"Já dizia o Zé Embirra: não sei do que é que se trata, mas não concordo"

Na sexta-feira, Vitorino sobe ao palco do São Luiz e leva com ele muitos amigos. Aprendeu a partilhar palcos nos tempos de José Afonso. Como escreveu José Gomes Ferreira: "Nunca vi um alentejano cantar sozinho".

O título do concerto é "Não sei do que é que se trata, mas não concordo". Li que a frase é do Zé Embirra. Quem é o Zé Embirra?

Era um homem interessantíssimo, um carpinteiro austero. Falava pouco, bebia muito e tinha uma forma de beber peculiar. Na minha terra pratica-se muito vinho e havia um culto da taberna quase obsessivo. Talvez porque as casas não eram confortáveis, ficavam na taberna até se irem deitar.

Só os homens?

As mulheres só bebiam em casa, talvez. A taberna era amaldiçoada do púlpito, porque era um espaço onde se conversava e se resolvia muitas coisas. Os arquitetos deviam aprender com os taberneiros a desenvolver espaços de convívio confortáveis e atraentes, as tabernas eram espaços muito bem organizados do ponto de vista do conforto humano. Este homem e muitas personagens que eu conheci na vila do Redondo tinham uma escola e uma ética de beber vinho que era de cada um e que também se juntava a todos. O Zé Embirra era um solitário a beber vinho.

Quando é que ele disse a frase?

Uma vez, numa assembleia geral do Redondense Futebol Clube, assim que entrou pediu a palavra e disse: "Não sei do que é que se trata mas não concordo". O presidente da assembleia geral queria pô-lo na rua mas os outros começaram a dizer "deixa lá ficar o homem". E essa frase ficou, ainda hoje corre no Redondo. O povo português pratica-a muito. Há um ser etéreo, sem consistência material, que é o culpado de tudo: "eles". A sentença do Zé Embirra cabe nessa forma de pensar. Há décadas, praticava-se a mentira e a intriga ao nível mais alto dos poderes. Agora pratica-se no quotidiano.

No quotidiano das pessoas comuns?

No quotidiano dos poderes que foram baixando o nível e se foram espalhando. Nunca sabemos do que se trata. Há sempre muitas versões e temos a tendência para não concordar, porque não sabemos. O Zé Embirra andava de fato-macaco e boina, era anarquista sem saber. Veio trabalhar como carpinteiro para Lisboa, no Hospital da Ordem Terceira. Eu andava na Escola de Belas Artes e divertíamo-nos a falar da vila e bebíamos copos à maneira de beber de lá.

Conseguiram encontrar uma taberna como as de lá?

Os bêbedos do Redondo que vieram para Lisboa descobriram uma taberna próxima do que eles achavam que era, na Madalena, e juntavam-se todas as tardes os mesmos. Eram artesãos - oleiros, sapateiros - e muitos vieram trabalhar na CUF do Barreiro. Agora os transportes são fáceis e trazem a linguiça e o pão, coisas frescas para os mercados da Margem Sul, para a Amadora e para o Alto da Parede, onde há comunidades muito grandes. Procuram organizar tabernas com o mesmo ambiente e há mais de 20 grupos corais alentejanos à volta de Lisboa. Tal como os ingleses, que levavam tudo para onde iam, os alentejanos levam a forma de estar.

Vai trazer para o concerto o grupo Camponeses de Pias.

O cante alentejano é muito erudito. Quando é bem cantado, a composição é muito boa, o texto é de um grande saber. O alto é um personagem único e tem de ser exímio porque improvisa sobre 20 e tal vozes, numa terceira ou numa quinta acima. Isso é espontâneo.

Quando trabalhavam, homens e mulheres cantavam juntos?

Sim, o cante alentejano é dos trabalhadores e das trabalhadoras, mas elas não iam às tabernas nem às casas do povo. Depois do 25 de Abril, vingaram-se e criaram dezenas de grupos corais só delas que são fabulosos. É uma sonoridade de vozes femininas lindíssimas que não havia antes, elas não se juntavam para cantar. Ou cantavam com os homens ou estavam em casa a fazer o jantar.

Volto aos Camponeses de Pias...

Quero balizar e avaliar as distâncias entre um cante rural perdido no tempo e o extremamente urbano do Manuel João Vieira, do Samuel Úria e da Ana Bacalhau. A Ana canta maravilhosamente, o Samuel é um miúdo com grande talento e capacidade de composição. Também vai a Filipa Pais que esteve comigo na Lua Extravagante e a Ana Vieira, uma cantora de excelência. Quero mostrar o que há de mais sofisticado, porque o grande homenageado é o Manuel João Vieira.

Como funciona essa ligação consigo, que tem uma presença austera?

É uma ligação muito velha, ainda ele era jovem quando começou - ele é um adolescente, é uma puberdade eterna. Eu era muito amigo do pai dele, o pintor João Vieira. O Manuel João toca bandolim no meu disco Leitaria Garrett. Nos meus concertos dos anos 80 ele está sempre e ainda hoje faço espetáculos com ele. Íamos muito ao Maxim, o pai dele cantava velhos boleros de Cuba e do México, até gravou um disco. O Manuel João é um pintor exímio, faz uma pintura séria e delirante que passa pela banda desenhada. Toca maravilhosamente bandolim e guitarra, canta, improvisa - há concertos em que o delírio é altíssimo. Não lhe vou tirar isso, vai para o palco do São Luiz como ele é, não o espartilho. E eu sou o oposto.

