"O futebol é fenómeno de substituição da experiência religiosa"

Recorde a entrevista ao agora arcebispo Tolentino Mendonça, a propósito do lançamento do seu livro, em setembro de 2017. José Tolentino Mendonça foi esta terça-feira nomeado para o cargo de arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano

No espaço de quatro meses, Tolentino Mendonça deu à impressão um livro de poesia e outro de ensaio. Uma coincidência temporal que não lhe desagradará: "Acredito que a minha obra é uma só e não há uma poética e outra ensaística ou teológica. É todo um trabalho de escrita."

Mesmo que os leitores as separem, ou como diz, "arrumem em gavetas diferentes", o que gostaria é que fosse "um único mapa para o que sou e busco". Não duvida que quem só ler os seus ensaios fica com "uma visão incompleta" e que o mesmo acontece a quem o faz com a poesia. Numa das primeiras críticas a propósito da sua obra, Eduardo Prado Coelho afirmava que Tolentino Mendonça era responsável pelo aparecimento dos "sacos de plástico", na poesia, o que lhe agradou: "É um elogio, porque persigo o quotidiano no poema". É uma parte do que se encontra nos poemas de Teoria da Fronteira, e o total no conjunto de parábolas a que chamou O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas. "Creio que a poética que possamos construir hoje deve ter esse sabor de parábola, pois um dos dramas da cultura é ter perdido o carácter parabólico e ser o comentário do comentário, que não ajuda às perguntas fundamentais", diz. Uma entrevista sobre o ensaio O Pequeno Caminho, sem esquecer a poética da Teoria.

Inicia O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas sugerindo ao leitor que se sente mais vezes num banco de jardim, sem ter medo das perguntas que lhe surgirão. Não o está a assustar?

Gosto muito do Italo Calvino e do livro Se Numa Noite de Inverno Um Viajante, onde o próprio escritor é uma personagem que passa para dentro da fábula. E o banco de jardim pareceu-me ser esse convite ao leitor para que se sente e comece a viagem de fazer a experiência do encontro, que é fundamental.

Os dois textos seguintes ficam em contraciclo, ao referir Clarice Lispector a afirmar "Eu sou uma pergunta" face à "quietude" em Thomas Merton. Como convive quem está nesse banco com a pergunta e a quietude?

As perguntas não são necessariamente as que nos colocam em estado de alarme, mas sim a forma com que a nossa experiência se organiza. Não é um caminho para fora de nós, antes um rasgão ou uma brecha que não nos fecha. Há uma espécie de clareira em que a contemplação é possível, pois o que nos falta é escutarmos as próprias perguntas, as fundamentais para a nossa construção e compreensão da vida.

Acha que as perguntas do segundo milénio ainda se justificam no terceiro?

Creio que as perguntas que o primeiro casal humano sobre a Terra colocou continuam relevantes. Isso confirma-se nos textos clássicos com milhares de anos, o que diz que as respostas podem alterar-se mas as perguntas persistem.

Com toda a evolução tecnológica, daqui a cem anos essas perguntas clássicas ainda terão pertinência?

A pergunta do homem pelo próprio ser: quem sou eu, quem és tu, de onde venho, para onde vou, o que me é permitido esperar? Questões destas, ontológicas, são as que distinguem o ser humano quando pergunta por si e não apenas pela exterioridade do mundo. O homem pergunta pela validade da sua experiência e isso vai distinguir-nos sempre no sentido de que os modos de existência serão muito variados porque há um abismo enorme entre décadas - quanto mais entre séculos e milénios. Mas as perguntas continuam a ser espelhos iguais em que nos revemos.

Ainda cedo faz tiro ao alvo, como se fosse um snipper a disparar para quem está sentado nesse banco, ao dizer que "a vida é dececionante"...

...E também digo que é preciso não ter medo de reconhecer que a vida é isso.

O leitor aceita essa perspetiva negra?

O leitor já o sabe ao partir da nudez do seu olhar e das próprias desilusões. Vivemos numa sociedade que acredita que são os sonhos e utopias que nos movem, mas frequentemente são distopias o ponto fundamental para iniciar um caminho. Com a deceção, podemos ser mais autênticos porque parte-se de uma realidade que permite um recomeço. Sem ela, não há recomeço.

Sente-se uma "sensação" japonesa ao lermos este livro. O que se passou?

