E se Hitler tivesse devolvido Eduardo VIII ao trono?

A partir de uma ideia defendida por alguns historiadores, e que poderia ter criado uma Inglaterra colaboracionista com os nazis é o ponto de partida para o primeiro romance do jornalista José Goulão.

A ideia é defendida por alguns historiadores. Reconhecendo a admiração que se crê Eduardo VIII ter nutrido por Hitler, a ideia de uma "solução" alemã para o Reino Unido, devolvendo ao trono o rei que abdicara em 1936 (por força de se querer casar com Wallis Simpson, uma americana divorciada), podia ter criado uma versão inglesa da França colaboracionista de Vichy, sob o governo do Marechal Pétain. José Goulão, jornalista, mergulhou numa longa investigação sobre aquele tempo e aquelas figuras e Um Rei na Manga de Hitler propõe uma ficção em jeito realidade alternativa que nasce como o seu primeiro romance. E se?..

A seguir apresentamos na íntegra a entrevista que serviu de base ao artigo 'E se Hitler tivesse feito de Eduardo VIII um Pétain à inglesa?', publicado na edição impressa de 8 de junho do DN?

O que o chamou à figura de Eduardo VIII e ao cenário de "conspiração", que alguns historiadores defendem, que o poderia ter devolvido ao trono?

A libertação de alguma documentação de época em Inglaterra, na Alemanha e até nos Estados Unidos e o aparecimento dessa informação tanto de maneira avulsa como até enquadrada em livros e teses inspiraram-me a trabalhar a partir da ideia de que a abdicação de Eduardo VIII em 1936 poderia ser mais do que a componente sentimental, cor de rosa, de choque de costumes palacianos. Passei então à investigação das figuras de Eduardo VIII, depois duque de Windsor, e da senhora Wallis Simpson, e fiquei sinceramente surpreendido com a abundância de indícios que os aproximava de Hitler, Ribbentrop e dos "êxitos" alcançados pelos nazis. Estas tendências convenceram-me do fundamento da hipótese levantada por muitos historiadores de que Berlim imaginou replicar em Inglaterra a "solução Pétain" acabada de aplicar em França e trabalhou nesse sentido através do casal Windsor. A acção teve até nome de código, "Operação Willy", e como os Windsor se encontravam em Cascais nos momentos decisivos, confesso que foi fascinante criar a trama da conspiração através de uma combinação entre factos reais e a reprodução fiel de declarações e reflexões escritas de personagens também elas reais.

Um Pétain inglês teria mudado o curso da guerra e, quem sabe, o mundo como o conhecemos desde então?

Essa é a área proibida aos historiadores, a da adivinhação, mas que não está vedada aos ficcionistas, dentro dos limites do razoável e do senso comum, claro. Não fui por aí porque, embora contrariado, o duque de Windsor se tornou governador das Baamas por exigência de Churchill e o irmão, Jorge VI, o monarca focado no filme "O discurso do rei". Um "Pétain inglês" ou também a tentação da unificação ibérica que assolou Franco, teriam originado outros caminhos para a guerra, quem sabe se outros vencedores. Mas para se chegar a um "Pétain inglês", isto é, um Eduardo VIII reconduzido no trono de Londres sob a tutela de Hitler, seria necessária uma derrota da estratégia de resistência de Churchill. Até que ponto um "sim" franco e claro de Windsor a Hitler poderia alterar a relação de forças entre a resistência de Churchill e as tendências "pacifistas", colaboracionistas" e "capitulacionistas" em Inglaterra, isso nunca o saberemos. Agora que a coincidência em 1940 e 1941 de França e Inglaterra governadas por fantoches de Hitler teria criado uma outra guerra, disso não duvido.

Nas suas memórias Eduardo VIII terá menorizado o que alguns admitem ter sido uma admiração por Hitler. O que se sabe factualmente dessa relação?

A minha investigação para este livro não deixa dúvidas sobre essa admiração, que foi verbalizada por exemplo em 1937 durante uma visita do casal à Alemanha e em que foi recebido por Hitler. As "conquistas sociais" do nazismo impressionaram o duque de Windsor, como confessou, e a senhora Simpson daria até "uma excelente rainha", como Hitler imaginou. No entanto o antigo rei Eduardo VIII foi além disso: chegou a teorizar sobre a necessidade de substituir regimes e classes políticas caducas, numa alusão a Inglaterra, por sistemas inovadores, não deixando dúvidas de que se referia à Alemanha nazi. Repare que já como governador das Baamas, o duque de Windsor não se coibiu de dizer, como aconteceu numa entrevista a uma publicação norte-americana no fim de 1940, que Hitler era "um grande homem" e o seu eventual derrube "seria uma tragédia". Quando estas palavras foram proferidas, a Inglaterra vivia os seus piores dias sob a ofensiva aérea nazi, feita a partir de um imenso arco continental que ia de França à Noruega. Existem ainda algumas histórias mal contadas e nunca decifradas sobre negócios feitos a partir das Baamas com expoentes hitlerianos, entre eles o próprio Goebbels. Claro que as memórias de Eduardo VIII foram escritas noutro contexto, com tudo decidido e sedimentado, seria de admirar se o autor não as adaptasse a esse contexto. O que todos sabemos é que Churchill o manteve como governador das Baamas exactamente até ao final da guerra, em 1945. Sempre em regime de obediência ao governo.

