La Féria: "Não é um espetáculo sobre mim. Eu sou uma metáfora."

O encenador Filipe La Féria pegou nas suas memórias e fez "O Musical da Minha Vida", no Casino Estoril.

A primeira memória que Filipe La Féria tem de ver teatro é do espetáculo A Fera Amansada, de Shakespeare, no Teatro Monumental, em Lisboa, "com a grande Laura Alves, uma atriz grande de mais para um pequeno país como este". O encenador lembra-se que "era muito novo". Era mesmo. Deveria ter uns sete anos. "A minha avó era casada com o Camilo Alves que era sempre patrocinador de várias peças e portanto era muito fácil arranjar bilhetes para ir ao teatro", conta. A partir daí, não mais parou de ver espetáculos e de sonhar com o dia em que pudesse também subir a um palco. "Sempre quis fazer teatro. O mundo sempre me pareceu pequeno e imaginava uma outra realidade."

Esse espetáculo é uma das memórias evocadas n"O Musical da Minha Vida, que La Féria estreou esta semana no Salão Preto e Prata do Casino Estoril. Um musical que, como o nome indica, se inspira na vida do seu criador. "Não, não há nenhuma personagem que seja eu", ri-se La Féria. "Não é a história da minha vida. É inspirado nas minhas recordações, mas não só. É feito como se fosse tirado dos meus sonhos, das minhas memórias, das minhas dores, das minhas angústias. Mas também da minha alegria, da minha força, da minha vontade de vencer tudo e todos." É um espetáculo onde as memórias de La Féria servem de pretexto para contar a história do país.

Do cinema da aldeia aos Beatles

A viagem vai lá atrás, ao tempo antes do seu nascimento. "O meu pai, enamorado pela minha mãe, que era uma cinéfila, ofereceu-lhe uma máquina de projetar. Essa máquina foi uma janela para o mundo. E foi depois posta num celeiro, transformado em cinema para a população", conta. "Tive uma infância feliz, uma família extraordinária, que me deu asas para poder voar." No palco, as memórias pessoais confundem-se com a memória do país. A rádio, a música, os livros. "Nós somos sempre o produto do que vemos, do que vivemos. E do que sentimos e rimos."

Lá estão a memória da primeira viagem a Paris e os fados da Amália. "Acho que as pessoas se vão identificar. As pessoas da minha geração foram hippies, todos gostámos dos Beatles e do Elvis Presley, todos ouvimos a Piaff, todos enlouquecemos com o Hair. É uma grande viagem que proponho a todos os espetadores. Entrar na Cidade de Esmeralda, como no Feiticeiro de Oz , que é um filme que também é referido aqui."

"Não é um espetáculo para falar de mim. Eu sou uma metáfora, sou um Zé ninguém que gosta de fazer teatro. Não vou contar os amores e as paixões, isto não é uma telenovela, é a história do meu sonho de poder transportar para o palco o mundo. É a história de um alentejano que nasceu há já 70 anos e que tem 50 anos de teatro que se comemoram este ano", diz. Meio século desde a estreia como ator no Teatro Nacional D. Maria II, a fazer o espetáculo do quarto centenário de Gil Vicente, da companhia Amélia Rey Colaço. "Tive a sorte de me estrear com o crème de la crème do teatro português, desde a Palmira Bastos até ao Raul de Carvalho, que era primeiro ator, quando o Teatro Nacional era de facto o ex-líbris da cultura portuguesa."

A carreira de La Féria é marcada pela diversidade. Trabalhou com o Teatro Estúdio de Lisboa, foi assistente de encenação de Victor Garcia em As Criadas, de Jean Genet, no Teatro Experimental, foi um dos atores de O Misantropo, o primeiro espetáculo do Teatro da Cornucópia. Estudou encenação em Londres, com uma bolsa da Gulbenkian. Na década de 1980 assumiu a direção da Casa da Comédia onde assinou alguns espetáculos inovadores, como A Paixão Segundo Pier Paolo Pasolini ou A Marquesa de Sade. Foi ainda aí que fez What Happened to Madalena Iglesias?, um espetáculo que abriu caminho a um género que tem explorado desde então - o chamado teatro ligeiro (com música e dança) mas também um teatro que olha, mais ou menos ligeiramente, para a história do país e os seus ícones. Como fez em Passa Por Mim no Rossio, como faz agora em O Musical da Minha Vida.

La Féria saiu da vanguarda para se dedicar aos espetáculos assumidamente populares, sejam mais revisteiros (como A República das Bananas, que esteve no Politeama), sejam mais musicais, como aqueles que apresenta no Casino Estoril, e que, diz, estão "ao nível do que se faz na Broadway ou em Las Vegas". E aos que o criticam responde com números: "Tenho conseguido concretizar os meus sonhos graças ao público, a quem não me canso de agradecer. Eu não fui feito pelos políticos nem pela comunicação social. Fui feito pelo público, que adere, que chora, que ri, que se diverte e que ama os meus espetáculos. Não acontece à toa ter um espetáculo seis anos em cena, como a Amália, ou quatro anos como o Passa Por Mim no Rossio."

Com este musical, Filipe La Féria celebra os 50 anos de carreira vividos "sem rede", como os músicos, atores e cantores que atuam no palco, ao vivo. E que fazem acrobacias no ar. "Estamos no trapézio e damos tudo por tudo para voar, não é para cair no chão."

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