Ver um espetáculo enquanto se bebe um copo de ginjinha

O Teatro das Compras volta amanhã às lojas antigas da Baixa de Lisboa.

A mulher está ali ao balcão a beber uma ginjinha. "Saudinha da boa! Isto é bebida sanguínea, peitoral e digestiva", anuncia, elevando o copo. Vem aqui todos os dias. Apanha o 28, desce na rua da Conceição, faz o resto do caminho a pé para vir beber uma ginjinha (ou duas, ou três) às Portas de Santo Antão. "Enquanto dou beijinhos no copo não penso em cemitérios. Não pensar em mortos é um trabalho como outro qualquer." E pede ao senhor Abílio que lhe sirva mais um daqueles copos pequenos. Um euro e 40 cêntimos pelo licor de produção própria da casa Ginjinha sem rival, aberta desde 1890.

A história desta mulher não é real. Ela é a atriz Sílvia Figueiredo e as palavras que diz são do escritor Sandro William Junqueira. Trata-se de um dos eventos do Teatro das Compras, iniciativa integrada nas Festas de Lisboa e que vai já na sua oitava edição. A história desta mulher não é real mas poderia ser. Abílio Coelho está ao balcão da Ginjinha sem rival há já 44 anos e tem clientes assíduos, que aparecem todos os dias, mais ou menos à mesma hora para beber uma ginjinha ou um Eduardinho, que é um licor exclusivo da casa, feito com anis e várias ervas. "Antes abríamos às 7 horas da manhã e havia pessoas que vinham a essa hora. Outros tempos. Agora estamos abertos das 8 da manhã até à meia-noite. Há clientes que começaram a vir cá com os pais e os pais vinham com os avós."

Nos últimos anos, aumentaram os turistas. Aparecem com um mapa de Lisboa na mão ou vêm integrados em tours gastronómicas, para provar a bebida típica de Lisboa. A atriz Sílvia Oliveira chega-se ao balcão e começa a sua interpretação. Os clientes surpreendem-se com aquela mulher que começa a falar um bocadinho mais alto sobre um tal Vladimir Piotr que se costumava sentar ali em frente, na rua, a cantar. "Ele hoje não veio, pois não?" E detrás do balcão, o senhor Abílio responde: "Não, não veio." Pessoas entram, bebem e saem, Sílvia diz-lhes bom dia e continua o seu monólogo. "Ou isto é tudo ginja da minha imaginação?"

Não é a primeira vez que a Ginja sem rival integra o roteiro do Teatro das Compras, mas há lojas que participam pela primeira vez, como a Filatelia Molder, a Primeira Casa das Bandeiras, a Marques e Sequeira Lda ou a retrosaria Arqui Chique.

Contra o encerramento das lojas

O programador Giacomo Scalisi não se cansa de passear pela Baixa e de entrar em todas as lojas à procura de espaços para cada edição. "Já trabalhámos com mais de 40 lojas da Baixa e todos os anos encontro lojas novas para o roteiro", explica. Mas está cada vez mais difícil. "Nos últimos anos, pelo menos umas 15 lojas com que trabalhámos fecharam, entretanto. A drogaria Pereira Leão, por exemplo, era quase um símbolo do Teatro das Compras e o seu encerramento custou-nos muito. Esta transformação da Baixa está a ser muito rápida", lamenta. "Quando começámos, o nosso objetivo era trazer pessoas para a Baixa, que estava a ficar desertificada. Agora queremos defender estas lojas, para que não desapareçam. Tornou-se um projeto político."

Os escritores convidados para esta edição foram Dulce Maria Cardoso, Sandro William Junqueira e Jorge Palinhos. "É a primeira vez que colaboramos com estes escritores e também é a primeira vez para todos os atores", explica Giacomo. Atrizes, todas: Cláudia Andrade, Cláudia Gaiolas, Custódia Gallego, Flávia Gusmão, Leonor Cabral, Maria Ana Filipe, Marta Cerqueira, Mónica Calle Sílvia Figueiredo. Um acaso. "As pessoas podem ver só um espetáculo, mas se forem ver mais podem ter algumas surpresas." É que cada escritor escreveu para três espaços e as histórias estão ligadas. É provável que a rapariga sem perna que está na Filatelia Molder já tenha aparecido antes, no Hospital das Bonecas. É provável que a figura de gabardina e botas ortopédicas que foi vista à frente da Ginjinha seja referida na retrosaria Bijou.

Para Luís Santos e Cármina Correia, os dois funcionários da Filatelia Molder, a experiência tem tudo para correr bem. Situada no último andar de um prédio a cair de podre, numa das ruas mais movimentadas da cidade, a loja debate-se com a falta de clientes e o desinteresse das novas gerações pelo colecionismos. "Os miúdos nem sabem o que é um selo, as cartas já não trazem selos, como é que hão de querer colecioná-los?", pergunta Cármina, que ali trabalha há 67 anos, e que continua a trabalhar enquanto se faz teatro à sua volta.

