Tudo isto existe, tudo isto é bicha, tudo isto é fado

O Fado Bicha traz histórias de lésbicas, gays, bissexuais, trans e intersexuais (LGBTI) para as letras da canção-hino do país. Apresenta-se bicha por não ser tradicional, nem na forma cantada nem na forma tocada. Por dar a cara e não ter medo. Desfila hoje em Bragança na primeira marcha LGBTI da cidade, depois de na quinta-feira se ter celebrado o Dia Internacional de Luta contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia

O fado que se segue não exige silêncio para ser cantado. Muito pelo contrário: "Podem bater palmas, dançar, tirar a roupa, fazer o que vos apetecer." O pregão é de Lila Fadista. Barba rija, olhos pequenos e rasgados que a maquilhagem carregada de preto faz sobressair. Corpo coberto com duas camadas de tule com as cores da bandeira LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexo). Os brincos assimétricos e as botas de salto alto com padrão floral estão em sintonia com o voluptuoso corpo de quase dois metros que transpira ginga e provocação: "Para todos os machos sigilosos, para todos os straight acting [termo inglês para homens homossexuais que se comportam de forma a serem percecionados como heterossexuais] que há nesta sala - que eu sei que os há -, para todos os casados discretos, aqui está a vossa crónica."

A guitarra elétrica dá de si quando João Caçador faz soar os primeiros acordes da Crónica do Maxo Discreto, uma adaptação de Nem às Paredes Confesso, escrita por Artur Ribeiro e popularizada por Amália Rodrigues. Com uma voz grave, daquelas que impactam, Lila dispara ao microfone: "Estás a cem metros de mim/ no Cristo Rei/ Não mando fotos assim pois não sou gay./ Só quero experimentar novos desejos./ Mas sem nos vermos,/ pouco dizermos,/ E nada de beijos!/ De quem eu gosto é da minha namorada!/ Vá lá, entende, ela não pode saber de nada. / Não mandes mais mensagens / Que eu vou apagar o Grindr [uma aplicação de encontros para homossexuais, bissexuais e trans]."

O Fado Bicha, nome da banda composta pela vocalista Lila Fadista, 33 anos, e pelo guitarrista João Caçador, 28 anos, pegou no Fado - classificado Património Imaterial da Humanidade, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, em 2011 - e deu-lhe uma nova roupagem. As melodias são as mesmas de sempre, mas têm arranjos originais introduzidos pela guitarra elétrica, que faz as vezes da guitarra portuguesa e da viola. Quanto às letras, a maioria foi adaptada por Lila, que introduziu novas palavras, reformulou versos inteiros e também já escreveu dois poemas de raiz: Marcha do Orgulho e Crónica do Maxo Discreto. "Enquanto homossexuais, nunca nos sentimos representados nas letras das canções. Como sempre gostámos muito de fado, quisemos torná-lo uma ferramenta de expressão, para nós, e de visibilidade para a nossa comunidade [LGBTI]", explica a cantautora.

Se o Fado Bicha é arte? "Claro que sim!", respondem em uníssono. Uma arte que se assume "política" e "ativista" e quer desconstruir as fronteiras fixas dos géneros masculino e feminino. "O fado está assente em quatro pilares: a melodia, a harmonia, o ritmo e a letra. O seu principal papel sempre foi o de contar uma história: da cidade, do amor, do desamor. E nós fazemos isso, contamos histórias, só não são as histórias expectáveis, heteronormativas.... Recebemos muitas mensagens de ódio nas redes sociais, muitos fadistas dizem-nos que aquilo que fazemos não é fado. Tenho uma explicação muito própria para isso: as músicas que tocamos têm o reportório do fado, se as pessoas não lhe quiserem chamar assim, pouco me importa. Não é fado, mas é Fado Bicha", diz Caçador. João conhece bem o mundo da fadistagem: atua em casas de fado tradicionais, faz roteiros turísticos sob este tema, em Lisboa, e lançou em janeiro o primeiro single em voz própria, Amor sem Lugar, com música de Mário Laginha.

"Até Amália foi uma grande bicha", atira o guitarrista da banda. E explica: "As palavras podem ser muitas coisas, dependendo da forma como são ditas. O que a comunidade LGBTI fez - e nós tentamos fazer também - foi pegar num termo conotado como pejorativo e usá-lo como uma forma de insurreição, de catarse. Transformámos a palavra bicha - que durante tantos anos nos atormentou, por estar associada a uma aberração, a algo que é desprezível, a um saco de bater - e tornámo-la um instrumento de luta. Eu sou bicha e sou bicha orgulhosa. Não são todos os homossexuais que são bichas e um heterossexual também o pode ser - para ser bicha é preciso ser corajosa. A Amália era uma bicha gigante porque rompeu com muitos padrões no fado: foi a primeira a cantar Camões, "apedrejaram-na" em praça pública por ter feito uma adaptação de um dos seus poemas [Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente]."