Um Chamberlain em vez de Churchill como Primeiro Ministro teria igualmente consequências distintas na evolução da guerra (e da eventual relação do Reino Unido com Eduardo VIII)?

Claro que poderia ter, dependendo do modo como se rearrumassem as forças no interior do governo de unidade nacional. Chamberlain, como Lorde Halifax, o ministro dos Negócios Estrangeiros do próprio Churchill, eram da tendência "pacifista", que no limite coincidia com as posições do duque de Windsor e que se resumiam a esta ideia: a Inglaterra não tem como escapar à derrota na guerra contra Hitler e a única solução é negociar para impedir mais mortes de civis. Chegou a haver negociações por intermédio da Suécia, mas há que fazer justiça a Chamberlain, uma vez que as suas posições à partida não eram as de uma "solução Pétain". O que aconteceria, porém, em negociações com Hitler na posição de força que este tinha? Muito provavelmente qualquer coisa parecida com o que sucedeu em França. Não é difícil, a partir deste imbróglio, sentir admiração pela coragem de Churchill nos dias decisivos, uma coragem que os seus críticos comparavam a uma vocação suicida...

Como investigou o mapa político e as personagens daquele tempo para preparar o romance?

Com tempo e muito trabalho. Este livro demorou anos a produzir, e aqui tenho de reconhecer o papel determinante que o dr. Guilherme Valente, o editor e proprietário da Gradiva, teve e tem nesta obra. Acreditou na ideia explicada numa pequena "sinopse" verbal e, sem pressionar mas com uma persistência manifestada de tempos a tempos, aguentou estoicamente as minhas sucessivas quebras de compromissos de datas de entrega do manuscrito e nunca me deixou desistir. Não foi um livro produzido a tempo inteiro, mantive e mantenho o meu trabalho jornalístico por razões óbvias, ainda para mais nos tempos que atravessamos, pelo que este romance é fruto de horas extraordinárias, digamos assim. Li muitos jornais de época, portugueses e estrangeiros, vi fotografias, filmes, documentários, falei com muitas pessoas, enfim mergulhei a sério nos tempos vividos uma, duas décadas antes de ter nascido, tentando tirar proveito de memórias de infância relacionadas com o que teve continuidade. E num país tão parado como Portugal esteve não faltaram nos anos cinquenta e sessenta réplicas do ambiente em que se vivia em trinta e quarenta.

Retrata ainda lugares da Lisboa de então, do Café Gelo à Brasileira... Até mesmo com figuras da época... Como preparou essa viagem no tempo?

O meu trabalho de investigação foi global. Não procurei separar a guerra da sociedade, as figuras públicas das personagens comuns. Tentei sentir-me a viver nas épocas da narrativa mesmo sem as ter vivido. Repare que nestes tempos somos uns privilegiados em relação a escritores de outras épocas, existe um espólio de conhecimento fruto do desenvolvimento mediático, de investigação e cultural que põe à nossa disposição instrumentos fabulosos para reprodução de realidades anteriores à nossa e, naturalmente, também para a ficção. Mas tive um cicerone de luxo, o meu sogro, Mário Henriques dos Santos, que infelizmente já não pode reencontrar-se neste trabalho para que tanto contribuiu. Grande parte da Lisboa do romance é a dos olhos dele, menino que chegou à cidade grande com dez anos, no fim da década de vinte, para começar a trabalhar em condições de enorme dureza, e que muito e depressa aprendeu o que me transmitiu em roteiros a perder de vista, mesmo quando a saúde já o atraiçoava.

Sente que o rigor que o trabalho jornalístico exige, e ao qual está habituado, moldou a sua forma de assegurar um espaço verosímil para ali criar a ficção?

Sem qualquer dúvida. Daí o valor que dou aos factos reais, às reproduções de citações e ideias que faço. As falas das personagens reais deste romance são transcrições rigorosas. Não criei depoimentos para essas pessoas. O enredo é ficcionado a partir daí e em torno disso, sem interferir no percurso da História universal tal como a conhecemos. Isto é, tentei inserir pessoas e factos reais numa narrativa ficcionada que não alterou o curso da História. Nem Windsor foi o "Pétain inglês", mas esteve mais próximo disso do que pode pensar-se, nem deixou de ser o governador das Baamas, mas nem por isso deixou de ser admirador da "obra" nazi, como tantos ignoram e outros tentam esconder.