O concerto terá esses contrastes?

Vai ser este caldo perigoso e cheio de malaguetas, mas nós dominamos bem o palco, estamos habituados, e a relação com os públicos também a praticamos.

Esta partilha do palco num concerto vem dos tempos em que cantava com o Zé Afonso?

O Zeca era toda a candura, mesmo no palco. Morreu sem saber o que é o palco mas a dominá-lo espontaneamente bem. Chegava a esquecer-se dos textos em meio - "Janita, acaba tu" - e o Janita estava a tocar viola e acabava a cantar. Com o Zeca, éramos cinco ou seis cantores e entrávamos logo, sentados ali à espera. Essa partilha é criada por ele, deixou-nos essa escola.

Vai ser assim na sexta-feira?

Sim, porque sou preguiçoso e assim canto menos... Não é por isso, até porque sozinho canto 27 canções seguidas. Ainda tenho essa capacidade física, porque tenho endurance, canto muito.

Foi estudar para Belas Artes porque queria ser pintor?

Gostava de ser pintor e fui para Paris a perseguir umas escolas ligadas à banda desenhada, ao Charlie Hebdo, ao Hara-Kiri, e para ver se conseguia relacionar-me com os italianos. Estava encantado com o Hugo Pratt, o criador do Corto Maltese. A última vez que peguei nos pincéis ilustrei um livro juvenil do António Lobo Antunes, A História do Hidroavião [2005].

Em Paris juntou-se ao Zé Afonso?

Sim, o Zeca gravou em Paris e estavam lá o Sérgio Godinho, o Zé Mário Branco, o Fanhais. Faziam sessões para a imigração portuguesa, às vezes para pouca gente. Depois do 25 de Abril, requisitavam-nos muito, aí já havia uma onda de curiosidade. E cantei muito na rua.

Como é cantar na rua?

Era fabuloso, havia muito menos ruído do que agora, menos carros. A relação com as pessoas é muito interessante e, numa cidade cosmopolita como Paris, são muito generosos a pôr dinheiro nas boinas.

Comecei a viver da música porque era mais prático, não precisava de me levantar cedo. Vivia em casa de um amigo, o Renato Cruz, ao pé da redação do Charlie Hebdo. Encontrávamo-los ali em pequenos restaurantes. Cheguei a cozinhar para eles, fiz migas com carne de porco, mas não gostaram muito. Aquilo não fritou bem e não tinha pão alentejano.

Deixou a pintura?

A música dava para sobreviver. Aos 20 anos sobrevive-se com dez tostões, dorme-se onde calha. Tinha muitos amigos clochards [sem abrigo], encantava-me eles estarem sempre tão bem dispostos. Disse: vou começar a viver como eles. Gostavam de mim porque lhes levei chapéus alentejanos, muito bonitos, de Estremoz . A cloche da Place de la Contrescarpe tinha toda chapéus alentejanos! Experimentei beber o vinho péssimo, dormir ali. Não consegui, tive de me ir embora. Nesse tempo podia-se fazer destas coisas e andar à boleia. Os que davam boleia gostavam de dar e os que a apanhavam também gostavam.

Quantos anos viveu em Paris?

Ia e vinha. Organizei uma expedição para Katmandu, éramos quatro portugas. No Pireu dividimo-nos, ficámos dois e uma americana. Apanhámos para Haifa um barco mercante turco, pagava-se 20 dólares. Levámos farnel e o saco de dormir, dois dias. Fui para uns kibutz, mas tinha no passaporte o visto israelita, não podia sair dali.

Não foi a Katmandu?

Não consegui ir, fiquei por ali. Ainda fui à Turquia, que era permissiva, e fiquei nas ilhas gregas uns meses. Voltei porque o Janita vinha da guerra colonial e eu queria vê-lo.

O Vitorino não foi à guerra?

Não fui por uma questão de sorte logística, a maior parte ia eu fui dos que não foram. Às vezes tinha vontade de ter ido, que idiotice. O Janita sempre disse horrores, ele e o Lobo Antunes têm péssimas experiências da guerra e ótimas memórias da camaradagem que está para além da amizade. É uma coisa que o exército português tem e cultiva.

Já ouvi a canção Não sei do que é que se trata mas não concordo e achei curiosa.

Tem um programa de propostas, porque eu sei do que é que se trata. Trata-se de viver bem e da felicidade, uma felicidade exigida. Temos de respeitar o compromisso que a natureza tem connosco. É isso.

Com isso concorda?

É só com o que concordo.

Achei curioso o coro.

É um coro distorcido para megafone.

Quem concebeu esse arranjo?

É o meu núcleo, com o Sérgio Costa e o Rui Alves, vamos desenvolvendo. Por isso é que eu demoro muito tempo. Essa canção levou uns meses. Vai-se cortando, vai-se pondo. É um disco lento.

Quando sai o álbum?

Espero tê-lo aí na primavera.

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