Um teatro para crianças feito à medida delas. É o primeiro em Portugal

A antiga sede do Belém Clube foi um pequeno teatro de ópera, serviu o bairro e teve de fechar por motivos de segurança. Reabre na sexta-feira com programação para crianças e jovens

Quando Susana Menezes começou a trabalhar projetos artísticos para crianças no Teatro do Campo Alegre, em 2001, não havia rede de teatros municipais e os espetáculos para a infância também não existiam como hoje. Parcerias, nem pensar. Seis anos depois de ter começado esse trabalho, foi convidada para desenvolver uma programação o Maria Matos que agora ganha asas e se instala no pequeno Teatro Luís de Camões, na Calçada da Ajuda. Da avenida de Roma para Belém, com inauguração marcada para os dias 1,2 e 3 de junho. "Como quem começa uma história", conta.

Mais uma página também na história deste teatro de pequenas dimensões, que foi teatro de ópera, teatro de bairro, sede do Belém Clube e que, a partir de sexta-feira, se converte em "primeiro teatro municipal em Portugal dedicado à crianças", como sintetiza Susana Menezes. O que permitirá, por exemplo, "alargar as temporadas" dos espetáculos em relação ao que vinha sendo feito até aqui.

"Era um tesouro guardado aqui", exclama a responsável, na entrada do Teatro Luís de Camões, anfitriã da visita ao lado da vereadora da Cultura da câmara municipal de Lisboa, Catarina Vaz Pinto. "Houve outras propostas, de outras áreas mais específicas, mas quando surgiu a questão do Maria Matos, também achámos que precisávamos de mais espaço para que esta programação se expandisse em todo o seu potencial", diz. Com este teatro, a câmara espera contribuir para a educação dos públicos desde a mais tenra infância, esclarece. "Compete-nos dar essas ferramentas para cada um ir escolhendo e saber escolher, essa também é uma das questões da educação artística", afirma.

Um teatro cheio de história

O teatro Luís de Camões, rebatizado LU.CA, começou por ser uma pequena casa de ópera no tempo do rei D. João V, no século XVIII. E antes de voltar a ser teatro, segundo um projeto de João da Cunha Açúcar, ainda foi celeiro. A inauguração aconteceu a 10 de junho de 1880, data do tricentenário da morte do próprio Luís de Camões. No final do século XX já era a sede do Belém Clube, que aqui esteve até se mudar a sua nova casa, um edifício na rua da Junqueira da autoria de José Adrião. Há anos que não funcionava como teatro por motivos de segurança.

LU.CA é abreviatura de Luís de Camões, mas também de "lugar das crianças e da criação da arte e uma maneira de "comunicar com a cidade", diz Susana Menezes, e "de não se confundir com o outro, o Teatro Camões", sublinha Catarina Vaz Pinto.

As obras de reabilitação do teatro começaram em 2016, segundo um projeto de Manuel Graça Dias e Egas José Vieira, que, durante a obra, descobriram os tetos pintados. Ontem, durante a visita à imprensa, Susana Menezes e Catarina Vaz Pinto, confirmaram ser da autoria de Columbano Bordalo Pinheiro. "Há uma carta em que ele fala sobre eles", diz a diretora artística.

Engavetado entre dois edifícios na Calçada da Ajuda, o teatro tem de novo bustos e a cor de vinho que os arquitetos acreditam aproximar-se do original.

Ao todo, foram investidos cerca de 1,2 milhões de euros na reabilitação da sala. Uma plateia com 81 lugares mais 23 camarotes, incluindo o real. Por trás do palco, foi criada uma zona onde agora estão os camarins, o apoio técnico e os escritórios. "Este teatro tem tudo mas em pequenino". Incluindo a equipa. Além de Susana Menezes, há uma diretora executiva, um diretor técnico e um diretor de produção.

À inauguração segue-se um período em que o teatro estará aberto à comunidade com visitas guiadas e a reposição de uma série de peças que passaram pelo Maria Matos, como Hamlet Sou Eu, do Teatro Praga (17, 23 e 24 de junho), Daqui Vê-se Melhor, de Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho (30 de junho e 1 de julho), no âmbito de um ciclo chamado 10 anos do Programa para Crianças e Jovens do Teatro Maria Matos.

Em setembro, a haverá "programação regular" para escolas e famílias. "Só não vou dizer todas as semanas, porque temos de contar com as montagens", afirma Susana Menezes, adiantando que vai ser estar aqui um espetáculo que permite tirar partido de todas as possibilidades do palco. Os elementos que sobem e descem, entre outros, que noutras salas de teatro não se usam "porque a programação infantil não chega à sala principal".

Entretanto, há conversas a decorrer com "os vizinhos". Para encontrar, por exemplo, uma sala de ensaio. E estabelecer sinergias e parcerias com outros equipamentos. Catarina Vaz Pinto lembra a Biblioteca de Belém, perto do teatro. "Cruzar as artes dentro dos espaços, mas também cruzar os espaços", refere a vereadora.

Futuro do Maria Matos conhecido em breve

O orçamento total é "na ordem dos 300 mil euros" por ano e a programação dirige-se a crianças entre os 3 e os 16 anos. Um valor que quase triplica o bolo de cerca de 100 mil euros disponível no Teatro Maria Matos. "Quando comecei tinha 4 mil contos e quando saí eram quase 80 mil euros. No Teatro Maria Matos comecei com 25 mil euros e saímos com quase 100 mil euros", nota Susana Menezes.

O futuro deste teatro, que foi decidido entregar à gestão de privados, está fechado nas duas propostas de concessão que um júri vai avaliar e que Catarina Vaz Pinto assegura que será conhecido "em breve". Tal como acontece com o Teatro do Bairro Alto, antiga casa da Cornucópia.

Três dias de festa na Calçada da Ajuda

O Teatro Luís de Camões vai estar aberto das 15.00 às 20.00 de sexta-feira a domingo. A sala principal recebe a Orquestra Juvenil Metropolitana para o concerto As Fábulas de La Fontaine, com narração de Inês Meneses, Inês Fonseca Santos, Isabel Abreu, Joana Barrios, Margarida Mestre, Raquel Castro e Márcia e imagem de Daniel Blaufuks (15.00). Os bilhetes, gratuitos, podem ser levantados na bilheteira do teatro na hora que antecede o espetáculo. Outras atividades a decorrer no teatro são uma seleção de Livros Espetaculares (Mesmo!) relacionadas com as fábulas de La Fontaine para as crianças, o atelier Fotografismos (16.00-20.00), uma visita aos camarotes com binóculos como no tempo do rei (17.00-19.00), uma exposição de abrigos para animais criada por alunos de Design de Ambientes, e, na rua, girafas, na relva fresca. E, por ser uma festa, bolo e limonada.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.