Mário de Carvalho: "Só não ia à Feira se andasse preso ou fugido"

O escritor Mário de Carvalho conta uma das suas primeiras aventuras na Feira do Livro de Lisboa. Que mete "charutos" voadores.

Comecei a ir à Feira do Livro em muito miúdo, pela mão, literalmente, do meu pai. Encontrava-se lá toda a gente e parava-se minuto a minuto para dois dedos de conversa. Eu, impaciente, por ali. As bancas eram altas, eu mal chegava lá. E o pai nunca mais se despachava, a falar com um e com outro.

Desses remotíssimos tempos, guardo uma recordação visual muito forte. Não sei se a memória me trai. Mas brilhava um vivíssimo amarelo sobre azul. O livro, apurei muito mais tarde, era de um tal George Adamsky, figura muito conhecida em certos meios, não por boas razões. Distinguia-se, muito claramente, um disco voador bem desenhado segundo a iconografia da época, dominador e impante. Antigamente esses meios de transporte chamavam-se mesmo «discos voadores», (também havia «charutos»...), não eram cá OVNIS nem UFOS.

A matéria interessava-me vivamente. Nesse tempo, não apenas os marcianos ainda não tinham sido extintos, mas também existiam Venusianos. Para mais, aparecera um disco voador na Serra da Gardunha e os jornais davam grande relevo às descrições de habitantes locais que haviam, garantidamente, presenciado as descidas e dialogado com os extraterrestres. Já nos anos cinquenta a Serra da Gardunha dava que falar. E digo isso com todo o respeito pelos crentes nesse tipo de aparições.

O meu pai não estava muito interessado em discos voadores e não satisfez o meu pedido do livro. Tornei a ver aquela capa e a ser tentado em mais feiras, noutros anos, na Avenida da Liberdade, creio. Sempre em grande destaque. Mas nunca calhou comprá-lo.

Não sei se foi nele que li, na biblioteca dum amigo, a descrição de dois seres louros e angélicos que revelaram a um terráqueo ser oriundos do planeta Vénus. Boa coisa. Nada temais! Mas ultimamente não têm aparecido, ou confinam-se sobretudo a circuitos especializados...

Desde esses tempos de miúdo, por mim, ou acompanhado, nunca mais deixei de ir, com gosto à feira do livro. A não ser que andasse preso ou fugido. Mal adivinhava eu, que a partir dos anos oitenta, lá estaria do outro lado da banca, no meio daquelas então desconfortáveis barracas, caneta expectante em riste. E assim até agora, mas sem dispensar nunca uma volta larga, com grande vontade de ser surpreendido.

O livro que eu queria encontrar na Feira: Estilística da Língua Portuguesa, de Rodrigues Lapa

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