Terrence Malick filma um carrossel de palavras ditas e confissões adiadas

O realizador continua a encenar os mistérios das relações humanas: em Música a Música, o pano de fundo é o festival South by Southwest, em Austin, Texas. Rooney Mara, Ryan Gosling e Michael Fassbender são os protagonistas

O novo filme de Terrence Malick, Música a Música (estreia hoje), acontece em ambientes marcados pelas mais diversas vibrações musicais - o pano de fundo é o célebre South by Southwest, festival anual da cidade de Austin, no Texas, em que os inúmeros concertos servem de pretexto para múltiplos eventos ligados à música (cinema, video, novas tecnologias, etc). Seja como for, é pena que, para o lançamento português, não tenha sido adotada uma tradução literal do título original, Song to Song: esta é, de facto, uma viagem de muitas emoções vivida momento a momento, "canção a canção".

As vivências das personagens são-nos apresentadas como pequenas "canções" de estranha e tocante intimidade. E não só porque muitos temas são escutados na banda sonora (Bob Dylan, Die Antwoord, Iggy Pop, etc.). Também porque cada situação surge vivida e encenada como uma variação sobre uma componente específica - apetece dizer: uma melodia - da vida desta ou daquela personagem. A certa altura, assumindo o seu próprio papel, Patti Smith surge mesmo a dizer que seria capaz de tocar indefinidamente um determinado acorde na sua guitarra... Porquê? Porque, como na vida de qualquer um, a repetição das mesmas notas pode abrir para as mais inesperadas revelações.

Assim é a visão de Malick: um carrossel de encontros e desencontros, gestos consumados ou suspensos, palavras ditas, confissões adiadas. Para além da indústria das canções, dos concertos e da música em geral, aquilo que liga as personagens - em especial o trio interpretado pelos magníficos Michael Fassbender, Rooney Mara e Ryan Gosling - pode definir-se como um impasse identitário. Cada um deles duvida, afinal, da contundência do seu próprio desejo. Será esse, aliás, um dos elementos nucleares do universo de Malick: cada vez que se desenha um elo amoroso entre dois seres humanos, instala-se uma incerteza, ao mesmo tempo afetiva e intelectual, que faz com que qualquer utopia de felicidade se desvaneça num assombramento à beira do pânico.

Nada disto é novo, como é óbvio. Ou melhor: se é verdade que este é um filme que nos surpreende pela absoluta singularidade dos seus momentos dramáticos, não é menos verdade que nele deparamos com as marcas de uma experimentação, de uma só vez temática e formal, que Malick começou em 2011, com o aclamado A Árvore da Vida - podemos mesmo dizer que Song to Song funciona "apenas" como um capítulo que poderia ser integrado, com total pertinência e harmonia, na estrutura narrativa de A Árvore da Vida.

A natureza humana, seus enigmas e contradições, é o núcleo temático da obra de Malick - eis uma definição tão objetiva quanto discutível. Objetiva porque, de facto, os elementos naturais se impuseram nos seus filmes como paisagem decisiva das convulsões das personagens: o notável trabalho do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki tornou-se mesmo indissociável de tal processo criativo. Discutível porque a natureza acaba por se revelar contra qualquer "naturalidade" ou "naturalismo": cada imagem convoca-nos como uma espécie de símbolo de um alfabeto desconhecido, uma vinheta breve celebrando os mistérios do comportamento humano.

Será precipitado julgar que tal visão se esgota num qualquer "formalismo" dos filmes e do cinema. Malick é mesmo, hoje em dia, um dos cineastas mais puros na resistência à encenação dos seres humanos através de um qualquer conceito de eficácia ou performance. Neste filme, em particular, a sua ternura cruel rejeita o "liberalismo" das narrativas dominantes, expondo a solidão radical de cada um - o seu génio condena-o a ser um cineasta maldito.

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