Joe e Anthony Russo: "O que podemos oferecer para que as pessoas não fiquem em casa?"

Os irmãos Russo voltam a pegar em Capitão América: Guerra Civil e chega hoje aos cinemas de todo o mundo. Falámos com os cineastas em rigoroso exclusivo nacional

De onde vem o vosso cinema? Dos livros de BD?

Joe Russo (J.R.) - Vem da cultura pop, incluindo a música. Somos viciados.

Anthony Russo (A.R.) - Somos cinéfilos e fãs de BD. Diria que ficámos agarrados a isto graças ao nosso pai que via sempre o Late Show, na televisão. Lembramo-nos de ficar com ele a ver televisão todas as sextas e sábados à noite.

J.R. - Sim, gostávamos ainda muito também dos filmes com o Bogart e do Bucha & Estica!

A.R. - Depois, à medida que crescemos, aproveitámos o facto de vivermos ao lado da Cinemateca de Cleveland. Basicamente, era um cinema de arte e ensaio. Ficámos muito influenciados pela Nouvelle Vague e o Neorrealismo italiano. Tarkovsky é também uma influência.

J.R. - Somos o que se pode dizer uns maluquinhos pelo cinema! Alguns cineastas cresceram a brincar com câmaras, nós não foi bem assim... Só ao chegar aos 20 anos é que começámos a pegar nelas. Foi também importante termos lido o livro do Robert Rodriguez, em que ele ensinava a fazer um filme com sete mil dólares.

A.R. - Claro que não era verdade...

O espectador deve torcer por qual das equipas: a do Capitão América ou a do Iron Man?

A.R. - Bem, a equipa do Tony Stark tem o Tony... Quer dizer, nós ficámos muito entusiasmados com a personagem. Nestes seis filmes Marvel ele já fez uma grande travessia - foi ferido pelo seu ego e narcisismo, mas também já lutou contra o governo. É um tipo muito individualista. Depois do que se passou em Vingadores: Era de Ultron ficou com uma certa culpabilidade devido a tanta destruição. Digamos que chegou a uma fase na sua vida em que acha que o mais certo é deixar-se submeter à autoridade. Depois, por outro lado, temos o Capitão América, que desta vez coloca as suas necessidades pessoais em primeiro lugar e isso é muito interessante. Há momentos em que nos apetece colocar em causa a sociedade, mas há outros em que sentimos o dever de responder perante uma autoridade... É muito divertido termos estas duas personagens a representar estes dois lados.

Sentem que a DC Comics está agora a copiar a "experiência cinematográfica do universo Marvel"?

A.R. - Agora começamos a ver os outros estúdios a olhar para o sucesso desta experiência da Marvel. Nunca se contaram histórias como a Marvel está a fazer com esta narrativa interligada entre os filmes! Ouvimos muitos a querem fazer o mesmo. Ainda não vimos Batman vs. Super-Homem, mas queremos ver! Mas estivemos muito ocupados a acabar este filme. É muito difícil fazer resultar um universo temático com todas estas ligações. Estou para ver se este modelo pode ser usado por outros estúdios de Hollywood...

J.R. - Acho que o que vai fazer que as pessoas saiam de casa é o desejo de ver a evolução de um produto que já conhecem. Façamos as contas: com a Netflix ou a Amazon, pagamos 14 dólares por mês e podemos ficar em casa a ver tanta coisa! Só num fim de semana podemos papar logo a temporada inteira do House of Cards! E atenção que a qualidade dessas séries e filmes vai melhorar. Os estúdios têm de pensar: o que podemos oferecer para que as pessoas não fiquem em casa? Por isso é que todos querem criar estes universos temáticos. É preciso comprar o espaço no calendário. Depois do sucesso de Deadpool, vão tentar que em fevereiro surja sempre um filme com personagens desse universo. Depois, temos Star Wars, que já reservou o Natal dos próximos 20 anos, enquanto a Marvel é dona de maio e novembro.

Não são super-heróis a mais?

J.R. - Isto está tudo ainda a crescer! Os nossos filhos já vão ter uma compreensão diferente da nossa. Uma perceção que é alimentada pelo YouTube e pelo Vine. O que eles veem vai ter uma média de duração de quatro minutos... Será que eles não vão querer crescer com um universo temático de filmes que alimente dez ou mais anos das suas vidas, acompanhando uma personagem? Já neste nosso filme podemos perceber que certas personagens tocam emocionalmente muito as pessoas. Não tivemos de nos esforçar para contar o que está para trás na vida destes super-heróis, não é preciso: os fãs conhecem-nos! Se contássemos o historial de todos os super-heróis, o filme ficaria com sete horas. Quem sabe onde isto vai parar? Estamos a viver tempos interessantes e entusiasmantes e tudo pode mudar. Este é um puro produto de um universo interligado.

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