?

Havia uma série de coisas que na minha ilha se aprendiam naturalmente. A nadar, a dançar e a tocar um instrumento qualquer. Eu não aprendi nenhum. Ninguém acreditava que eu não soubesse nadar. Um dia, tinha talvez uns 7 anos, fui ao mar com o meu irmão mais velho. Era límpido, parecia que era raso. Caí e desmaiei. Fiquei com medo do mar. Só voltei a entrar aos 18 anos.

Como se vive numa ilha com medo do mar?

Pode-se viver. Mas entretanto fiquei com medo das pessoas que morriam no mar. De vez em quando morria alguém e eu ficava aterrorizado durante dias. Houve uma vez em que houve um acidente e morreram mais de meia dúzia de pessoas, que metem meia dúzia de medos. Até que um dia - naquela altura já lia muito - lembrei-me: Talvez se eu contar a história desta gente me liberte deles. Imaginei a história deles à minha maneira. E como eles andavam a meter-me medo, meti-lhes medo eu. Imaginei-os cheios de medo, a chorar no mar, a gritar pelas mamães.

E a escrita continuou a ter essa função de se libertar das coisas?

Exatamente.

Mas é também uma forma de as guardar? Como as memórias que formam Regresso ao Paraíso?

Não guardo. Estas coisas estão lá, saem e depois não incomodam. Escrevo o Regresso ao Paraíso de uma assentada, revendo as minhas memórias. Começo a escrever e as pessoas voltam todas. Com as vozes, os sons. São efabuladas, também.

As histórias saem-lhe em crioulo e português, como escreve?

Escrevo naturalmente. Não me obrigo a pôr crioulo ou português. Em casa dos meus pais, a minha mãe só falava crioulo e o meu pai português, nós falávamos indiferentemente.

Surpreendeu-se com o que a memória ia mostrando?

É assim: Isto está sujo, não é? [Improvisa com as mãos] Então tiro por camadas. Tiro uma, outra, até chegar a uma que acho que nunca é a última. Porque depois de publicar este livro, pensei: Se eu quisesse continuar a ouvir-me contar histórias da Boa Vista escreveria indefinidamente. Tenho essa sensação.

E saiu de lá com 18 anos...

Não são assim tantos anos, não. Mas extremamente bem vividos. Tive uma infância extremamente feliz.

Aquilo era de facto o paraíso, como lhe chama?

Era. Aliás, eu tive consciência de que aquilo era o paraíso quando saí dali.

E pode lá voltar ou tem medo de perder o paraíso?

Não, não volto. Não vou à Boa Vista, o meu paraíso, há quase 20 anos. Não preciso, tenho a minha Boa Vista comigo.

O Germano tornou-se um pouco o nho Quirino, o contador de histórias de A Ilha Fantástica (1994)?

É um personagem da minha infância. Era um homem que trabalhava na nossa casa, uma espécie de pau para toda a obra do meu pai. Tinha duas características: comia imenso e à noite contava-nos histórias. Sentávamo-nos à volta dele, à porta de casa, sobretudo quando havia luar. Não é que ele cobrasse, mas a gente dava-lhe dróps [rebuçados], um bocadinho de mancarra ou assim. Lembro-me dele perfeitamente. Tinha um talento para contar histórias que era uma coisa maravilhosa. A musicalidade, a forma como encadeava as coisas, era vivo.

Hoje não dá para viver só contando histórias, como escritor?

Em Cabo Verde, quem quiser viver de livros morre de fome. Mesmo em Portugal, acho eu. A não ser que se escreva no jornal ou assim.

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