É interessante falar da aproximação à sensibilidade oriental pois o que se sente no livro é o questionamento profundo em relação às certezas do Ocidente. O que parece oriental é a interrogação ao nosso modo de vida, a tabus e convenções, que são muros altos que impedem ver a paisagem da existência.

O que está na origem destes textos?

O embrião do projeto deve-se ao convite de um jornal italiano, o Avvenire, para escrever durante os primeiros três meses deste ano diariamente. Depois, continuei o processo de escrita e, assim, nasceram estas micronarrativas que são um género desafiador por se aproximarem muito da nossa experiência do quotidiano, sem um fio narrativo longo mas com uma respiração breve.

A religião aparece num quinto dos textos. Foi propositado ou não consegue escapar à sua formação religiosa?

Isso é muito subjetivo e depende do leitor, até porque acho que a religião está em todos os textos. Há o explícito, o implícito e pontos de fuga. Para mim, são textos onde o religioso acaba por contaminar a visão, só que expresso não numa categoria pastoral mas cultural e, ao mesmo tempo, na procura de sentido, na busca da verdade e o desejo de Deus. Ou seja, uma grande viagem pela cultura contemporânea.

Que une literatura e religião. Temos a referência ao discurso do nobel Orhan Pamuk, que diz que para se tornar escritor é preciso fechar-se num quarto e, quatro linhas depois, está o conselho de Jesus para a oração: "Entra no teu quarto e fecha a tua porta"...

As coisas estão muito mais próximas. O discurso religioso é visto como estando num reduto e a religião deixou de ser uma ferramenta habitual da construção do mundo, daí que este livro pretenda desconstruir o interdito e o preconceito ao mostrar que o discurso de um nobel sobre a literatura e a experiência comum de um escritor - um poeta ou um músico - na sua solidão não difere da solidão de um orante.

A religião ainda chega ao mundo ateu como acontecia há uns anos?

Interessa-me a religião expressa de forma não-religiosa. Aprendo muito com os não-religiosos, ateus e indiferentes, pois os que não creem fazem perguntas aos que creem e é importante que estes as escutem e aprendam. Acredito que a crença é um laboratório de descrença e que dentro de um crente há sempre um não crente. Mesmo quem vê Deus por todo o lado faz a experiência de que Ele não está em sítio algum e o contrário também é verdade.

Como assim?

Faz a experiência porque a Deus nunca ninguém O viu, diz o Evangelho. E a descrença é também lugar teológico.

Não entra em confronto quando diz que é preciso reaprender o espanto, pois o mundo religioso já não espanta!

Espanta e muito, basta olhar o Papa Francisco e o efeito que o seu exemplo tem sobre crentes e não crentes.

Questiona a criação artística. Qual é o grau de dificuldade de um livro destes?

Interessa-me que o livro documente o processo da sua própria criação. Qual é o lugar do pensador? Não é ser um oráculo, nem tenho verdades na manga para distribuir. Um livro sobre perguntas não pode ser um livro de respostas, daí que a dimensão interrogativa conjugada na primeira pessoa seja visível.

Enquanto professor, gostaria mais de ensinar no início das universidades?

São desafios diferentes. A universidade é uma das grandes invenções humanas por ser o espaço da pergunta mais radical e estruturante, que tem mantido desde o início essa salvaguarda da liberdade de questionar.

A democratização de um conhecimento em que todos têm uma opinião que dessacraliza o verdadeiro saber não lhe "cheira" um pouco a Facebook?

A sacralização não pode ser a ideia de que apenas poucos devem ter acesso ao saber, porque a sabedoria tem de ser encontrada não na posse mas na partilha. Lidamos com o novo com desconfiança enorme porque há sempre uma perda e isso custa-nos e confunde-nos, porque exige uma readaptação. Não é o Facebook que é superficial - não tenho -, pois acredito que possa existir um Facebook que tenha a profundidade de um tratado filosófico. O problema não é o dispositivo, mas o que estamos disponíveis para fazer com ele, e isso ajuda à reconciliação com o presente.

Essa reconciliação com o presente surge num dos seus textos, o que é sobre futebol e que surpreende. ..

