José Pedro Croft, o artista à procura do gesto certo

Na Bienal de Artes Plásticas de Veneza, José Pedro Croft regressa à vila operária de La Guidecca, um ano depois de Álvaro Siza ter retomado o seu único projeto na cidade. A obra, Medida Incerta, pode ser vista a partir de quarta-feira.

José Pedro Croft resume numa frase a obra Medida Incerta, que representa Portugal na 57.ª Exposição Internacional de Arte - Bienal de Veneza: "Monumental sem querer ser espetáculo." Fala das suas seis esculturas em vidro - espelhado, amarelo, azul, encarnado - suportadas por vigas e lembra o ponto de partida: "Vamos encontrar uma obra que seja eficaz, para trazer as pessoas da ilha de Veneza. Trata-se de encontrar a medida certa para a Medida Incerta." "Fui atrás do gesto certo para aquele sítio", diz, em conversa com o DN, sobre o que se pode ver, a partir de quarta-feira, nos jardins da Villa Hériot, em La Giudecca.

Para quem vai a Veneza, La Giudecca, aquela ilha que se vê da Praça de São Marcos, é o lugar que os guias incluem na secção "se ainda tiver tempo". Menos turístico, menos evidente, mas o lugar onde Portugal instala a sua representação pelo segundo ano consecutivo. Na Bienal de Arquitetura, em 2016, Álvaro Siza fez o caminho de regresso à sua única (e inacabada) obra na cidade italiana, o complexo de habitação social do Campo di Marte. Era nesta praça que José Pedro Croft devia ter instalado a sua obra, depois de em dezembro de 2015 ter sido convidado pelo curador João Pinharanda.

"O gesto certo para aquele sítio era com o Siza", afirma José Pedro Croft. Falou com o arquiteto e concluiu que usaria vigas, "que têm a ver com o sistema de construção em Veneza, que é por estacas". "Veneza é uma terra pantanosa em que a terra e a lama são material de construção e do homem, o próprio mar está cheio de marcação de estacas, que é o que indica os caminhos. Há [em Veneza] um domínio da engenharia muito avançada para os séculos XII, XIII, XIV. Quando a Europa ainda era muito rural, Veneza olhava para o Oriente. Para fora, para uma Europa de comércio", contextualiza o artista. "Achei que valia a pena falar também dessa fragilidade em permanência que vivemos com grande clareza. No último ano e meio, percebemos que tudo está numa situação de grande fragilidade, desde a eleição do Trump aos migrantes."

Quando a comuna de Veneza decidiu avançar para a conclusão do complexo habitacional de Campo di Marte, agora rodeado de tapumes, Medida Incerta mudou para a villa italiana, a poucos metros, sob jurisdição municipal. "Perde a dureza urbana de que eu gosto e o lado meio marginal de um estaleiro de obra, mas ganha outra coisa. As esculturas ganham porque a relação de escala nunca é abstrata. Uma coisa que é muito grande em casa quando vai para fora fica ridiculamente pequena", explica o artista, no seu ateliê, dois dias depois de três camiões de oito metros de comprimento terem começado o percurso de cinco dias até Veneza.

Obra de engenharia notável

Os jardins da Villa Hériot, construída sobre uma antiga fábrica de sabão, contêm vestígios arqueológicos. Só em janeiro Croft soube o local exato onde poderia instalar as suas esculturas com seis metros por três, dois centímetros de espessura.

"Cada vez que era encontrada uma solução, aparecia um problema de igual valor", diz. "Em Itália, não me deram autorização para fazer sapatas com mais profundidade do que 35 centímetros, que têm de segurar esta estrutura toda, com este vento." Refere-se à superfície de 18 metros quadrados e aos ventos de 150 quilómetros por hora que se podem fazer sentir. "Tiveram de ser reforçadas as vigas, a placa, foi um trabalho de engenharia absolutamente notável. A própria torção do vidro tem de ser garantida de maneira a não quebrar com o vento."

João Pinharanda, ao telefone de La Giudecca, conta que as duas últimas esculturas de Medida Incerta tinham acabado de ser montadas. "É um trabalho extraordinário que me faz pensar se a engenharia não é..." A frase fica em suspenso, explicada logo a seguir. "Por isso é que se diz que as pontes são obras de arte."

Porque não quis José Pedro Croft ir pela via mais fácil, adaptando a sua ideia? "Os artistas trabalham a partir dos constrangimentos. Há uma ideia comum de que os artistas têm uma vida fácil, de dar azo ao seu sonho, quando não é verdade. Os artistas têm de pagar as contas e os impostos igual a qualquer um. O mercado em Portugal é muito frágil, o mercado de colecionadores é quase inexistente, as coleções que existem pouco compram, portanto é um trabalho duríssimo e de resiliência, mas isso sempre foi. Agora, é o sentido da minha vida, portanto não tenho opção."

João Pinharanda, conselheiro cultural na embaixada de Portugal em Paris e convidado pela Direção- -Geral das Artes para a Bienal de Veneza, valoriza a obstinação do artista para com a obra. Repete uma frase já usada, mas que julga adequada para falar da escolha de José Pedro Croft, 60 anos, na representação de Portugal na 57.ª edição da Exposição Internacional de Arte - Bienal de Veneza. "É o artista certo com a obra certa." Conta que não hesitou muito tempo. "Decidi em cinco minutos ou, se calhar, já sabia a resposta." Diz que foi por "razões históricas, tendo em conta os que já tinham sido convidados". A lista inclui João Penalva, João Louro, Joana Vasconcelos, Ângela Ferreira, Francisco Tropa, Noronha da Costa, entre outros.

Quando a Bienal de Veneza terminar, a 26 de novembro, Medida Incerta fará a viagem de regresso a Portugal e ao Norte do país. A obra foi adquirida pela Casa da Arquitetura, em Matosinhos, cuja inauguração está prevista para o final do mês de setembro.

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