Já teve "cara d'anjo", agora é só Luís Severo

A palavra certa, embora ele não goste muito dela, é "cantautor". Tem 25 anos e lançou este ano o disco "Luís Severo", depois de em 2015 ter feito "Cara d'Anjo".

Chega a Santa Apolónia com uma mochila às costas e apanha o comboio para uma terra qualquer. Desde que haja um teatro e um piano, pode haver um concerto de Luís Severo. "Cada vez me sinto melhor em palco. Ao início sentia que cada concerto era como uma guerra, tocava muito em clubes e as pessoas ou não me conheciam ou não gostavam, e quando ia para palco sabia que tinha de conquistá-las. Agora já não é sempre assim. Já consigo tocar em teatros, já há pessoas que vão lá para me ver." Mesmo que não sejam (ainda) multidões.

Luís tem 25 anos mas já é difícil fazer a contabilidade aos discos que já lançou. Nunca fez covers, isso não lhe interessava. "O que eu queria era fazer canções. Queria compor as minhas músicas e escrever as minhas letras e cantá-las, uma coisa vinha com a outra", conta. Por isso, não começou por ter bandas com amigos. Começou sozinho, em frente do computador. "Eu tinha uns 15 anos e havia o MySpace, que era uma rede social focada na música. Eram músicos a fazer música para outros músicos. E um dia eu decidi também mostrar as minhas músicas. Como era só na Net, nem fotografia minha tinha, não me expunha. Fazia o que me apetecia, de uma forma completamente impulsiva, com guitarra, com beats, tudo muito mal tocado", recorda.

Começar assim tão novo teve duas vantagens: "Uma é que se tem tempo, a outra é que nesta idade uma pessoa muda tão depressa que a cada ano eu já estava a fazer coisas que não tinham nada a ver com a anterior. Fiz um disco de pop, depois fiz um disco de rock, depois de eletrónica. Eu queria experimentar tudo." Esses discos, lançados ainda sob o nome Cão da Morte eram isso mesmo: experiências. "Se for ouvir as minhas canções antigas identifico muito poucas coisas que sejam boas. Não há nada. Mas sei que se não fosse isso não teria chegado aqui. Estava à procura. Fui aprendendo com os erros."

O primeiro disco assinado por Luís Severo foi Cara d"Anjo, lançado em 2015 quando ele estava a terminar o curso de Sociologia mas já sabia que não queria ser sociólogo. Era o tudo ou nada. E foi tudo. Canta em português, não por qualquer manifesto de defesa da língua portuguesa, mas porque sente que não tem outra opção. "Não foi uma escolha, foi uma inevitabilidade." Canta num português limpo, obcecado com a pronúncia correta de todas as palavras, sem concessões às rimas. Um crítico chamou-lhe "o Messi do nacional-cançonetismo". Ele ri-se.

"Eu naturalmente sou mais ligado à letra, mas neste último disco impus a mim próprio fazer de outra maneira. Senti que precisava disso. De me libertar das minhas fórmulas." "Fui moço, já sou homem", canta em Amor e Verdade, um dos temas de Luís Severo, o disco que lançou este ano. Canta sobre a sua experiência, que é a experiência de uma geração inteira, que procura um emprego, que tem sonhos, que se apaixona, que percorre as ruas de Lisboa, de Alvalade à Penha de França, uma experiência urbana facilmente reconhecível ("que isto aqui é Lisboa, cada qual que se defenda", ouve-se em Olho de Lince). "As canções não são só a minha história, isso seria aborrecido e egocêntrico", explica. Este é, dirão os críticos, o tal disco da maturidade. Mas para ele é só mais um passo. "No dia em que eu sentir que não estiver a evoluir, alguma coisa está errada. Gosto de sentir a dificuldade. Faz-me falta essa sensação de ir para um terreno que não conheço." De apanhar o comboio e ir para a guerra.

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