Monserrate procura recheio romântico de Francis Cook

Uma exposição de obras que estiveram no palácio onde viveu o colecionador britânico dão o pontapé de saída numa busca mais vasta

Percorrendo as salas do piso térreo do Palácio de Monserrate, onde agora se expõem objetos que um dia pertenceram ao recheio da casa de verão do britânico Francis Cook, três meses por ano, salta à vista a secretária da biblioteca. Até há pouco, servia de apoio nos serviços da Fundação Medeiros e Almeida e nem sequer estava exposta ao público. Atualmente pode ser vista no seu lugar original.

A história da mesa, com mais de 2,5 metros de comprimento e da autoria de John Gregory Crace, o mesmo marceneiro que fez as cadeiras do Parlamento inglês, é contada pelo diretor do Palácio de Monserrate. A professora Maria João Neto [historiadora de arte e curadora da exposição] deu de caras com a secretária que foi comprada pelo senhor [António] Medeiros e Almeida para uso próprio. Não deu entrada na fundação como peça para ser exposta. Só com este contacto é que ela se apercebeu de que a secretária em uso pelos serviços da fundação era a secretária da biblioteca de Monserrate". A investigação trouxe-a a novo patamar: "Já está classificada."

António Nunes Pereira chama-lhe uma peça "fundamental" e "estruturante" da biblioteca de Monserrate, que deverá voltar à casa-museu Medeiros e Almeida após a exposição, isto é, dentro de seis meses.

Fundação Ricardo Espírito Santo e Museu de Arte Antiga são outras instituições que guardam peças que originalmente estavam em Monserrate.

Com a venda da propriedade em 1946 a Saul Saragga (e depois ao Estado, três anos depois), o acervo foi leiloado. "Não temos muita documentação sobre o leilão, é o primeiro grande leilão que se faz em Portugal no pós-guerra, foi feito com muita urgência, não se fez catálogo, a própria leiloeira, Leiria & Nascimento, já não existe e o arquivo não subsistiu", nota Hugo Xavier, historiador de arte da Parques de Sintra. Restam alguns inventários e as imagens da campanha fotográfica do estúdio de Mário Novais.

Uma dessas fotografias, ampliada, prova a existência e localização de uma aquisição recente da Parques de Sintra: um baixo-relevo renascentista de Gregorio di Lorenzo. Os proprietários, colecionadores privados que desejam manter o anonimato, tinham a ideia de proveniência de Monserrate. A Parques de Sintra tomou conhecimento de que queriam vender a peça, entretanto o Estado português fez um plano de classificação, para ficar em território nacional, publicado em Diário da República e foi possível, na sequência disso, adquiri-la, conta Hugo Xavier. A Parques de Sintra não divulga o valor da aquisição. "Idêntico, do mesmo período, com esta configuração [Virgem com o Menino], existe apenas um outro autor em Portugal no Museu Gulbenkian, contemporâneo de Gregorio di Lorenzo."

Voltar a reunir o acervo do palácio, ou "pelo menos saber onde está", é o propósito da Parques de Sintra. "A exposição vai ficar aqui num intervalo de seis meses, assume o carácter museográfico das peças, que não tem que ver com a nossa postura perante os palácios. Os palácios são retratos, memórias de contextos domésticos, vivenciais", afirma António Nunes Pereira. E, frisa, a exposição Monserrate Revisitado. A Coleção Cook em Portugal não é um ponto final, é um pontapé de saída.

"A partir de agora, esta procura que está a ser feita por um acervo disperso está a ser divulgada num contexto institucional. E eu acredito, porque já tivemos esta experiência com o Chalé da Condessa e com a Pena [que também dirige], que muitas pessoas que nos fechavam a casa agora podem dizer eu também tenho coisas do palácio. Essa é a nossa esperança". Esse plano começa em junho, mas é, admite o diretor, "tarefa de anos".

Sir, voraz colecionador de arte, apaixonado por Sintra

O tríptico Lamentação sobre o Corpo de Cristo, de Grão Vasco, é, nesta exposição no Palácio de Monserrate, a exceção que confirma a regra de mostrar apenas as obras que fizeram parte da vivência de Francis Cook em Sintra. Comprado em Portugal, foi levado para Inglaterra e é testemunho da sua faceta de grande colecionador, como se lê nas palavras de Maria João Neto no catálogo."A sua enorme fortuna, constituída com particular perícia na indústria têxtil, serviu-lhe para adquirir, vorazmente, belíssimas obras e torná-lo uma referência no meio cultural e artístico britânico, permitindo-lhe o reconhecimento social e a nobilitação como baronete."

Em 1901, data da sua morte, Doughty House, a sua casa em Londres, tinha três Rembrandts, dois Ticianos e um Leonardo Da Vinci, que foi há pouco tempo notícia. Trata-se do quadro Cristo como Salvator Mundi, que recentemente bateu recordes de vendas em leilão (ao tempo de Cook, a pintura era atribuída a Bernardino Luini).

Nascido em 1817 (é quatro meses mais novo do que D. Fernando II, o outro romântico da paisagem sintrense), Sir Francis Cook tinha 22 anos quando visitou Portugal pela primeira vez. Em 1856, aluga Monserrate, a casa onde tinha vivido William Beckford (que admirava). Adquire a quinta em 1863, entregando a sua renovação a James Thomas Knowles. A propriedade adquirida pelo Estado em 1949, e administrada pela Parques de Sintra desde 2000, tinha 143 hectares.


Monserrate revisitado - A Coleção Cook em Portugal
Palácio de Monserrate, até 31 de maio
Todos os dias, das 10.00 às 18.00
Bilhetes: 7,13 (adulto); 5,70 (6-17 anos e mais de 65)

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