Penso que existe uma hipervalorização no espaço público, mas sociologicamente é muito interessante porque o futebol é um fenómeno de substituição da experiência religiosa - as sociedades precisam de ritos. Se vivemos uma desrritualização da sociedade nos ritmos habituais de vida, também são precisos ritos para organizar a nossa consciência do mundo e encontramos essas novas ritualidades, sem dúvida, no futebol, que representa um rito dominical para milhares de pessoas.

Nestes textos surgem várias provocações, como a história de um amigo de Marguerite Yourcenar que disse: "Se Jesus tivesse sido fuzilado em vez de ter morrido crucificado, eu acreditaria nele." Qual é a sua intenção?

A frase "Meus Deus, porque me abandonaste" é a frase bíblica mais repetida neste livro. E central porque mostra até que ponto Jesus abraça a condição humana, e essa é uma visão da religião que me interessa muito. Não me interessa uma teologia autorreferencial mas um discurso religioso que abrace o humano no que pode ser a sua surpreendente trivialidade. Como num livro que se esperaria mais sério e surge um texto sobre o futebol, um filme ou um banco de jardim.

Repesca um texto de Pasolini, O Artigo dos Pirilampos, em que critica a industrialização. O leitor aprecia isto?

É um desafio porque os sinais da mudança que está a acontecer não se encontram apenas nos livros a serem escritos mas no clima, no desaparecimento de espécies e noutras situações. Sintomas de uma mudança que está mais próxima de nós do que pensamos. O texto de Pasolini é contra a política de terraplenagem das grandes perguntas e um desafio à releitura do real que nos é mais próximo. Aquilo que Oscar Wilde dizia ser o mais difícil de ver: o óbvio.

Daí que alerte sobre o digital!

Comparo muito o tempo em que vivemos como a uma parábola de Jesus, a de quando os pescadores lançam a rede e apanham de tudo o que há no mar. Hoje, o mundo digital é uma grande rede onde tudo coexiste: bom e mau, qualificado e inqualificável, consentido e absurdo. Este é o tempo em que há necessidade de discernimento crítico.

Usa e abusa da palavra amor neste livro. Ainda move multidões?

O meu interesse não é movê-las, mas quando olho para mim e o que é um ser humano, a palavra amor continua a ser um termo decisivo. Com tudo o que possa parecer de trivial, gasto ou kitsch, há sempre um momento em que ganha força e destaca-se. É preciso não ter vergonha de falar do amor.

Ao consultar o índice onomástico os mais referenciados, e em igualdade, são o Papa Francisco, São Francisco de Assis e Simone Weil. Porquê?

Não as tinha contado! Sem dúvida que o Papa marca este tempo pelo sopro de primavera e de esperança que a sua palavra traz. Penso que nos obriga a uma reinterpretação da própria vida numa chave diferente e não é por acaso que Assis também aparece repetido como fonte de inspiração, pois precisamos de redescobrir outras fontes para o nosso tempo e fazer dos antigos mestres novos. A linguagem do Papa é amplamente partilhada e todos a entendem, por isso muitas vezes é acusada de ser não--religiosa ou não-teológica, mas quanto mais humano mais teológico.

Mesmo que se questione que o seu estremecimento inicial esteja sem uma continuação?

Não penso assim, o estremecimento inicial de Francisco crescerá cada vez mais e esta frescura do Evangelho será lembrada.

Outro nome que espanta no texto é o de Hugo Pratt [e Corto Maltese] que, curiosamente "conversa" com o poeta William Blake. Inesperado!

O Hugo Pratt é um mestre da inutilidade e os heróis do inútil são muito inspiradores. Quanto a Blake, como todos os poetas são inúteis, colocados lado a lado percebe-se melhor a verdade. A cultura pop ajuda a perceber as interceções e interessa-me trabalhar essas aproximações. Aliás, creio que a personagem Corto Maltese está muito próxima dos místicos e que a deambulação que faz é uma espécie de peregrinação.

Um místico?

Sim, como o místico dos místicos, o Mestre Eckhart. O desejo de nada ou o de ser uma chama na dispersão do mundo é o que encontramos nas aventuras do Corto Maltese.

Porquê chamar O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas a este ensaio?

Porque é uma espécie de filosofia do quotidiano e da vida minúscula em que creio. Interessa-me fazer uma teologia no mínimo porque é a partir desse fragmento que é dado a cada um a possibilidade de nos ligarmos às coisas grandes e à amplitude de horizonte.

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