Nas vitrinas que forram os corredores estão selos coloridos, lindos, de todas as partes do mundo. É por entre eles que Mónica Calle e Leonor Cabral dizem o texto de Dulce Maria Cardoso - reflexão sobre o valor que as coisas têm ou o valor que damos às coisas. Se alguém subir aquelas escadas escuras pela primeira vez e perder algum do seu tempo a ver estas raridades, antes desta loja fechar "como todas as outras", já terá valido a pena fazer este Teatro das Compras.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".

Premium

António Araújo

Virgínia, a primeira jornalista portuguesa

Estranha-se o seu esquecimento. É que ela foi, sem tirar nem pôr, a primeira jornalista portuguesa, a primeira mulher que exerceu a profissão de repórter nos moldes que hoje conhecemos. Tem o seu nome nas ruas de algumas localidades (em Lisboa, no bairro de Caselas), mas, segundo sei, não é sequer recordada pela toponímia da sua terra natal, Elvas, onde veio ao mundo às cinco da madrugada do dia 28 de Dezembro de 1882. Seu pai era oficial de Cavalaria, sua mãe doméstica (e também natural de Elvas), seus irmãos militares de fortes convicções republicanas; um deles, Carlos Alberto, chegou a estar na Rotunda em Outubro de 1910 e a combater as tropas de Couceiro por bandas de Trás-os-Montes.

Premium

Marisa Matias

É ouro, senhores

Chegar à União Europeia não é igual para toda a gente, já se sabe. Em vários países da União Europeia - treze mais em concreto - ter dinheiro é condição de porta aberta. Já se o assunto for fugir à morte ou procurar trabalho, a conversa é bem diferente. O caso a que me refiro é o dos vistos gold. Portugal integra a lista de países com práticas mais questionáveis a este respeito. Não sou eu quem o diz, os dados vêm do Consórcio Global Anticorrupção e da Transparency International.

Premium

Germano Almeida

Parlamentares

A notícia segundo a qual dois deputados nacionais ultrapassaram a fase dos insultos verbais e entraram em desforço físico junto ou dentro do edifício do Parlamento correu as ilhas e também pelo menos a parte da diáspora onde chegam as nossas emissões, porque não só a Rádio Nacional proporcionou ao facto abundante cobertura, como também a televisão lhe dedicou largos 22 minutos de tempo de antena, ouvindo não só os contendores como também as eventuais testemunhas da lide, e por fim um jurista, que, de código em punho, esmiuçou a diferença entre uma briga e uma agressão pura e simples, para concluir que no caso em apreço mais parecia ter havido uma agressão de um deputado a outro, na medida em que tudo levava a crer ter havido um único murro. Porém, tão bem aplicado e com tanta ciência, que não houve mais nada a fazer senão conduzir o espancado ao hospital para os devidos curativos. E para comprovar a veracidade do incidente mostrou, junto a uma parede, uma mancha de sangue que por sinal mais fazia lembrar o local onde uma galinha poderia ter sido decapitada.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Desta vez Trump tem razão

A construção de uma Europa unida como espaço de paz, liberdade, justiça e prosperidade sustentável foi o maior projeto político da geração a que pertenço. É impossível não confessar a imensa tristeza que me invade ao observar mês após mês, ano após ano, como se caminha para aquele grau de exaustão e fadiga que faz pressentir a dissolução final. O que une, hoje, a Europa é a mais elementar pulsão de vida, o instinto de autossobrevivência. Não dos seus governantes, mas dos seus mais humildes cidadãos. O tumultuoso Brexit mostra bem como é difícil, mesmo para um grande país com soberania monetária, descoser as malhas urdidas ao longo de tantas décadas. Agora imagine-se a tragédia que seria o colapso da união monetária para os 19 países que dela participam. A zona euro sofreria um empobrecimento e uma destruição de riqueza exponenciais, como se uma guerra invisível, sem mortos nem ruínas, nos tivesse atingido. Estamos nisto há dez anos. Os atos políticos levados a cabo desde 2008, nada mudaram na gravidade dos problemas, apenas adiaram o desfecho previsível. Existe uma alternativa minimalista ao colapso. Implicaria uma negociação realista baseada nos interesses materiais concretos dos Estados, como aqueles casais que coabitam, mesmo depois do divórcio, para nenhum deles ter de ir morar na rua. A prioridade seria uma mudança das regras absurdas do tratado orçamental, que transformam, por exemplo, os 2,8% da derrapagem orçamental francesa prevista para 2019 numa coisa esplêndida, e os 2,4% solicitados pelo governo de Roma num pecado mortal! Contudo, os mesmos patéticos dirigentes políticos dos grandes países europeus que economizaram nos atos potencialmente redentores do projeto europeu, não nos poupam à sua retórica. A evocação do primeiro centenário do fim da I Guerra Mundial ultrapassou os limites do aceitável.