E porquê um romance e não um livro de ensaio sobre a figura de Eduardo VIII no tempo da II Guerra Mundial?

Se calhar por circunstâncias da minha própria vida. Ambicionava escrever um romance. Felizmente tenho um espólio profissional que me motiva, tive a sorte de correr mundo nas mais variadas situações, e não há escola como essa. Sinto que tenho hoje uma visão cada vez mais aberta do mundo, das realidades, das hipocrisias, do inquietante retrocesso social, da irresponsabilidade até de gente com muito poder. Quero que essa experiência saia das gavetas materiais e electrónicas dos meus arquivos tal como o manuscrito de Jaime Simão saiu do seu sono cinquentenário. Como disse, começaram a surgir-me dados intrigantes sobre o casal Windsor e a sua permanência na Península Ibérica e a investigação foi por aí adiante, cada vez mais surpreendente, mais fascinante, se calhar ainda hoje estava a desenvolvê-la se não tivesse decidido parar para passar à escrita. E mesmo assim a paragem nunca foi total, a história foi-se modelando enquanto escrevia, às vezes tive a sensação estranha de que algumas personagens me fugiam... Acho que um ensaio não responderia à riqueza da realidade desses tempos nem permitiria à história ter a agilidade que lhe é dada pela ficção. Há muitos ensaios e provavelmente há ainda mais romances sobre a época. Mas o espaço de criatividade é inesgotável quando se parte para um romance. Foi isso que me cativou e me encantou.

Lisboa era, de facto, uma cidade "neutra"? Em "Casablanca", por exemplo, surgia citada à distância. A cidade poderá ainda acolher mais narrativas sobre esta época?

Lisboa tinha os seus espaços de neutralidade, uma vez que aqui conviviam no mesmo território os inimigos que se combatiam em armas lá fora. Mas não dou acolhimento ao sofisma da neutralidade oficial. Até o regime tinha as suas tendências, mas é nítido que a estrutura do Estado Novo se sedimentava de acordo com as organizações sociais hitlerianas e mussolinianas. Repare nas situações da Legião, da Mocidade Portuguesa, nos discursos oficiais, no tratamento das massas, tudo de inspiração sobretudo alemã. Note como isto coincidia com a visão do duque de Windsor sobre as necessidades de renovar os sistemas políticos. Neutralidade oficial era, claro, oportunismo puro e simples, estar de bem com quem ganhasse e entretanto ir fazendo negócio com as partes em guerra. Pelo caminho espezinharam-se alguns dos sacrossantos "princípios da nação", como o da "velha aliança" com a Inglaterra. Leia-se o que responsáveis ingleses diziam e escreviam, nas linhas e nas entrelinhas, sobre o comportamento do salazarismo. Aprende-se muito sobre o fascismo português. E, claro, haverá sempre espaço para mais obras sobre aqueles anos. Ensaios, romances, contos, filmes, novelas... Creio que o tratamento de épocas com a pujança, trágica infelizmente, como a retratada neste romance é inesgotável, tão inesgotável como a criatividade humana.

Há ainda a presença do tempo presente no livro. Aproveitando até para falar do jornalismo no presente. É assim uma forma do jornalista comentar o meio como hoje o vivemos? Há também no livro referencias ao jornalismo dos tempos em que a história central decorre e a sua relação com a propaganda.

Sou e serei jornalista, mesmo desejando continuar a escrever romance, e para tal temas não me faltam, felizmente. Vivo a minha profissão de forma apaixonada e, por isso, não consigo deixar passar as malfeitorias de que é alvo, seja nos anos quarenta, seja agora, provavelmente bastante mais refinadas. Só por ingenuidade e má fé se pode achar que a questão da propriedade dos meios de comunicação social e da cultura empresarial pura e dura é inócua perante questões como a liberdade de expressão ou os direitos à cultura e à informação. Da mesma maneira que a multiplicação da instabilidade e da precariedade na profissão de jornalista, como em qualquer outra, aliás, são atentados, em primeiro lugar contra os direitos humanos e de cidadania e, no caso jornalístico, contra a plena liberdade de informar. A ameaça de desemprego e o próprio desemprego são, no limite, instrumentos censórios, não vale a pena disfarçar. Não ficaria de bem comigo, enquanto jornalista, escrever fazendo de conta que não existem graves realidades que afectam a própria escrita. E acho que um percurso através do tempo presente numa narrativa como esta ajuda a fazer uma ponte que nos torna parte da história e nos faz perceber que havendo coisas que mudaram, e muito, em três quartos de século, outras nem tanto e algumas até começaram a andar para trás.

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