Palco das delícias

Estamos no número 49 da Rua da Barroca, no Bairro Alto, em Lisboa, bar da Galeria Zé dos Bois, uma associação cultural onde João e Lila atuam uma vez por mês, aos sábados. Ainda não passa das 11 horas da noite e a sala já está à pinha: muitos amigos do duo, pessoas da comunidade LGBTI, turistas, outros tantos curiosos. "Eu sou a Lila, sou a vocalista do Fado Bicha, e quero dar-vos as boas-vindas a uma noite de delícias que é o que nós temos para vocês hoje." Os que assistem pela primeira vez ao espetáculo não conseguem esconder o espanto - há uma mulher, na casa dos 30, a quem o amigo tem de dar uma cotovelada para que saia do estado de aparente hipnose. Tudo começou há um ano quando João Caçador, licenciado em Jazz e Música Moderna, perguntou a Tiago Lila, formado em Psicologia, se queria marcar um ensaio.

"Eu fiquei excitadíssimo porque fazia aquilo à capela com uns instrumentais manhosos, mas não era uma coisa sustentável, dava-me prazer, mas era preciso mais. Combinámos encontrar-nos e ele disse-me: "Então canta lá..." Fiquei cheio de vergonha e não quis cantar."

- "Fez birra", brinca João.

- "Não fiz birra, mas estava bué nervoso. Depois lá cantei", explica-se Lila.

- "Fizemos um ensaio e, a partir daí, completamente irmãs, BFF [o acrónimo inglês para best friends forever, que em português significa "melhores amigas/ os para sempre"]. Falámos logo de tudo: dos amores, dos desamores, das traições...", recorda o guitarrista.

Até agora, o Fado Bicha tem subido, sobretudo, a palcos alternativos. Mas também isso está a mudar. No dia 20 de abril, durante o Festival Política, levaram cerca de 500 pessoas ao Cinema São Jorge, em Lisboa. Foi a primeira vez que os pais de João e Tiago assistiram a um concerto e as reações não podiam ter sido mais diferentes: "A minha mãe estava sentada na primeira fila, completamente babada, a dizer "este é o meu filho"", conta João; "os meus pais tiveram uma reação agridoce. A parte doce foi que foram, a parte amarga foi que não disseram nada, lamenta Tiago. Ambos concordam que a diferença de atitudes se pode justificar pelos papéis que cada um ocupa na banda: João Caçador projeta uma imagem de galã discreto, mais atrás; enquanto Lila Fadista brilha em primeiro plano, andrógina, tentadora.

Nesse espetáculo, onde foram aplaudidos de pé, a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro, fez as honras, o que levou Lila Fadista a questionar, meio a brincar, meio a sério, se estariam no caminho certo: "Para um projeto que queríamos que fosse provocador e subversivo, ter um concerto aberto por um membro do governo... Não sei se é motivo de satisfação ou se devíamos arrumar já as trouxas e parar com isto", disse, logo nos primeiros segundos em que pegou no microfone. Parece que, afinal, a decisão passou por pegar nas trouxas e começar a ocupar novos espaços. Na passada segunda-feira, dia 14, cantaram no jantar do 6.º Fórum Europeu, em comemoração do Dia Internacional de Luta contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia, que no dia 17 se celebrou. O Antigo Picadeiro do Museu dos Coches acolheu ativistas da causa, representantes de vários Estados membros do Conselho da Europa, decisores políticos e académicos. Do governo português marcaram presença Tiago Brandão Rodrigues, ministro da Educação, e Maria Manuel Leitão Marques, ministra da Presidência e da Modernização Administrativa. No final da noite, esta juntou-se a Rosa Monteiro, secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, e a Ricardo Robles, atual vereador da Educação e Direitos Sociais, eleito pelo Bloco de Esquerda (BE) na Câmara Municipal de Lisboa, com quem Lila e João pousaram para uma selfie.

Este sábado, desfilam em Bragança, na primeira marcha LGBTI da cidade, e atuam no Museu do Abade de Baçal. Uma iniciativa vista com pouco entusiasmo pelo ecossistema político-partidário da cidade transmontana. Sob proposta do BE local, a Assembleia Municipal bragantina aprovou um voto de congratulação ao evento. Resultado: 43 abstenções, 18 votos a favor e um contra - o de Fernando Gonçalves, do Partido Social-Democrata, que considerou a iniciativa "lamentável". "Vamos a Bragança porque é uma cidade do interior e porque queremos muito sair de Lisboa e cantar por todo o país. Fora dos grandes centros urbanos, há menos espaços de usufruto cultural e, consequentemente, menos espaços LGBTI. Vamos possibilitar uma nova discussão, nem que seja por duas horas", ambiciona Lila.

Géneros há muitos

A esta altura já se devem ter perguntado se Tiago Lila e Lila Fadista são a mesma pessoa. O próprio explica: "Eu sou o Tiago Lila e a Lila Fadista sou eu em palco, é a postura que eu assumo. Não é um personagem, é só a maneira como me expresso. Nós não temos todos a mesma postura em todos os contextos onde atuamos: com a família, com os amigos, profissionalmente. Por isso, fez-me sentido usar o meu nome: Lila, que é apelido e, ao mesmo tempo, nome de mulher." Um nome que, quando Tiago era criança, era usado contra ele - "Lila, pila, larila, podem imaginar... parecia uma maldição, já não bastava ser gay, ainda tinha de me chamar Lila" - e que hoje enverga com orgulho.

Mais complexo é perceber o porquê de Tiago, a Lila Fadista, se assumir como uma pessoa transgénero agénero: "Não me identifico nem como homem nem como mulher. Sou agénero. É algo recente na minha vida, como me identifiquei como homossexual muito cedo [tinha 12 anos], arrumei a questão de género. Só mais tarde é que percebi que ser homossexual não chega para me definir. Por isso me assumo como transgénero, no sentido em que tenho uma identidade de género [agénero] que não coincide com a que me foi atribuída à nascença [masculina]."

Orientação sexual, identidade de género, expressão de género e sexo biológico são termos que se refletem num espectro muito lato, com muitas combinações possíveis e difíceis de meter nas gavetas onde tendemos a querer enfiar tudo o que tenha que ver com sexualidade e afetos. "No coração está a nossa orientação sexual, a forma sexual com que nos ligamos às pessoas", começa por explicar João Caçador, ao mesmo tempo que pousa a mão direita no lado esquerdo do peito. E continua: "Na cabeça está a nossa identidade de género, o género com que nos identificamos - se é masculino, feminino, uma combinação de ambos ou nenhum; a expressão de género é a forma como nos mostramos exteriormente, a nossa aparência, é algo percecionado culturalmente e que varia ao longo do tempo - a maquiagem é uma coisa associada ao género feminino, mas há 500 anos só os homens é que se pintavam; e o sexo biológico é o órgão sexual - se tem um pénis ou uma vulva. A pessoa que tem uma ambiguidade ao nível do sexo biológico é designada de intersexo [o termo popularmente usado durante anos foi hermafrodita, mas há muito que médicos, ativistas e investigadores o usam apenas para referir-se a animais irracionais ou plantas]. Ou seja, eu posso ter uma expressão de género completamente diferente da minha identidade de género: identificar-me como um homem, gostar de mulheres e vestir-me como mulher, por exemplo", explica o guitarrista, tentando reproduzir a formação que como voluntário da Rede Ex Aequo (uma associação de jovens LGBTI e apoiantes) leva até a algumas escolas públicas. É também para colocar um holofote nestas questões que serve o Fado Bicha.

O microfone atraiçoa-os e a voz de Lila Fadista deixa de se ouvir na sala. João Caçador ainda tenta a emenda, mas sem sucesso. Não faz mal. O ambiente é informal e os erros fazem parte da empatia que a banda tem com o seu público. Lila projeta a voz, agora sem amplificador, e a festa segue: "Vamos lá terminar isto com a Marcha do Orgulho outra vez? Gostava de sentir mais excitação desse lado, mais pulos, mais gritos, mais fogo interior. Com orgulho da nossa comunidade, do nosso potencial e da nossa riqueza. Podem-se levantar se quiserem: (...) Nem menos nem mais, direitos iguais/ São muitas as cores desta minoria/ Em cada esquina, amigas/ Novas e antigas/ Mil bichas em euforia/ Política na rua, a minha voz e a tua/ Em exaltação e barulho/ Nós existimos, amamos e sorrimos/ É a Marcha do Orgulho!"

* Este artigo é um trabalho conjunto dos projetos de jornalismo independente É Apenas Fumaça (apenasfumaca.pt) e Divergente.pt, onde esta reportagem foi originalmente publicada.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.